Edição 1871 . 15 de setembro de 2004

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Eleições
Brasileiro sabe
votar, sim, senhor

Os eleitores brasileiros estão
mais objetivos e menos emotivos
na hora de escolher um candidato


Cynara Menezes e Monica Weinberg


NESTA REPORTAGEM
Gráfico: Veja comentários sobre os principais candidatos de algumas cidades do país

A melhor novidade das próximas eleições municipais não diz respeito aos candidatos – e sim aos eleitores. O brasileiro que ia às urnas embalado pela emoção ou motivado por pura ideologia está dando lugar a um tipo mais racional, atento ao desempenho dos políticos e com boa memória para fugir dos que não corresponderam às suas expectativas. Os números jogam luz no fenômeno. Pesquisa realizada pelo instituto Vox Populi na cidade de São Paulo, a pedido de VEJA, concluiu que, de uma lista fechada de treze qualidades, 46% do eleitorado prioriza atributos associados à honestidade, como "ter palavra" e "ser sincero" (veja quadro). Trata-se de um resultado pouco provável no Brasil de pouco mais de uma década atrás, quando se privilegiavam políticos que vendiam apenas a imagem de empreendedores e bons de comunicação. Esse tipo não cativa atualmente mais que 2% do eleitorado, como revela a pesquisa Vox Populi. A idéia da eficiência administrativa está agora diretamente conectada à confiabilidade – e não ao volume de canteiros de obra que os políticos dizem ser capazes de erguer. Enquetes feitas em capitais como Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife chegaram à mesma conclusão. "Houve um salto de qualidade no eleitorado brasileiro", diz o cientista político Marcus Figueiredo, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj).

Há outros sinais de que o voto passou a ser guiado por aspectos mais objetivos. Uma comparação feita pelo instituto Datafolha entre os brasileiros que foram às urnas em 2000 e o atual eleitorado mostra que encolheu de 40% para 33% o número de pessoas que dizem votar baseadas principalmente na "pessoa do candidato". Por outro lado, aumentou de 44% para 54% a fatia de eleitores que só fazem a opção depois de avaliar a proposta de governo. No atual pleito, o eleitor tem se revelado um observador atento da administração em seu município. Quando acha que o governo vai bem, manifesta intenção de voto no candidato da situação. Se o avalia mal, procura uma alternativa. No Rio de Janeiro, por exemplo, a administração do atual prefeito Cesar Maia (PFL) é considerada boa ou ótima por 61% do eleitorado e isso tem um reflexo direto nas pesquisas de intenção de voto. Maia alcançou 44% das preferências e está com chances reais de vencer no primeiro turno. A mesma lógica coloca na dianteira os candidatos do PT em Belo Horizonte e Porto Alegre, onde as atuais gestões, petistas, também são bem avaliadas pela população. "O voto baseado na análise da administração revela uma objetividade que nunca teve tanto peso sobre o voto no Brasil", observa o cientista político Rubens Figueiredo. "Antes as pessoas nem prestavam atenção nisso."

Em São Paulo, o eleitor tem dado demonstrações de que está mais cuidadoso. A pesquisa Vox Populi chegou a conclusões interessantes sobre o assunto. Uma delas: 66% das pessoas que dizem não votar sob nenhuma hipótese na atual prefeita Marta Suplicy alegam razões absolutamente objetivas para fazer tal afirmação. Por exemplo, "não estar fazendo uma boa administração", "ter implantado taxas" ou "ter deixado as obras para o último ano de mandato". Questões pessoais, como antipatia ou o fim do casamento com o senador Eduardo Suplicy, ficam em segundo plano. Especialistas dizem também que a tradicional estratégia de despejar sobre a cabeça do eleitor promessas mirabolantes não tem mais surtido efeito. Um exemplo disso é o CEU Saúde, projeto de policlínicas que é uma das bandeiras de campanha de Marta. Ao que tudo indica, a promessa não funcionou. Para reverter a situação, na semana passada a prefeita petista disse que, na hipótese de ser derrotada pelo tucano José Serra, "a crise política irá se alastrar pelo país". A idéia de partir para o ataque foi do marido de Marta, Luis Favre. O publicitário Duda Mendonça, que comanda a campanha, é contra. A frase de Marta lembrou um discurso feito pela atriz Regina Duarte durante a campanha presidencial do próprio Serra. Regina disse na ocasião que tinha medo do que poderia acontecer com a eleição de Lula. Não funcionou daquela vez. Não deve colar agora.

Pesquisas recentes vêm dando conta de uma outra tendência positiva sobre o eleitorado: o aumento da identificação dos brasileiros com partidos políticos mais estruturados. De 1989 para cá, saltou de 48% para 58% o número de pessoas que declaram identificar-se com uma agremiação, resultado que faz o Brasil aproximar-se de países como Estados Unidos, França e Inglaterra, onde essa taxa fica em torno dos 70%. Trata-se de um fenômeno mais forte nas capitais que nos grotões, onde ainda é comum o voto personalista, mas autoriza uma leitura bastante otimista sobre o avanço da democracia brasileira. Uma análise das pesquisas eleitorais nas 26 capitais brasileiras mostra que há dois partidos que surgem com mais força: PSDB e PT, com chance de emplacar respectivamente onze e doze prefeituras. Os especialistas chegaram a apostar que o tucanato iria minguar depois que perdeu o governo federal. Isso não aconteceu. Nos últimos três anos, praticamente dobrou o número de pessoas que declaram ter identificação com o partido. No caso do PT, a identificação por parte do eleitorado cresceu de 19% para 23% no mesmo período. "A cada nova eleição, o sistema partidário brasileiro dá novos sinais de estar se consolidando", diz o cientista político Christopher Garman, da consultoria Tendências.

São Paulo é a cidade onde o processo de partidarização está mais avançado, conforme mostra um trabalho do Centro de Estudos da Metrópole, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). O estudo aponta uma coerência partidária surpreendente em dez eleições consecutivas. Exceção a essa lógica paulistana é o ex-prefeito Paulo Maluf, que tradicionalmente inspira um voto mais personalista do que partidário. Mas sua candidatura está definhando. Segundo a pesquisa Vox Populi, 59% das pessoas se recusam a escolher Maluf porque o consideram desonesto e 11% citam os escândalos de corrupção envolvendo o governo Celso Pitta. A maioria dos que lembram o caso Pitta, moradores da Zona Norte da cidade, votava em Maluf no passado. Prova de que o eleitor brasileiro não só está deixando de ter memória curta como está preparado para começar a produzir uma potente blindagem nas urnas. Isso pode trazer uma bem-vinda melhora da cena política no Brasil.

 
 
 
 
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