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Eleições
Pitbull do Maranhão...
...é o apelido de um candidato que é
acusado
de ser o quarto maior fraudador do Brasil.
Casos como esse mostram que está na hora
de rever a legislação eleitoral

André Rizek, de Bom Lugar
Luludi/Agluz
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| O Pitbull, carregado por seguranças:
a imagem do cão furioso (no detalhe) está
em adesivos e muros de Bom Lugar |
Uma decisão do Tribunal
Regional Eleitoral do Rio de Janeiro acendeu na semana passada uma
polêmica nacional. O presidente do tribunal, Marcus Faver,
declarou que deixaria de fora das eleições municipais
todos os candidatos que estão sendo processados na Justiça
comum. A medida atingiria 20% das candidaturas. Na última
quinta-feira, sob a artilharia de juristas e ministros do Tribunal
Superior Eleitoral (TSE), Faver voltou atrás na decisão.
Mas a polêmica permanece. É a primeira vez que a Justiça
Eleitoral ameaça tomar uma iniciativa dessa natureza. Ela
fez tanto barulho porque vai de encontro a um direito instituído
na Constituição de 1988, o da presunção
da inocência, segundo o qual prevalece o princípio
de que um acusado é inocente até a sentença
final. Por isso os juristas ficaram em polvorosa. Alegam que, além
de ferir um direito constitucional, a impugnação das
candidaturas poderia levar a situações injustas, como
as vividas nos tempos da ditadura militar, quando qualquer ação
na Justiça que tivesse um mínimo de fundamento tirava
um candidato do páreo. Na ditadura, a lei acabou servindo
como instrumento para perseguições políticas.
Diante da controvérsia, o ministro Sepúlveda Pertence,
presidente do TSE, declarou: "Esperar um processo ser julgado é
um risco a favor da democracia".
O que Pertence e outros juristas
não estão considerando é que a abertura política
completou duas décadas e o regime democrático está
bem consolidado no Brasil. Também não estão
levando em conta que a Justiça brasileira é tão
morosa que consome, em média, seis anos para concluir um
processo como o de homicídio. Isso quer dizer que um cidadão
pode eleger-se e exercer o mandato inteiro, para só então
receber a condenação por assassinato. Em países
como Estados Unidos e Inglaterra a legislação eleitoral
é igual à brasileira, mas a Justiça é
célere, o que evita a permanência de assassinos e estupradores
em cargos públicos. Entre os 226 processos levantados no
TRE do Rio, encontra-se de tudo: tráfico de drogas, assalto,
estelionato e até homicídio. Em São Paulo,
7% dos candidatos estão pendurados na Justiça. São
81 indivíduos que não têm nenhum constrangimento
em ocupar a dupla condição de candidato e réu.
Igor Camara
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O CASO DO CEARÁ
O político que aparece na foto é deputado
estadual, chama-se Manoel Duca da Silveira Neto e quer eleger-se
prefeito de Acaraú, no Ceará. Detalhe: responde
na Justiça como mandante do homicídio do ex-prefeito
da cidade, ocorrido em 1998. O mesmo processo não o impediu
de eleger-se deputado há dois anos. |
A Justiça Eleitoral brasileira não fez um inventário
nacional dos candidatos processados no atual pleito, mas a toda
hora pipocam no noticiário histórias como a do deputado
estadual Manoel Duca da Silveira Neto, do Ceará, candidato
a prefeito no município de Acaraú, processado por
homicídio (veja
quadro), e a do maranhense Rogério Costa.
Mais conhecido como "Pitbull", apelido que lhe foi dado porque tinha
uma criação desses cães em casa, Costa disputa
pelo Partido Trabalhista Nacional (PTN) a prefeitura de Bom Lugar
cidade de 12.000 habitantes a
250 quilômetros de São Luís , enquanto
responde a um processo de fraude por clonagem de cartões
de crédito do Bradesco. A investigação policial
concluiu que Pitbull é o líder de uma das quatro maiores
quadrilhas do gênero no Brasil, com atuação
em cinco Estados, entre eles São Paulo.
O caso de Rogério Costa,
de 34 anos, é emblemático. Depois de ser flagrado
num quarto de hotel com cartões clonados e equipamentos para
fazer falsificação, ele passava uma temporada de três
meses na prisão de São Luís quando teve sua
candidatura a prefeito homologada. Ainda recluso, fez o teste para
provar não ser analfabeto, uma exigência da Justiça
Eleitoral. Pitbull não completou o ensino fundamental, mas
passou na avaliação. No mês passado, conseguiu
habeas corpus e deixou a cadeia. Seu primeiro ato foi subir na caçamba
de uma caminhonete e retornar a Bom Lugar, arremessando uma pilha
de dinheiro à multidão na rua principal da cidade.
"Sou conhecido como 'Robin Hood'", diz o orgulhoso candidato. Ele
já havia sido preso em flagrante uma outra vez em Santa Catarina,
em 1998, e foi condenado pela Justiça. Por essas e outras,
não demorou a ganhar o apelido de "Bandidão", o mais
lembrado pelos opositores.
A situação eleitoral
de Bom Lugar é pitoresca e não tem nada de
aprazível, como sugere o nome da cidade, uma das mais miseráveis
do país. Rival de Pitbull na disputa, o atual prefeito Marcos
Miranda, candidato à reeleição lembrado pelos
próprios assessores por "não ser nenhum santo", foi
cravejado por cinco balas num atentado, em maio. Sobreviveu por
um milagre e, apavorado, não coloca mais os pés fora
de casa. O inquérito policial apontou como um dos mandantes
Manoel dos Santos, outro candidato à prefeitura de Bom Lugar.
Ele fugiu, conseguiu uma liminar que garantia sua liberdade e decidiu
desistir da carreira-solo para apoiar Pitbull. Juntamente com Manoel,
o vereador Arilson Andrade Santos também foi acusado pela
polícia de encomendar o atentado à vida de Miranda.
Ao contrário do companheiro, o vereador continua apostando
todas as fichas na campanha para a reeleição, enquanto
corre na Justiça o processo por tentativa de homicídio.
É também forte cabo eleitoral de Pitbull. "O prefeito
deve dinheiro a muita gente daqui. Deve saber por que levou os tiros",
diz Pitbull.
Em Bom Lugar, não há
nenhum vestígio de tradição partidária.
Lá os grupos políticos são conhecidos por nomes
de bichos. O Cachorrão é, claro, de Pitbull. Existe
ainda o Cobra, do atual prefeito, e o Leão. Enquanto responde
ao processo judicial, Bandidão, ou Robin Hood, faz campanha
em Bom Lugar embalado pelo refrão do funk Só as
cachorras / U-U-U-U e escoltado por cinco capangas. Talvez valha
a pena parar para discutir a atual legislação eleitoral.
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No município
do Rio de Janeiro, 20% dos candidatos
respondem a processos por crimes como homicídio,
tráfico de drogas e assalto. Em São Paulo,
o número é de 7%.
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