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Maior de idade,
alma adolescente

Com a premiação dos melhores clipes
do ano, a MTV mostra a sua força

Marcelo Marthe e Sérgio Martins

Antonio Milena
Marcos Mion: VJ comanda programa que a matriz não quis fazer


Nenhum evento monopoliza as atenções do mundo pop nacional como a cerimônia do Video Music Brasil – ou VMB, para os íntimos. Criada pela MTV em meados dos anos 90, a premiação dos melhores clipes do ano é uma superprodução. Em sua sétima edição, marcada para esta quinta-feira, no Credicard Hall, em São Paulo, ela deverá reunir cerca de 4.000 convidados e uma multidão de artistas e celebridades, dos adolescentes Sandy & Junior à vetusta roqueira Rita Lee. Até a semana passada, um número recorde de 1,2 milhão de espectadores já havia registrado seu voto na eleição que decidirá os vencedores em catorze categorias. Mas a festa é só a ponta de um fenômeno maior: hoje, a MTV virou referência em tudo o que diz respeito ao universo jovem. Depois de seu surgimento, em outubro de 1990, o rock e o pop nacional nunca mais foram os mesmos. A emissora dá vazão a tendências e é trampolim para muitos grupos atingirem o sucesso. Sua linguagem influencia a programação das grandes redes. No campo do comportamento, sua força fez surgir até uma expressão para designar a garotada que cresceu plugada nos clipes – "geração MTV".

Nos números de audiência, falar em sucesso da MTV pode parecer estranho. Enquanto uma novela das 8 da Rede Globo atinge, em média, 43 pontos no Ibope, a MTV não chega nem a 1. Mas essa comparação não revela o essencial: a emissora é fortíssima no segmento para o qual está direcionada. Presente em 41% dos domicílios brasileiros, como canal pago ou UHF, ela é vista mensalmente por cerca de 3,6 milhões de jovens das classes A e B. Dentro desse universo, atrações como Os Piores Clipes do Mundo, comandada pelo VJ Marcos Mion, chegam a ser líderes de audiência por alguns momentos. Os anunciantes descobriram que se trata de um canal eficiente para falar com a moçada entre 15 e 29 anos. No primeiro semestre deste ano, o faturamento publicitário do conjunto da televisão brasileira sofreu uma queda de 2% em relação ao mesmo período de 2000. Já a MTV alcançou um crescimento de quase 10%.

Quando entrou no ar, no início dos anos 90, a emissora foi vista por alguns como uma espécie de "tentáculo do imperialismo americano" e teve de enfrentar muita patrulha. A verdade é que seu impacto benéfico sobre o mercado musical brasileiro foi enorme. Hoje, várias produtoras fazem clipes de ótima qualidade. O melhor termômetro é o próprio VMB: só neste ano, mais de cinqüenta produções nacionais participam da competição. Onze anos atrás, no entanto, a MTV dispunha apenas de uma dúzia de produções brasileiras para exibir. O padrão vigente era o dos vídeos cafoninhas do Fantástico. "De Lulu Santos aos Titãs, os artistas não estavam nem aí para o que mostrávamos em seus clipes. Com a MTV, tudo mudou", reconhece Boninho, diretor de núcleo da Rede Globo e artífice daquelas produções. Para incrementar seu acervo, a emissora bancou nos primeiros tempos vários dos clipes que colocou no ar. Foi assim com Pólvora, gravado durante uma apresentação do Paralamas do Sucesso, e com Falar a Verdade, primeiro clipe do Cidade Negra, que catapultou o grupo de Toni Garrido ao topo da parada.


MTV/divulgação

O beijo gay do Fica Comigo: quebrando tabus na TV brasileira


Para descobrir novas bandas e fazer jus ao slogan "Você ouviu primeiro na MTV" valia de tudo. Desde cobrir atentamente festivais de rock alternativo (como o Junta Tribo, que revelou os Raimundos) até receber de bom grado clipes de produção caseira. Nesse formato, surgiram as primeiras imagens de Skank e Charlie Brown Jr., bandas de frente do pop nacional que receberam destaque na emissora antes mesmo de gravarem seus discos de estréia. Com o sucesso dessas bandas, a MTV naturalmente capitalizou dividendos em prestígio e audiência. A emissora também soube tirar proveito de outro de seus slogans, "A última dos maiores" – ou seja, não descuidou dos artistas de gerações anteriores. Grupos como Paralamas do Sucesso, Titãs e Legião Urbana sempre tiveram cadeira cativa na programação. Gravando especiais com eles, o canal criou uma marca que virou sinônimo de altas vendagens, o Acústico MTV. O mais bem-sucedido foi o dos Titãs, em 1997. O álbum vendeu 1,8 milhão de unidades e se transformou num fenômeno do mercado fonográfico. "Executivos de gravadora com quem eu conversei na época achavam que o Acústico venderia pouco mais de 100.000", revela André Vaisman, ex-diretor de operações da MTV.

É uma inverdade dizer que a emissora brasileira simplesmente macaqueia o modelo criado nos Estados Unidos. Algumas das atrações de maior sucesso realizadas por aqui foram vistas, inicialmente, com desconfiança pelos executivos da matriz. Os Piores Clipes, por exemplo, nasceu de um projeto que nunca saiu do papel na MTV americana, por ser considerado ofensivo para com as bandas e artistas detonados em pleno ar. No caso do esculachadíssimo talk-show do punk João Gordo, a reação dos americanos foi de espanto. "Eles recomendaram que a gente deixasse a cara dele mais limpa e eu pensei: não, tem de ser sujo mesmo", lembra o diretor de programação Zico Góes.

Uma tendência aberta pela matriz americana que o canal brasileiro vem se esforçando para seguir, no entanto, é a de investir pesado em programas de comportamento. Exemplo disso é o Fica Comigo, comandado pela modelo Fernanda Lima. Na quarta-feira passada, o programa colocou no ar o primeiro beijo homossexual (e de língua) da televisão brasileira. A emissora também investe pesado em campanhas de conscientização – sobre a Aids, por exemplo –, em geral consideradas exemplares. Há, é claro, quem não goste. "Com esse excesso de programas de entretenimento, está difícil encontrar informação musical decente", reclama a colunista clubber Erika Palomino. "Não assisto mais", diz Marcelo Lobato, tecladista e baterista da banda carioca O Rappa, justamente uma das que mais se beneficiaram das aparições na emissora. "Antigamente havia mais diversidade e um jornalismo forte."


Claudio Rossi
A modelo Fernanda Lima: ela dá uma de cupido

Não é preciso zapear muito para detectar a influência da MTV na televisão. Ela está, por exemplo, nas vinhetas e nos cenários moderninhos da Rede TV!. Ou, menos descaradamente, em algumas reportagens com trilha sonora e edição acelerada do Fantástico. Mas o lado mais visível dessa influência é a contratação de seus ex-profissionais pelas grandes redes. Saído do jornalismo da MTV, por exemplo, o apresentador Zeca Camargo deu-se bem na Globo, onde virou âncora do sucesso No Limite. Outro caso é o da modelo Babi. Revelada como apresentadora do Erótica, no qual discutia as dúvidas sexuais dos adolescentes esparramada sensualmente numa cama redonda, ela se tornou estrela no SBT e ganhou uma atração só sua, o Programa Livre. Ocorrido um ano e meio atrás, seu rompimento com a MTV foi traumático. "Ela foi leviana ao largar o trabalho no meio do contrato", diz André Mantovani, diretor-geral da emissora.

O apresentador do momento na casa é Marcos Mion. Feliz com a projeção que obteve à frente do Piores Clipes do Mundo, ele por enquanto não tem demonstrado o desejo de sair da emissora e foi escalado para ser o mestre-de-cerimônias do VMB 2001. Caberá a Mion animar uma festa que terá de tudo – de clipes polêmicos, como Soldado do Morro, do rapper MV Bill, acusado de fazer apologia ao crime e ao tráfico de drogas, até representantes da última tendência da moda, o Falamansa, que toca forró. O ritmo nordestino substituiu o axé e o pagode na festa da emissora. Como todo adolescente, a MTV é volúvel. Ela não casa, fica.

 

Voto a voto

Conheça alguns dos concorrentes ao VMB:

 

Andréa Marques

João Passos
Charlie Brown Jr. (à esq.) e KLB (à dir.): rock e pop juvenil

WEA

Marcos Penteado/divulgação/TV Cultura
O Rappa: concorrem, mas não assistem mais Skank: catapultado por clipes no cana

Samuel Chaves
Sandy & Junior: dupla marca presença

 

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  Confira alguns clipes que concorrem ao VMB 2001 na Estação VEJA

 

   
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