O designer francês
que inventou o hotel-butique
exibe seu gênio no Fasano Rio de Janeiro
Silvia Rogar
Fotos Oscar Cabral
Diferença nos detalhes: piscina
à esquerda, suíte com vista para o mar de todos
os ângulos e, claro, poltronas – com listras, de Pesce,
com rosto da rainha, de Starck
Durante dois anos,
trocaram e-mails, incessantemente, o designer francês
Philippe Starck, mago dos interiores surpreendentes pelos
jogos de luzes coloridas, objetos surrealistas, toques rococós
e vastas cortinas drapeadas, e o empresário paulista
Rogério Fasano, de gosto sóbrio e clássico,
detalhista ao extremo e acostumado a dar a última palavra
no ambiente dos restaurantes estrelados e do hotel de alto
luxo que comanda em São Paulo. O resultado de tanta
correspondência abre as portas, oficialmente, nesta
semana: o Fasano Rio de Janeiro, hotel-butique à beira
da praia de Ipanema, primeiro projeto de Starck no Brasil,
é a perfeita união da irreverência genial
de um com a sobriedade refinada do outro.
Divergências
entre Starck e Fasano existiram, claro "eu adoro simetrias;
ele, as formas arredondadas", suspira o brasileiro ,
mas foram contornadas sem maiores controvérsias, graças,
entre outros fatores, à providencial distância.
"Só tivemos dois encontros, em Londres", diz Fasano.
Vê-se o toque do sócio (que nas vésperas
da inauguração checava pessoalmente a posição
de cada quadro na parede) na predominância dos tons
naturais da madeira, do couro, do rústico. O balcão
da recepção, construído com tronco de
pequiá, pesa 6 toneladas e exigiu reforço na
estrutura do prédio de oito andares. Com 20 milhões
de dólares investidos em construção e
decoração, o hotel privilegia o mobiliário
brasileiro dos anos 50 e 60 em todos os seus recantos, inclusive
no restaurante Fasano Al Mare. "Decidimos homenagear as décadas
de glória da arquitetura e da música do Rio",
explica Fasano. Ainda no térreo, um corredor de 15
metros, com piso de vidro iluminado e cortinas de linho branco,
de um lado, e veludo vinho, de outro, conduz ao ambiente em
que Starck mais extravasa humor: o Baretto Londra, bar intimista,
com espaço para apresentações musicais,
que tem nas paredes bandeiras britânicas tingidas com
as cores da Itália. Capas de discos de bandas inglesas
como The Clash e The Police estão expostas, em molduras
rebuscadas, próximo às poltronas de couro (assinadas
por Starck para o hotel) estampadas com o rosto da rainha
Elizabeth com tarjas nos olhos e na boca, homenagem ao compacto
God Save the Queen, do Sex Pistols. Para dormir uma
única noite nos lençóis de algodão
de 300 fios e edredons de pena de ganso dos 92 apartamentos
pagam-se entre 945 reais (quarto de fundos, 36 metros quadrados)
e 5.250 reais. As três suítes mais caras têm
176 metros quadrados, bancadas de ônix nos banheiros,
paredes revestidas de pau-ferro da Bolívia e televisão
de plasma de 50 polegadas. Nelas, cortinas brancas funcionam
como divisórias de ambientes; se abri-las totalmente,
o hóspede pode relaxar na banheira contemplando o mar
de Ipanema.
Como se espera
de Starck, as cadeiras são um show à parte.
Os quartos de frente ostentam a poltrona Voltaire, raridade
de 1965 assinada pelo carioca Sergio Rodrigues. A listrada
UP5, do italiano Gaetano Pesce, que lembra uma corpulenta
figura feminina, decora o hall de entrada para as suítes.
No terraço, a piscina exclusiva dos hóspedes
debruça-se sobre a orla de tal forma que não
se vê a rua, dando a impressão de se estar a
bordo de um navio. Mais chique do que se hospedar no Fasano
Rio de Janeiro, porém, é comprar um dos apartamentos.
Todas as unidades estão à venda, a preços
que vão de 578 000 a 4 milhões de reais. Até
agora, foram vendidos 70% dos quartos, um quinto deles a americanos
e europeus. Os donos têm direito a participação
na receita de seu pedaço de Fasano e a sete noites
grátis por ano. Infelizmente, por mais que sinta vontade,
nenhum vai poder morar lá sem pagar as outras 358 diárias.