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15 de agosto de 2007
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Cinema
A sátira nua dos Simpsons

Os Simpsons – O Filme leva ao cinema o
que o fã já vê na TV. E por isso mesmo é bom


Jerônimo Teixeira

 
Fotos Divulgação, 20TH Century Fox
Bart Simpson escandaliza o carola Ned Flanders (à esq.) e seu pai, Homer (à dir.), aventura-se com uma bola de demolição: gags visuais alopradas que fazem de Os Simpsons uma das melhores comédias recentes. Ah, sim: o filme também conta com diálogos afiados


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A família Simpson está no cinema, assistindo a um longa-metragem do desenho Comichão e Coçadinha – uma paródia sádica das velhas perseguições de gato e rato em Tom & Jerry. Homer Simpson – o pater familias americano arquetípico – levanta-se no meio da sessão para protestar. Por que, ele pergunta, as pessoas pagam o ingresso para ver um desenho que passa de graça na televisão? A cena que abre Os Simpsons – O Filme (Estados Unidos, 2007) é claramente auto-irônica. Trata-se, afinal, de uma versão cinematográfica do desenho mais longevo da televisão americana – dezoito temporadas no ar –, que o espectador brasileiro pode ver de graça na Globo. A animação digital está mais caprichada e há duas ou três ousadias que não se veriam na televisão (Homer a certa altura faz mais gestos obscenos do que Marco Aurélio "Top, Top, Top" Garcia, e um personagem secundário é visto consumindo drogas). Mas, no fundo, Os Simpsons – O Filme é um episódio mais longo (87 minutos) de Os Simpsons, a série animada televisiva. Por que, então, alguém pagaria para vê-lo? Ora, por isso mesmo: é um episódio longo de Os Simpsons. O que mais se pode querer?

Bart Simpson: feioso, mas fofo, como uma espécie de criação punk de Walt Disney

Criado em 1988 pelo cartunista Matt Groening para figurar como atração no programa da humorista Tracey Ullman, Os Simpsons em pouco tempo ocupou seu espaço próprio na grade de programação da Fox, emissora do magnata Rupert Murdoch. Conhecido por seu proselitismo agressivo das bandeiras mais conservadoras do Partido Republicano, Murdoch (que, como outras celebridades, já fez uma participação em um episódio do desenho) rendeu-se ao sucesso do clã formado por Homer, sua mulher, Marge, e os filhos Bart, Lisa e Maggie. Desde suas primeiras temporadas, o desenho vem mantendo o tom liberal. O filme não foge ao figurino. As causas ambientais do democrata Al Gore estão no centro da trama caracteristicamente doidivanas: enquanto Lisa tenta conscientizar os habitantes de Springfield da poluição do lago da cidade, o desmiolado Homer despeja ali os dejetos de seu porco de estimação, precipitando uma catástrofe ecológica. A situação torna-se tão crítica que o presidente Arnold Schwarzenegger, aconselhado por um assessor inescrupuloso, decide isolar a poluída Springfield, trancando-a dentro de uma cúpula de vidro gigantesca.

Antes de Os Simpsons, Os Flintstones e Os Jetsons já retratavam a classe média americana com tinta galhofeira. Mas a sátira social de Groening desbravou novos territórios. As famílias dos desenhos anteriores eram relativamente felizes e acomodadas se comparadas aos Simpsons, que convivem de perto com o fracasso e a frustração: Homer submete-se a um emprego que detesta para sustentar os filhos; Marge desejava ter sido artista plástica mas se contentou com as tarefas da casa, e a medíocre escola pública reprime tanto a inteligência sensível de Lisa quanto a inquietude subversiva de Bart. As primeiras temporadas, de um humor quase sombrio, eram mais radicais na exploração dessas insatisfações. Homer era só um operário medíocre e meio imbecil, e não o aventureiro trapalhão que no filme faz manobras ousadas em uma motocicleta. Até o traço era mais tosco, cheio de arestas. Aos poucos, as formas foram se arredondando, e hoje Homer e sua turma são uma versão punk de Walt Disney – feiosos, mas muito fofinhos. Os Simpsons, enfim, perdeu seu lugar na vanguarda (South Park é mais anárquico). Mas o filme – longamente planejado por Groening e pelo produtor James L. Brooks – prova a vitalidade da família. Os diálogos estão afiados, e as gags visuais são impagáveis. A seqüência em que Bart cruza Springfield, célere, sobre seu skate – e sem roupas, com direito a um fugaz nu frontal – é de tirar o fôlego, tanto pela agilidade da ação quanto pelas risadas que provoca. Comédias recentes feitas com gente de carne e osso raramente se revelam tão engraçadas – ou inteligentes – quanto Os Simpsons. Vale cada centavo do ingresso.

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