O maior pesadelo
de um político é ser flagrado com uma pilha
de dinheiro vivo. Esse é o indício mais claro
de que seu dono cometeu alguma irregularidade, de sonegação
de impostos a lavagem de dinheiro. Nos últimos três
meses, quatro escândalos de corrupção
afetaram a imagem do governo argentino, sendo dois deles com
notas de dinheiro. No início de junho, descobriu-se
uma bolsa com o equivalente a 64.000 dólares no banheiro
privativo da ministra da Economia, Felisa Miceli. Na madrugada
de 5 de agosto, agentes da alfândega de um aeroporto
em Buenos Aires flagraram uma mala com 790.500 dólares
não declarados em um avião que trazia de Caracas
quatro executivos da PDVSA, a estatal petrolífera venezuelana,
o presidente da Enarsa, companhia argentina de energia, Exequiel
Espinosa, e autoridades do governo argentino. A principal
suspeita é que o dinheiro seria utilizado na campanha
da senadora Cristina Kirchner, esposa do presidente da Argentina,
Néstor Kirchner, e a candidata mais forte às
eleições de outubro.
O caso tem importância
não apenas pela elevada quantia em dólares (em
valores atualizados, seria algo próximo ao encontrado
com petistas que queriam comprar um dossiê contra José
Serra no ano passado), mas também porque traz à
luz a diplomacia paralela que existe entre Venezuela e Argentina.
Quando interpelado pelos agentes, o empresário venezuelano
Guido Antonini Wilson, que estava no avião, afirmou
ser o dono da mala. Para o ministro do Planejamento da Argentina,
Julio de Vido, braço-direito de Kirchner, Wilson era
um mero caroneiro que entrou no avião errado. A história
não é tão simples. Wilson viajou como
acompanhante do filho do vice-presidente da PDVSA, a principal
fonte da riqueza de Chávez. O jato estava alugado pela
argentina Enarsa, que tem negócios com o presidente
venezuelano. Entre os passageiros, estava ainda Claudio Uberti,
presidente da agência que fiscaliza as estradas na Argentina
e encarregado informal do relacionamento entre os dois governos.
Uberti, que também é acusado de coletar doações
ilegais à campanha de Kirchner em 2003, foi demitido
na quinta-feira.
Os laços
de amizade entre Chávez e Kirchner se intensificaram
há dois anos, quando o venezuelano comprou os primeiros
títulos da dívida externa argentina. Até
hoje, mais de 5 bilhões de dólares em "Bônus
Kirchner" estão nas mãos da Venezuela. Uma série
de acordos bilaterais está em andamento. Na segunda-feira,
em visita a Buenos Aires, Chávez anunciou que financiará
uma usina de gás liquefeito na Argentina, o que poderá
abrandar a crise energética que o país enfrenta.
Como contrapartida, a diplomacia dos petrodólares tem
dado a Chávez um papagaio aliado dentro do Mercosul.
Kirchner é um dos que mais pressionam pela entrada,
ainda não sacramentada, da Venezuela como membro pleno
no bloco. Isso apesar das constantes declarações
de Chávez contra o Mercosul. Em junho, durante uma
reunião do grupo em Montevidéu em que se discutiria
a não-renovação da concessão do
canal RCTV, a delegação argentina abandonou
o evento e voltou antes para casa alegando problemas com o
vôo. Assim, impediu-se que fosse criada uma comissão
para avaliar a liberdade de imprensa na Venezuela. "É
uma relação pragmática. Kirchner precisa
de financiamento externo. Chávez, de apoio político.
Ambos fazem negócio", disse a VEJA Julio Burdman, cientista
político da Universidade de Buenos Aires.
Como se tratava
de uma negociata entre grandes amigos, autoridades procuraram
atenuar o impacto da mala no aeroporto. O episódio
só veio a público na terça-feira, depois
que Chávez deixou a capital argentina rumo a Montevidéu,
no Uruguai. Malas de dinheiro são prática corriqueira
na Venezuela. Chavistas compram carros e viagens no país
com dinheiro vivo. Em 2004, Jesús Bermúdez,
do Ministério das Finanças, foi detido em um
aeroporto de Miami com 37.000 dólares na mala. Também
não causa surpresa o fato de Chávez se intrometer
nas eleições de outros países. O presidente
favoreceu os candidatos de sua preferência na Bolívia,
na Nicarágua, no Peru e no Equador. O que surpreende
é a conivência que esses casos têm recebido
na Argentina. Após ser pego com a mão na botija,
Wilson pagou uma multa de 400.000 dólares por infração
de bagagem (como levava mais de 10.000 dólares, ele
precisaria declarar o montante). Nenhuma autoridade o interrogou
para que ele dissesse a origem ou o destino do dinheiro, mesmo
que isso fosse apenas uma tentativa de justificar o injustificável.
Com as notas restantes, o empresário embarcou tranqüilamente
para o Uruguai na terça-feira. Fez, assim, o mesmo
roteiro de Chávez. Isso é que é amizade.