Como a aids permanece
incurável, a medicina concentra boa parte de seus esforços
em torná-la uma doença passível de ser
mantida sob controle. Nos últimos anos, avançou-se
muito nesse sentido, mas a batalha contra o HIV ainda esbarra
na capacidade de o vírus ganhar resistência aos
medicamentos disponíveis. "O HIV se adapta de uma maneira
fenomenal. Ele sempre arruma um jeito de driblar os ataques
e infectar o organismo", diz o infectologista Artur Timerman,
do Hospital Albert Einstein. Hoje, 30 000 brasileiros já
não respondem ao tratamento com o coquetel de remédios
que significaram uma revolução na década
passada. Para eles, a maior esperança é a criação
de novas drogas. Um grande passo foi dado na semana passada,
com a aprovação pela FDA, a agência americana
de controle de remédios, de uma substância chamada
maraviroc, fabricada pelo laboratório Pfizer. Ela inaugura
uma nova classe terapêutica contra o vírus da
aids.
O ineditismo está
no fato de o remédio proteger células de defesa
do organismo antes mesmo do ataque do HIV. É como se
ele impermeabilizasse o maior alvo do vírus (veja
o quadro). Um estudo com 600 voluntários
mostrou que, entre os que usaram o remédio, havia o
dobro de células de defesa intactas. Os primeiros a
tomar o maraviroc serão os pacientes que já
experimentaram pelo menos duas combinações diferentes
do coquetel, sem nenhum benefício. A próxima
etapa será testar o medicamento em infectados em início
de tratamento. Nos Estados Unidos, o maraviroc será
comercializado sob o nome de Selzentry no Brasil, o
Celsentri, como será batizado, já está
em análise pela Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) e deverá chegar às
farmácias do país até o fim do ano.
Há ainda
um segundo anti-retroviral, também de ação
inédita, em fase de análise pela FDA. O raltegravir,
da Merck Sharp & Dohme, age bloqueando a enzima integrase,
envolvida em uma das etapas de replicação do
vírus HIV. Os estudos com o remédio constataram
que, dos quase 500 pacientes submetidos ao tratamento com
o raltegravir, 75% tiveram sua carga viral reequilibrada.
Esse medicamento deve chegar em breve ao mercado brasileiro.
No início da epidemia da aids, na década de
80, entre o diagnóstico da doença e a fase terminal
transcorriam, em média, cinco meses. A criação
do coquetel, há coisa de dez anos, permitiu prolongar
a vida dos portadores do HIV por tempo indeterminado. Hoje,
o conjunto mais usado no Brasil é composto de dezessete
medicamentos, de quatro classes distintas. É muito
provável, de acordo com os médicos, que as duas
novas classes de drogas antiaids logo venham a fazer parte
desse cardápio farmacêutico.