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Licença
para matar
Atentado
mata dezesseis em
Jerusalém e conflito se rende
à lei do olho por olho
Reuters
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| Masri,
o terrorista suicida do Hamas, com fuzil e o Corão: bomba recheada
de pregos |
As
cenas de horror, os corpos dilacerados, carrinhos de bebê vazios
tombados no chão, a dor no rosto daqueles que perderam parentes
e amigos já foram vistos antes em Israel mas nem por isso se
tornaram banais ou menos terríveis. Aconteceu de novo na quinta-feira
passada numa pizzaria abarrotada de crianças e turistas no centro
de Jerusalém. Às 2 da tarde, horário de maior movimento,
o palestino Izzadine Masri, 23 anos, detonou dentro do restaurante os
explosivos que levava amarrados em torno da cintura. A bomba continha
pregos, que se espalharam por todos os lados, aumentando o poder de destruição
e o número de vítimas. O atentado matou dezesseis pessoas,
incluindo seis crianças, feriu outras 150, muitas com pregos enfiados
no corpo. Entre as vítimas estava Jorge Balazs, 60 anos, um turista
brasileiro que havia chegado a Jerusalém no dia anterior para assistir
ao casamento de um filho, que mora em Israel. Ele caminhava perto da pizzaria
com a mulher, Flora Rosembaum, e a filha, Deborah Balasz da Costa Faria,
quando a bomba explodiu. A explosão foi tão forte que matou
Balasz e feriu as duas brasileiras.
Foi o pior ataque terrorista desde junho, quando outro homem-bomba matou
21 adolescentes israelenses numa discoteca de Tel-Aviv. Nos últimos
dez meses, desde o início da Intifada, a revolta palestina nos
territórios ocupados por Israel na guerra de 1967, mais de 650
pessoas já morreram, cerca de 500 palestinos e 150 israelenses.
A mensagem contida nessa matança é assustadora: o conflito
entre israelenses e palestinos entrou na fase em que cada lado parece
ter aceitado a lógica da lei do olho por olho. Os que apertam o
gatilho ou acionam bombas agem como se a disputa entre os dois grupos,
judeus e palestinos, lhes desse o álibi para cometer assassinatos
monstruosos. Foi assim que o Hamas, a milícia islâmica que
rivaliza em poder com o líder palestino Yasser Arafat, justificou
o atentado na pizzaria. O massacre não passou, na lógica
dos fanáticos, de uma vingança pela morte de oito palestinos
na cidade de Nablus, no fim do mês passado. Militantes do Hamas,
eles foram assassinados pelo Exército israelense em obediência
à política de perseguir e matar palestinos suspeitos de
envolvimento com terrorismo. A estratégia de causar perdas sangrentas
é popular em ambos os lados. Na cidade palestina de Ramallah e
nos campos de refugiados do Líbano, centenas de palestinos foram
às ruas comemorar a matança na pizzaria, como se fosse uma
vitória no futebol.
Fotos AFP
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Fotos AFP
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Vítima da bomba na pizzaria: seis crianças
e um brasileiro entre os mortos |
Palestinos festejam o assassinato |
Impressiona
como a esperança de paz esvaneceu-se totalmente. Entre a assinatura
dos acordos em 1993 e a explosão da Intifada, no ano passado, houve
uma tentativa de convivência entre os dois povos que disputam a
Palestina. Líderes palestinos e israelenses tratavam-se mutuamente
como estadistas. A delicada arquitetura do entendimento desabou um ano
atrás, quando Arafat rejeitou os termos da oferta de divisão
da região mais ou menos do jeito que era em 1967, proposta pelo
então primeiro-ministro, Ehud Barak. A eclosão da Intifada
convenceu a maioria dos israelenses de que a liderança palestina
não está interessada em paz, mas busca a destruição
do Estado de Israel. A pesada repressão militar aos protestos mostrou
aos palestinos que os israelenses nunca negociam em boa-fé e que
só entendem a linguagem da violência.
O resultado da desilusão mútua é a rotina de ataques
e contra-ataques. Em resposta ao atentado na pizzaria, o Exército
de Israel bombardeou o quartel-general das tropas de elite de Arafat e
ocupou prédios públicos, inclusive a Orient House, a embaixada
informal da Autoridade Palestina. A ocupação dos imóveis
foi um recado mais pesado que o bombardeio: significou o desmantelamento,
ainda que temporário, dos símbolos de um futuro Estado palestino
na cidade que os palestinos querem como capital. No momento, ninguém
sabe como interromper o ciclo de violência. A opinião dominante
é que o processo de paz está morto. A única esperança
é chegar a um cessar-fogo que dê tempo para a ação
dos negociadores. Todas as tentativas de calar as armas foram até
agora infrutíferas. Com tantas matanças, ninguém
acredita que israelenses e palestinos possam ter uma convivência
fraternal. Na situação atual, o máximo que se pode
esperar é que eles cheguem, um dia, a conviver sem matar uns aos
outros.
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