Ao arquivar ação
de jogador, juiz afirma
que gays não têm espaço no "viril" futebol
Sandra Brasil
Daniel
Augusto Jr/AE
Richarlyson: "Agora tem torcedor
que fica falando: 'Será que ele é?' "
A quem interessar possa, o jogador Richarlyson Felisbino,
do São Paulo, declara: "Não sou homossexual.
E não tenho nada contra o homossexualismo". A declaração
de Richarlyson sobre um assunto no qual geralmente não
se toca, pelo menos em público, no meio em que atua
é o último desdobramento de um caso que se arrasta
desde junho e que ganhou força renovada depois do polêmico
arquivamento, pelo juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho,
da queixa-crime apresentada pelo jogador contra o diretor
administrativo do Palmeiras, José Cyrillo Junior. O
motivo da ação já causara espécie:
na televisão, comentando o boato de que um jogador
não identificado iria assumir publicamente sua condição
de homossexual, Cyrillo citou o nome de Richarlyson, que viu
nisso uma "violação de intimidade" com possível
"prejuízo à carreira". Muito maior rebuliço,
porém, causaria a estapafúrdia justificativa
de Junqueira para arquivar a ação, na sua opinião
"um fato insignificante se comparado à grandeza" do
esporte.
"Se (o jogador)
fosse homossexual, poderia admiti-lo, ou até omitir,
ou silenciar a respeito. Nessa hipótese, porém,
melhor seria que abandonasse os gramados", prega Junqueira.
E por que deveria fazê-lo? "Futebol é jogo viril,
varonil, não homossexual", escreve o juiz da 9ª
Vara Criminal de São Paulo. "Não que um homossexual
não possa jogar bola. Pois que jogue, querendo. Mas
forme o seu time e inicie uma federação. Agende
jogos com quem prefira pelejar contra si", prossegue. Entre
outras pérolas, argumenta que "o que não se
mostra razoável é a aceitação
de homossexuais no futebol brasileiro, porque prejudicariam
a uniformidade de pensamento da equipe, o entrosamento, o
equilíbrio, o ideal... para não se falar no
desconforto do torcedor, que pretende ir ao estádio,
por vezes com seu filho, avistar o time do coração".
E conclui com uma "estrofe popular" em maiúsculas:
"Cada um na sua área, cada macaco em seu galho, cada
galho em seu terreiro, cada rei em seu baralho".
Pela peroração,
e por sua repercussão, Manezinho Junqueira (como é
chamado por seus pares), 44 anos, juiz desde os 25, que nos
fins de semana troca o terno por bermuda, camiseta, óculos
escuros, boné e pochete em corridas de 10 quilômetros,
terá agora de prestar explicações tanto
à corregedoria do Tribunal de Justiça quanto
ao Conselho Nacional do Judiciário. Por meio de seus
advogados, Richarlyson nome que a mãe improvisou
depois que uma vizinha teve filho pouco antes e se apossou
do escolhido, Richardson tenta mudar a decisão
de arquivamento da queixa na segunda instância. Aos
24 anos, nascido em Natal, filho de um ex-jogador de futebol,
ele se diz cansado de ser vítima de preconceito. "Na
minha infância, eu era discriminado por ser o único
negro na escola em que estudava, em Bento Gonçalves,
no Rio Grande do Sul", lembra. Teme também que o episódio
afete sua atuação no São Paulo, atual
líder do Campeonato Brasileiro, do qual é titular
há dois meses. "O futebol é machista, e, de
certa forma, uma declaração com a intenção
de menosprezar a minha atuação como atleta acaba
prejudicando", diz. "Agora tem torcedor que fica falando:
'Será que ele é?'.". A eles, resolveu enfim
responder que não, não é.