Preso em São
Paulo na terça-feira, o colombiano Juan Carlos Ramirez
Abadía, 44 anos, é considerado um dos maiores
traficantes de drogas do mundo. Um dos quatro chefes do Cartel
do Norte do Vale, na Colômbia, ele é acusado
de ter enviado, nos últimos dezessete anos, pelo menos
1.000 toneladas de cocaína aos Estados Unidos. A polícia
federal americana oferecia 5 milhões de dólares
a quem desse pistas que pudessem levar à sua captura.
Segundo o FBI, Abadía é responsável por
315 mortes cometidas em território americano e colombiano.
O bandido estava desde 2004 no Brasil. Aqui, montou dezesseis
empresas de ramos diversos: imobiliário, esportivo
e de informática. A polícia acredita que, no
país, o traficante lavava o dinheiro do tráfico
e coordenava o envio, à Colômbia, de produtos
químicos usados na produção da cocaína.
Processada ali, a droga seguia para os Estados Unidos, além
do México e de países da Europa. O dinheiro
da venda ia para o Uruguai e, em seguida, era enviado ao Brasil,
para ser lavado. Em 25 anos de envolvimento com o tráfico,
Abadía amealhou um patrimônio estimado em 1,8
bilhão de dólares.
Ele foi preso pela
Polícia Federal, juntamente com a mulher, Milareth
Lozano, na casa em que vivia, localizada em um condomínio
de luxo em Aldeia da Serra, região da Grande São
Paulo. O imóvel tem 1.800 metros quadrados e vale 2
milhões de reais. Conta com academia de ginástica,
piscina aquecida, dez televisores de plasma e cinco quartos.
Na garagem, a polícia encontrou quatro carros: uma
caminhonete Hilux, um Xsara Picasso, um Citroën C3 e
um Honda Fit. Apenas um dos sofás, italiano, custou
50.000 reais. Vaidoso, Abadía tinha uma coleção
de 56 relógios de marcas como Rolex, Bulgari e Cartier
e armários repletos de roupas das grifes Armani, Dolce&Gabana
e Ermenegildo Zegna. Ele e a mulher levavam vida de fugitivo.
Nunca abriam as cortinas da casa, não freqüentavam
restaurantes e só eram vistos por vizinhos com
quem não falavam nos momentos em que entravam
e saíam do imóvel. "Quando a bola do meu filho
caía no quintal deles, eu tocava a campainha e gritava,
mas eles nunca respondiam", diz uma vizinha. Na rua, Abadía
escondia o rosto com bonés, gorros e óculos
escuros. Funcionários do condomínio estranhavam
os hábitos do casal: "A mulher, uma loira muito bonita,
nunca saía de casa". No mais caro salão de cabeleireiros
de Aldeia da Serra, Milareth foi vista apenas duas vezes.
"Na última, notamos que ela tinha marcas recentes de
cirurgia plástica no rosto", diz a manicure que a atendeu.
Sabe-se que pelo menos as feições de Abadía
passaram por uma completa transformação nos
últimos anos. A polícia suspeita que ele tenha
feito quatro cirurgias para modificá-las. Em uma delas,
teve próteses de silicone aplicadas nas maçãs
do rosto. Acabou parecido com o cantor Freddie Mercury, vocalista
morto do Queen.
Abadía entrou
para o crime ainda adolescente, quando tratava os cavalos
de um chefão do narcotráfico colombiano. Com
diversas condenações na Colômbia, ele
está, nos Estados Unidos, sentenciado à prisão
perpétua. Quer ser extraditado para lá em troca
de um acordo de delação que reduza sua pena.
O fato de ter sido detido em solo brasileiro pode acabar ajudando
o bandido. Isso porque, pela legislação nacional,
um preso extraditado não pode cumprir em outro país
uma pena inexistente aqui. Como o Brasil não tem prisão
perpétua, caso consiga a extradição,
o traficante poderá ficar preso nos Estados Unidos
por até trinta anos, a pena máxima prevista
no Brasil.