Os Simpsons
O Filme
leva ao cinema o
que o fã já vê na TV. E por isso mesmo
é bom
Jerônimo Teixeira
Fotos Divulgação,
20TH Century Fox
Bart Simpson escandaliza o carola
Ned Flanders (à esq.) e seu pai, Homer (à
dir.), aventura-se com uma bola de demolição:
gags visuais alopradas que fazem de Os Simpsons
uma das melhores comédias recentes. Ah, sim: o
filme também conta com diálogos afiados
A
família Simpson está no cinema, assistindo a
um longa-metragem do desenho Comichão e Coçadinha
uma paródia sádica das velhas perseguições
de gato e rato em Tom & Jerry. Homer Simpson
o pater familias americano arquetípico
levanta-se no meio da sessão para protestar. Por que,
ele pergunta, as pessoas pagam o ingresso para ver um desenho
que passa de graça na televisão? A cena que
abre Os Simpsons O Filme (Estados Unidos,
2007) é claramente auto-irônica. Trata-se, afinal,
de uma versão cinematográfica do desenho mais
longevo da televisão americana dezoito temporadas
no ar , que o espectador brasileiro pode ver de graça
na Globo. A animação digital está
mais caprichada e há duas ou três ousadias que
não se veriam na televisão (Homer a certa altura
faz mais gestos obscenos do que Marco Aurélio "Top,
Top, Top" Garcia, e um personagem secundário é
visto consumindo drogas). Mas, no fundo, Os Simpsons
O Filme é um episódio mais longo (87 minutos)
de Os Simpsons, a série animada televisiva.
Por que, então, alguém pagaria para vê-lo?
Ora, por isso mesmo: é um episódio longo de
Os Simpsons. O que mais se pode querer?
Bart Simpson: feioso, mas fofo,
como uma espécie de criação punk
de Walt Disney
Criado em 1988 pelo
cartunista Matt Groening para figurar como atração
no programa da humorista Tracey Ullman, Os Simpsons em
pouco tempo ocupou seu espaço próprio na grade
de programação da Fox, emissora do magnata Rupert
Murdoch. Conhecido por seu proselitismo agressivo das bandeiras
mais conservadoras do Partido Republicano, Murdoch (que, como
outras celebridades, já fez uma participação
em um episódio do desenho) rendeu-se ao sucesso do
clã formado por Homer, sua mulher, Marge, e os filhos
Bart, Lisa e Maggie. Desde suas primeiras temporadas, o desenho
vem mantendo o tom liberal. O filme não foge ao figurino.
As causas ambientais do democrata Al Gore estão no
centro da trama caracteristicamente doidivanas: enquanto Lisa
tenta conscientizar os habitantes de Springfield da poluição
do lago da cidade, o desmiolado Homer despeja ali os dejetos
de seu porco de estimação, precipitando uma
catástrofe ecológica. A situação
torna-se tão crítica que o presidente Arnold
Schwarzenegger, aconselhado por um assessor inescrupuloso,
decide isolar a poluída Springfield, trancando-a dentro
de uma cúpula de vidro gigantesca.
Antes de Os
Simpsons, Os Flintstones e Os Jetsons já
retratavam a classe média americana com tinta galhofeira.
Mas a sátira social de Groening desbravou novos territórios.
As famílias dos desenhos anteriores eram relativamente
felizes e acomodadas se comparadas aos Simpsons, que convivem
de perto com o fracasso e a frustração: Homer
submete-se a um emprego que detesta para sustentar os filhos;
Marge desejava ter sido artista plástica mas se contentou
com as tarefas da casa, e a medíocre escola pública
reprime tanto a inteligência sensível de Lisa
quanto a inquietude subversiva de Bart. As primeiras temporadas,
de um humor quase sombrio, eram mais radicais na exploração
dessas insatisfações. Homer era só um
operário medíocre e meio imbecil, e não
o aventureiro trapalhão que no filme faz manobras ousadas
em uma motocicleta. Até o traço era mais tosco,
cheio de arestas. Aos poucos, as formas foram se arredondando,
e hoje Homer e sua turma são uma versão punk
de Walt Disney feiosos, mas muito fofinhos. Os Simpsons,
enfim, perdeu seu lugar na vanguarda (South Park é
mais anárquico). Mas o filme longamente planejado
por Groening e pelo produtor James L. Brooks prova
a vitalidade da família. Os diálogos estão
afiados, e as gags visuais são impagáveis. A
seqüência em que Bart cruza Springfield, célere,
sobre seu skate e sem roupas, com direito a um fugaz
nu frontal é de tirar o fôlego, tanto
pela agilidade da ação quanto pelas risadas
que provoca. Comédias recentes feitas com gente de
carne e osso raramente se revelam tão engraçadas
ou inteligentes quanto Os Simpsons. Vale
cada centavo do ingresso.