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15 de agosto de 2007
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Esporte
Pisou na bola

Ao arquivar ação de jogador, juiz afirma
que gays não têm espaço no "viril" futebol


Sandra Brasil

Daniel Augusto Jr/AE
Richarlyson: "Agora tem torcedor que fica falando: 'Será que ele é?' "


A quem interessar possa, o jogador Richarlyson Felisbino, do São Paulo, declara: "Não sou homossexual. E não tenho nada contra o homossexualismo". A declaração de Richarlyson sobre um assunto no qual geralmente não se toca, pelo menos em público, no meio em que atua é o último desdobramento de um caso que se arrasta desde junho e que ganhou força renovada depois do polêmico arquivamento, pelo juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho, da queixa-crime apresentada pelo jogador contra o diretor administrativo do Palmeiras, José Cyrillo Junior. O motivo da ação já causara espécie: na televisão, comentando o boato de que um jogador não identificado iria assumir publicamente sua condição de homossexual, Cyrillo citou o nome de Richarlyson, que viu nisso uma "violação de intimidade" com possível "prejuízo à carreira". Muito maior rebuliço, porém, causaria a estapafúrdia justificativa de Junqueira para arquivar a ação, na sua opinião "um fato insignificante se comparado à grandeza" do esporte.

"Se (o jogador) fosse homossexual, poderia admiti-lo, ou até omitir, ou silenciar a respeito. Nessa hipótese, porém, melhor seria que abandonasse os gramados", prega Junqueira. E por que deveria fazê-lo? "Futebol é jogo viril, varonil, não homossexual", escreve o juiz da 9ª Vara Criminal de São Paulo. "Não que um homossexual não possa jogar bola. Pois que jogue, querendo. Mas forme o seu time e inicie uma federação. Agende jogos com quem prefira pelejar contra si", prossegue. Entre outras pérolas, argumenta que "o que não se mostra razoável é a aceitação de homossexuais no futebol brasileiro, porque prejudicariam a uniformidade de pensamento da equipe, o entrosamento, o equilíbrio, o ideal... para não se falar no desconforto do torcedor, que pretende ir ao estádio, por vezes com seu filho, avistar o time do coração". E conclui com uma "estrofe popular" em maiúsculas: "Cada um na sua área, cada macaco em seu galho, cada galho em seu terreiro, cada rei em seu baralho".

Pela peroração, e por sua repercussão, Manezinho Junqueira (como é chamado por seus pares), 44 anos, juiz desde os 25, que nos fins de semana troca o terno por bermuda, camiseta, óculos escuros, boné e pochete em corridas de 10 quilômetros, terá agora de prestar explicações tanto à corregedoria do Tribunal de Justiça quanto ao Conselho Nacional do Judiciário. Por meio de seus advogados, Richarlyson – nome que a mãe improvisou depois que uma vizinha teve filho pouco antes e se apossou do escolhido, Richardson – tenta mudar a decisão de arquivamento da queixa na segunda instância. Aos 24 anos, nascido em Natal, filho de um ex-jogador de futebol, ele se diz cansado de ser vítima de preconceito. "Na minha infância, eu era discriminado por ser o único negro na escola em que estudava, em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul", lembra. Teme também que o episódio afete sua atuação no São Paulo, atual líder do Campeonato Brasileiro, do qual é titular há dois meses. "O futebol é machista, e, de certa forma, uma declaração com a intenção de menosprezar a minha atuação como atleta acaba prejudicando", diz. "Agora tem torcedor que fica falando: 'Será que ele é?'.". A eles, resolveu enfim responder que não, não é.

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