Usineiro confirma
sociedade secreta com o
presidente do Congresso em rádio e jornal
e diz que usou laranjas a pedido do senador
Alexandre Oltramari
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Fotos Pablo Valadares/AE
PARCERIA
TAMBÉM NO AR
A sociedade com João Lyra permitiu ao senador Renan
Calheiros usar jatos e helicópteros do usineiro
em passeios e viagens políticas sem pagar um tostão.
No total, o senador requisitou as aeronaves 23 vezes a
um custo total de 215 000 reais
Fatos são
coisas teimosas. Eles resistem a desaparecer em meio à
névoa das versões fabricadas por assessores
e especialistas em recuperar a imagem de políticos
dilacerada pela revelação de suas condutas impróprias.
Confrontado com a demonstração de que é
o verdadeiro dono de uma empresa de comunicação
em Alagoas, o senador Renan Calheiros se limitou a dar sua
versão negando a propriedade. Formalmente, Renan está
certo. Mas só formalmente. A empresa JR Radiodifusão
foi comprada pelo senador, mas está registrada em nome
de dois laranjas um primo de Renan, Tito Uchôa,
e o filho, Renan Calheiros Filho, o Renanzinho. Na semana
passada, o usineiro João Lyra, que foi sócio
de Renan durante cinco anos, falou pela primeira vez sobre
o assunto, e a teimosia dos fatos mais uma vez prevaleceu.
Em entrevista a VEJA, ele confirmou que Renan Calheiros era
dono de metade de uma sociedade secreta montada entre os dois
para comprar uma emissora de rádio e um jornal em Alagoas,
que mais tarde deu origem à JR Radiodifusão.
Renan investiu 1,3 milhão de reais no negócio,
parte paga em reais, parte em dólares. Nada disso
a origem do dinheiro, a sociedade, a rádio, o jornal
foi declarado pelo senador à Receita Federal
ou à Justiça Eleitoral. Em 2005, a sociedade
foi desfeita.
Veja
Como era sua sociedade com o senador Renan Calheiros? Lyra Renan foi um bom sócio. Todos
os compromissos que assumiu comigo ele honrou. Foi bom enquanto
durou.
Veja O senhor se refere a compromissos financeiros? Lyra Sim. Inclusive financeiros. Na compra
das rádios e do jornal ele pagou tudo direitinho. Não
tenho do que me queixar do senador.
Veja
O senhor nunca teve curiosidade de saber de onde vinha
o dinheiro do Renan? Pagamentos em dólar costumam chamar
atenção... Lyra Sinceramente, no decorrer da minha
vida, nunca me preocupei muito com as coisas dos outros. Cada
um deve responder pelo que faz.
Veja Além das empresas de comunicação,
que outros tipos de negócio havia entre o senhor e
o senador Renan? Lyra Eram negócios privados. Não
gostaria de me estender sobre eles.
Veja Por que Renan não quis aparecer como sócio
na compra do jornal e da rádio? Lyra Ele me disse que não tinha
como aparecer publicamente à frente do negócio,
mas não explicou as razões. Por isso, pediu
para colocarmos tudo em nome de laranjas. Eu topei.
Ricardo Ledo/Gazeta de
Alagoas
ORIGEM
DO LARANJAL
Lyra: "Ele (Renan) disse que não tinha como
aparecer no negócio"
João Lyra e Renan Calheiros tornaram-se desafetos políticos,
mas foram muito íntimos no passado. Enquanto durou
a sociedade secreta, de 1999 a 2005, a relação
entre os dois era tão próxima que o usineiro
chegou a colocar à disposição do senador
um jatinho e um helicóptero da frota de uma de suas
empresas, a LUG Táxi Aéreo. VEJA teve acesso
a uma planilha de controle da empresa em que estão
listadas todas as viagens que o senador Calheiros fez nesse
período, assim como o roteiro, o nome dos passageiros,
o custo do vôo e o responsável pelo pagamento.
No total, o senador usou 23 vezes as aeronaves de João
Lyra. Os dados da contabilidade da LUG indicam que o gasto
foi de pouco mais de 200.000 reais. O senador não desembolsou
um único tostão. As despesas foram todas contabilizadas
em nome das usinas Laginha e Taquara, ambas pertencentes a
João Lyra. Os jatos e os helicópteros foram
usados pelo senador para levar colegas, ministros e senadores
a atividades políticas em Alagoas e também a
eventos sociais. Em 25 de junho de 2005, três meses
depois do fim da sociedade entre Renan e Lyra, o senador ainda
usou o jato Hawker 800XP, prefixo PR-LUG, para viajar de Brasília
a Belo Horizonte, onde participou da festa de casamento de
uma das filhas de Lyra. A bordo, além de Renan, estavam
sua mulher, Verônica Calheiros, e colegas do partido.
O grupo retornou a Brasília no dia seguinte, no mesmo
avião. A viagem custou 50.000 reais. Procurado por
VEJA, Renan não se manifestou.
Desfeita a sociedade,
em março de 2005, Renan Calheiros perdeu as caronas
nos aviões, mas prosperou no ramo das comunicações.
A JR Radiodifusão, que tinha Carlos Santa Ritta, um
assessor de Renan no Senado, como sócio-laranja, passou
a ser controlada pelo primo, Tito Uchôa, e por Renanzinho.
A partir de então a empresa recebeu quatro outorgas
do Ministério das Comunicações, comandado
pelo PMDB de Renan Calheiros desde 2004. A última,
que autoriza a JR a operar uma rádio FM na cidade de
Água Branca pelos próximos dez anos, foi assinada
na semana passada pelo próprio Renan Calheiros. No
cadastro da Anatel, a agência reguladora das telecomunicações,
a JR ainda pertence a Tito Uchôa e Carlos Santa Ritta,
os laranjas iniciais do senador. Renanzinho não aparece
como proprietário. Os laranjas do senador Renan, aliás,
continuam escondidos. Procurados, não dão entrevista.
Santa Ritta, que é funcionário do gabinete em
Brasília, não tem sido mais visto ali. Ele costuma
dar expediente na cidade de Jequiá da Praia, a 60 quilômetros
de Maceió, onde sua mulher, Rosinha Jatobá,
é prefeita pelo PMDB. Já o primo Tito Uchôa,
que sete anos atrás era funcionário da Delegacia
Regional do Trabalho e tinha um salário de 1.390 reais,
hoje é "dono" de várias empresas das
famosas rádios a locadora de veículos, agência
de turismo e um jornal. Ele responde a processo por improbidade
administrativa, superfaturamento e fraude em licitações.
Fotos Marco Borelli/O
Jornal e arquivo O Jornal
VIDA
DE LARANJA Tito Uchôa, o laranja do dinheiro, é
acusado de fraude em licitação, e o assessor
Santa Ritta (à direita), o laranja da rádio,
é fantasma no Senado
Na semana passada,
o procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza,
pediu ao Supremo Tribunal Federal a abertura de um inquérito
para investigar a relação de Renan Calheiros
com um lobista da empreiteira Mendes Júnior que pagava
suas despesas pessoais. Na terça-feira, o STF aceitou
o pedido e determinou a quebra dos sigilos bancário
e fiscal do senador. Na quarta-feira, uma nova investigação
foi aberta contra Renan no Conselho de Ética para saber
se ele fez lobby no governo para beneficiar a cervejaria Schincariol,
que comprou uma fábrica de refrigerantes de sua família
por valor superior ao de mercado. Na quinta-feira, o corregedor
do Senado, Romeu Tuma, decidiu investigar se Renan utilizou
laranjas para obter concessões de rádio em Alagoas.
Uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo, publicada
na sexta-feira, mostrou que o senador Calheiros comprou uma
fazenda usando, de novo, o primo Tito Uchôa como testa-de-ferro.
Robson Lima/Gazeta de
Alagoas
EM
NOME DO PAI
Renanzinho, o filho do senador, tinha apenas um carro
em 2004. Agora, prefeito de Murici, já é
dono de uma rede de emissoras de rádio
Acuado, Renan Calheiros
foi à tribuna pela primeira vez depois dos escândalos
envolvendo seu nome, que começaram em maio. Não
explicou nada a respeito das acusações a que
responde e constrangeu os colegas que voltaram a pedir seu
afastamento da presidência do Congresso. Por fim, atacou
o Grupo Abril, que publica VEJA, questionando a legitimidade
da associação da TVA com a Telefônica.
Em nota oficial, a Abril informou que a transação
foi aprovada pela Anatel em 18 de julho passado, depois de
nove meses de análises. Abandonado por seu próprio
partido (nos bastidores o PMDB já articula um nome
para substituí-lo), largado pelo governo (o presidente
Lula mandou um recado de que gostaria que a situação
no Senado se resolvesse o mais rápido possível)
e minado pela oposição (que vai obstruir as
sessões enquanto ele permanecer na presidência),
o senador vai afundando a cada dia no poço de areia
movediça criado por sua própria conduta, marcada
pelo apreço por favores de empreiteiras, negócios
escusos e sociedades secretas.