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O amor sem fronteira
Nordestinas
casadas com europeus
não têm a ilusão de que estariam
melhor vivendo aqui

Adriana Negreiros
Fotos álbuns de família
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família
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Peter
& Almeyr
"Encontrei em Pernambuco o amor da minha vida",
conta o empresário alemão. Quando ela sai para passear
por Hamburgo, é ele quem cuida do filho de 6 meses. |
Sara
& Mauro
Foram quatro anos de namoro entre o italiano de Novate Milanese
e a brasileira de Fortaleza. "Aprendi o idioma escrevendo cartas
para ele", recorda Sara. |
De um lado,
tem-se um homem europeu interessado em parceira mais dócil que
suas conterrâneas feministas. De outro, uma mulher brasileira não
muito preocupada em libertar-se do ferro de passar roupa. Nunca houve
tantas apostas no sucesso dessa parceria. Nunca tantos homens decidiram
procurar no Nordeste brasileiro a rainha do lar que querem construir do
outro lado do oceano. Em um ano, o movimento de casamentos no Consulado
Geral da Itália no Recife, com jurisdição sobre todo
o Norte e o Nordeste, cresceu 30%. No consulado holandês de Salvador,
os pedidos de visto para moças casadoiras dobraram em meia década.
Em Zurique, há dez anos a média era de uma moça se
casando por dia no Consulado do Brasil. Hoje, são quatro, e metade
das noivas é de origem nordestina. Há dois funcionários
destacados para cuidar desses matrimônios, e a fila de espera é
de três meses.
A opinião
geral é que essas uniões têm pouca chance de sucesso.
Especialistas em relacionamento amoroso enumeram razões para isso.
Entre elas, o fato de que as moças acabarão descobrindo
que os estrangeiros são tão machistas quanto os brasileiros,
as dificuldades emocionais e de comunicação, o preconceito
de cor, em alguns casos, e até a mudança de clima. "Qualquer
uma que troque as praias do Nordeste por uma cidadezinha fria da Suíça
entra em depressão", opina Carlos Eduardo Sette Câmara, cônsul
em Zurique.
Realmente
existem casos em que essas moças enfrentam dificuldades imensas.
No Consulado do Brasil em Paris, há pelo menos uma dessas mulheres
a cada duas semanas sendo encaminhada a psicólogos para descobrir
como enfrentar a solidão e a saudade. Numa situação
extrema, descobriu-se uma brasileira casada com um francês vivendo
no país havia quatro anos sem falar uma palavra do idioma local.
Histórias assim, no entanto, representam uma exceção
para uma regra geral.
Na
maior parte dos casos, as mulheres, mesmo enfrentando problemas com a
mudança, dizem estar mais felizes do que se sentiriam no Brasil.
Além disso, numa época em que as viagens entre países
só fazem aumentar, elas vivem uma experiência para lá
de comum. "Mulheres que buscam parceiros de outras comunidades são
uma das coisas mais antigas do mundo", diz a socióloga Ana Cristina
Braga Martes, professora da Fundação Getúlio Vargas
e autora do livro Brasileiros nos Estados Unidos. "Na verdade,
elas ganham nova experiência ao ter contato com as mulheres emancipadas
do Primeiro Mundo e com uma cultura em que os homens dividem as tarefas
domésticas." Ou seja, o que se imagina como condição
de semi-escravidão se revela um relacionamento mais equilibrado
que aqueles que elas poderiam encontrar em nosso país.
"No Brasil,
eu trabalhava oito horas por um salário que não dava para
nada e não tinha nenhuma chance de encontrar um marido melhor que
o homem com quem me casei", explica a cearense Neile Weber, de 31 anos,
há quatro casada com o suíço Hans Jörg Weber
e morando em Bargen, nas proximidades de Berna. Números e histórias
indicam que as uniões ocorrem entre pessoas bastante realistas
quanto aos objetivos do casamento e que os pequenos insucessos fazem parte
do jogo, como em qualquer relacionamento.

Andréia
& Norbert
Ela é pernambucana. Ele, alemão. Vivem na pequena cidade
suíça de Romanshorn. "Somos dois estrangeiros aqui",
diz Andréia. "Damos força um para o outro."
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Acredita-se
que a maioria dos caçadores de esposa é composta de homens
um tanto passados na idade, de baixa qualificação profissional
e que pouparam muito para fazer a viagem. O perfil que se vê entre
noivos é bem diferente disso. Eles têm em média 30
anos, ganham o equivalente a 4.000 reais por
mês e sabem encantar as moças com visitas a bons restaurantes,
flores e presentes. "São poucos os casos de idosos que se unem
a meninas novas, e separações raramente acontecem", informa
o cônsul-geral da Itália no Recife, Giovanni de Vita. Normalmente,
o homem vem passar férias no Brasil, inicia o namoro e faz o pedido
de casamento alguns dias antes de embarcar de volta. Meses depois, ela
toma o avião para mudar de vida. "A mulher brasileira aceita o
homem do jeito que ele é", diz o alemão Norbert Köhler,
40 anos, casado com Andréia Neves, de 22.
Para as
jovens nordestinas de classe média baixa, a alternativa nacional
seria um rapaz com salário curto, alto risco de desemprego e pouca
escolaridade. A vida que descobrem lá fora é levada com
muita economia e nem sempre têm calorosa recepção
da comunidade local. Mas há, também, exemplos de solidariedade
em outros países. A pernambucana Almeyr Figueira, hoje com 26 anos,
casada com o alemão Peter Mertz, de 40, dono de empresa de peças
para aviões, não tem do que reclamar. "Fui muito bem recebida
por minhas vizinhas", ela conta. Na Alemanha existe um grupo de 35 brasileiras
que se ajudam mutuamente, com conselhos sobre a cultura local e até
a realização de seminários a respeito da vida no
exterior. "Claro que não é uma vida fácil", diz Sara
Pacífico, de 30 anos, há quatro meses exibindo orgulhosa
o sobrenome Biffi, do italiano Mauro, vendedor de frutas. "Mas estou com
o homem de minha vida e ganho muito mais que antes."
Nas contas
das próprias personagens, portanto, existe mais felicidade que
frustração nesses casamentos. "Minha primeira semana foi
de entusiasmo, a segunda de saudade e na terceira começou a depressão",
conta a pernambucana Ana Paula Araújo, de 23 anos, há poucos
meses vivendo em Hannover, na Alemanha, recém-casada com o operário
Thomas Dterding. Ela não fala o idioma local, refugia-se em leituras
da Bíblia e chora ao telefone quando fala com a mãe,
no Brasil. Mas nem pensa em rompimento. "Eu amo muito meu marido", diz.
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