É
mais difícil agora
Ex-secretário de Estado diz
que
o mundo hoje é mais
complexo do
que foi
na Guerra Fria, pois não
há
um inimigo claro
Eduardo Salgado
Por quase uma década, Henry Kissinger ditou as linhas mestras da
política externa americana. Como assessor de segurança nacional
do presidente Richard Nixon a partir de 1969 e como secretário
de Estado, de 1973 a 1977, foi protagonista de decisões históricas.
Mentor da política de aproximação com a China, ele
ganhou o Prêmio Nobel da Paz pelo acordo que pôs fim à
Guerra do Vietnã, em 1973. Desde que deixou o governo, Kissinger
se tornou consultor internacional, escritor (tem treze livros publicados)
e palestrante muito requisitado. Quando viaja para o exterior, é
recebido com deferência digna de um chefe de Estado. Nada mau para
um imigrante alemão que chegou adolescente aos Estados Unidos em
1938 para escapar à perseguição nazista aos judeus.
Nos últimos tempos tem sido perturbado por um fantasma do passado.
Um juiz chileno quer ouvi-lo sobre o golpe militar no Chile em 1973, quando
ele era um dos responsáveis pela política externa dos Estados
Unidos. Aos 78 anos, ele falou a VEJA sobre esse e outros assuntos.
Veja A justificativa do presidente Bush para rejeitar o Protocolo
de Kioto foi o impacto que teria na economia americana. A economia americana
é mais importante que a qualidade de vida no planeta?
Kissinger
A maneira como o governo americano explicou a saída do protocolo
foi, taticamente, errada. Teria sido melhor se Bush tivesse dado uma explicação
no plano geral. Esse tipo de coisa acontece no começo de um novo
governo, porque a coordenação de estratégias é
falha. A posição de Bush na questão de Kioto foi
melhor que a explicação que deu para justificá-la.
Veja Em apenas sete meses, o governo Bush já se opôs
a vários acordos internacionais, como o do clima global, o da guerra
biológica e o do tráfico de armas leves. Daqui para a frente
serão sempre os Estados Unidos contra o mundo?
Kissinger
O governo Bush não gosta de acordos que criam grandes órgãos
multilaterais e que, no final, não podem ser implementados. O Protocolo
de Kioto foi assinado em 1997, mas apenas o Congresso romeno o ratificou.
Em Bonn, os países renegociaram o protocolo e agora estão
discutindo como vão fazer para colocá-lo em prática.
Acho que os Estados Unidos farão uma proposta para combater o aquecimento
global nos próximos meses. As negociações para mudar
o Tratado Antimísseis Balísticos são positivas.
Veja A adoção de tantas medidas unilaterais
não está isolando os Estados Unidos de seus aliados?
Kissinger
O
governo Bush não é contra decisões multilaterais,
mas, sim, discorda do conteúdo desses acordos. Não concordo
de maneira alguma quando dizem que Bush age para favorecer as grandes
corporações. O aquecimento global é de fato um problema,
mas há muita controvérsia no meio científico quanto
à melhor maneira de resolvê-lo. Concordo que houve uma mudança
em termos de retórica. Clinton, que era um presidente de centro-esquerda,
falava mais em decisões multilaterais. O governo atual é
de centro-direita. Isso não quer dizer que os Estados Unidos podem
isolar-se. Houve uma mudança de ênfase. Um exemplo: o governo
atual dá mais importância à América Latina
que o anterior.
Veja O projeto de escudo antimíssil do presidente
Bush vai dar início a uma nova corrida armamentista?
Kissinger
Não. Os países que possuem arsenais de armas atômicas
não serão afetados pelo escudo antimíssil dos Estados
Unidos. A exceção pode ser a China. É possível
que os chineses queiram aumentar seu arsenal. A doutrina dominante durante
a Guerra Fria era que a capacidade de destruição mútua
impedia a guerra nuclear. Há trinta anos repito que isso é
niilismo. Uma coisa é participar de um seminário acadêmico
e dizer que essa doutrina é a melhor saída. Outra, bem diferente,
é estar sentado na Casa Branca e ter de considerar a possibilidade
de acabar com a vida de milhões de pessoas em questão de
dias. Por sorte, nenhum grupo de líderes jamais teve de tomar essa
decisão, que acabaria com a vida civilizada nos países envolvidos.
A doutrina fazia sentido na época em que havia duas superpotências.
Hoje vários países têm armas atômicas e o fim
da doutrina é um avanço. Nesse contexto, o escudo antimíssil
faz sentido. Como um líder americano pode permitir que uma bomba
atômica caia em seu território se há tecnologia capaz
de evitar isso?
Veja Por que russos e chineses não reagiriam ao escudo
de Bush com uma nova corrida nuclear?
Kissinger
O
governo americano certamente chegará a algum acordo com os russos.
Há um ponto muito importante: nenhum escudo será capaz de
impedir um ataque em massa da Rússia. Os russos sabem que o escudo
só pode evitar catástrofes em casos de acidentes, perda
de controle do poder central ou se alguém ceder à tentação
de levar adiante ataques limitados de caráter psicológico.
Sou um dos maiores defensores de boas relações entre a China
e os Estados Unidos. Os chineses não investem tanto em armas nucleares
como os russos fizeram no passado.
Veja Quando o senhor era secretário de Estado, em
que circunstâncias teria admitido o uso do arsenal atômico?
Kissinger
Espero que ninguém jamais tenha de passar por uma situação
dessas. É óbvio que estava preparado para tomar decisões
importantes de acordo com as circunstâncias. Como ex-secretário
de Estado, não posso dar respostas explícitas sobre esse
assunto. O que posso dizer é que iniciar uma guerra atômica
é uma decisão moral que nenhum líder pode tomar.
Veja O mundo está mais complexo hoje que na época
da Guerra Fria?
Kissinger
As
pessoas costumam dizer que o mundo era muito simples na época da
Guerra Fria porque havia apenas um inimigo. Não podemos esquecer
que as exigências da Guerra Fria nos obrigaram a estar presentes
em várias partes do mundo. Tínhamos medo de que certos países
caíssem sob a influência comunista e acabávamos nos
metendo em lugares longínquos. É verdade que o mundo hoje
é complexo porque não há nenhum oponente claro e
as coalizões precisam ser formadas pontualmente. Isso torna mais
complexa a gestão diária da política externa de um
país como os Estados Unidos.
Veja O embargo comercial americano a Cuba é um remanescente
da Guerra Fria. Ainda faz sentido?
Kissinger
Não há nenhuma razão geopolítica para o embargo.
É só uma questão de política doméstica.
Os eleitores de origem latino-americana têm opiniões muito
fortes a respeito desse assunto. Não são só eles.
Há vários outros. Mas uma coisa é certa: Cuba não
é nenhuma ameaça aos Estados Unidos.
Veja Um juiz chileno quer convocar o senhor para depor sobre
a morte de um cidadão americano durante o golpe militar no Chile.
O senhor vai depor?
Kissinger
Prefiro que esta pergunta seja feita ao governo americano.
Veja O governo americano patrocinou o golpe militar liderado
por Pinochet, em 1973?
Kissinger
Antes do golpe, o governo americano nem conhecia Augusto Pinochet. Não
fizemos nenhum acordo com ele. Não estávamos envolvidos
no desaparecimento de pessoas. Após o golpe, fizemos, sim, contato.
Pinochet já era o governo do Chile.
Veja O senhor acha correto Pinochet ter sido preso em Londres
pelo que fez no Chile?
Kissinger
Sou totalmente contra tribunais nacionais com jurisdição
universal. As autoridades chilenas têm toda a legitimidade para
julgar Pinochet. Não gosto da idéia de juízes de
determinados países julgando cidadãos estrangeiros por supostos
crimes cometidos no exterior. Isso criaria arbitrariedades.
Veja O senhor é a favor de tribunais internacionais
para crimes de guerra, como o que está julgando o ex-ditador iugoslavo
Slobodan Milosevic?
Kissinger
Sou
a favor de tribunais de guerra. Gostaria que a entrega de Milosevic tivesse
acontecido de outra forma. Sem chantagem, sem ameaçar o governo
iugoslavo com o bloqueio de ajuda econômica.
Veja Se a guerrilha comunista derrotar militarmente o governo
colombiano, os Estados Unidos podem se envolver num Vietnã sul-americano?
Kissinger
Eu
não gostaria de ver um governo colombiano de extrema esquerda baseado
na exportação de drogas. Por outro lado, não gostaria
também de ver tropas americanas lutando na Colômbia. A saída
para evitar o caos naquele país é apoiar o governo, dar
todas as condições possíveis para que se fortaleça.
Ele pode vencer, mas somente se as nações vizinhas ajudarem.
Países como o Brasil poderiam dar apoio técnico ao governo
colombiano. Não podemos deixar que os traficantes usem os territórios
vizinhos para se reorganizar. Essa é a maior contribuição
que esses países podem dar.
Veja O que o Brasil tem a ganhar com a criação
da área de livre comércio das Américas, a Alca?
Kissinger
O regionalismo, a formação de blocos criados a partir de
acordos de livre comércio, é um fenômeno mundial.
Com a Alca, o Brasil poderá aumentar sua influência na região.
Com ou sem a Alca, as companhias brasileiras terão de buscar a
competitividade. A experiência do México é importante.
Com a criação do Nafta, o acordo de livre comércio
dos três países da América do Norte, a indústria
mexicana cresceu muito em decorrência dos investimentos e do fluxo
de comércio. O mesmo aconteceria com o Brasil.
Veja Considerando que a China tem as melhores condições
para se tornar o principal rival dos Estados Unidos neste século,
qual deve ser a relação entre os dois países?
Kissinger
Ainda se passarão várias décadas até que a
China possa ser o principal rival dos Estados Unidos. Acho que uma política
de cooperação nas áreas em que isso é possível
é melhor que o confronto. Não deveríamos inflamar
o nacionalismo chinês. A sociedade chinesa irá se modernizar
cada vez mais nos próximos anos. Temos de avaliar se é melhor
que os chineses vejam os Estados Unidos como o país que limita
o desenvolvimento chinês ou como uma nação compatível
com seus objetivos. A hostilidade americana hoje poderá criar muitos
problemas no dia em que a China se tornar mais poderosa.
Veja Nos anos 70, quais eram os cenários para 2001
mais usados pela Casa Branca?
Kissinger
Na América Latina, achei que haveria uma maior integração
com o Brasil, um processo a que o governo de Richard Nixon deu início.
Nunca pensei que instituições como o Mercosul seriam criadas.
Quanto à China, minhas previsões foram confirmadas. Hoje
o país é muito mais influente do que era trinta anos atrás.
Sem sombra de dúvida, o evento que mais me surpreendeu nessas três
décadas foi o colapso da União Soviética, com a conseqüente
desintegração do império comunista. Pensava que os
países-satélites da União Soviética se tornariam
mais independentes da Rússia, mais nacionalistas e menos ideológicos.
Mas nunca imaginei que o bloco comunista se desintegrasse do modo como
vimos.
Veja Qual era seu principal desafio durante a Guerra Fria?
Kissinger
Naquela época, todos os governos americanos, independentemente
de quem estivesse no poder, encaravam a conversão de um país
ao comunismo como uma derrota. Até mesmo um governo de extrema
esquerda muito ligado a Moscou era considerado uma derrota. Há
trinta anos, não falávamos tanto de questões globais.
Hoje o desafio é dar a devida atenção às questões
não econômicas da globalização, que é
o processo sociológico mais incrível já visto.
Veja O que o senhor faria diferente se pudesse voltar no
tempo?
Kissinger
Não gosto desse tipo de exercício de raciocínio.
Em termos de estratégias, não mudaria nada. Talvez modificasse
uma ou outra decisão. Sempre fui muito meticuloso. Talvez tenha
cometido alguns erros, mas, de modo geral, tomei as melhores decisões.
A saída para a crise do Vietnã era muito difícil.
Um dos maiores erros foi não levar a sério a ameaça
do Egito de começar uma guerra. Achávamos que o país
não tinha condições e não demos a devida atenção.
Veja Quais foram suas principais vitórias?
Kissinger
A principal vitória foi acabar com a Guerra do Vietnã. Não
importa o que algumas pessoas digam. Conseguimos fazer com que milhares
de soldados parassem de lutar na Ásia. Foi uma tarefa dificílima.
Em segundo lugar, reatamos relações com a China e, em terceiro,
iniciamos o diálogo com os soviéticos. Com os europeus,
resolvemos problemas na área militar e de segurança e, no
Oriente Médio, demos início ao processo de paz.
Veja O senhor acha que israelenses e palestinos vão
conseguir viver em paz algum dia?
Kissinger
Nesse
momento, os dois lados não devem pensar em como a paz definitiva
seria. O desafio é fazer com que os dois povos coexistam no mesmo
território. Se israelenses e palestinos conseguirem, talvez isso
sirva de base para uma paz duradoura. O maior problema hoje é parar
com a matança. E o segundo é formular princípios
de coexistência. Acho que em breve a violência irá
se esvair e as comunidades envolvidas sentirão a necessidade de
negociar. Embora não pareça possível hoje, as negociações
acontecerão numa questão de meses.
Veja Há quem diga que o senhor era o garganta profunda,
a fonte do jornal Washington Post no caso Watergate, que acabou
com o mandato do presidente Richard Nixon.
Kissinger
Olhe, fui parte de um governo sério, e acho esse tipo de acusação
ridícula, desrespeitosa e descabida. O presidente Nixon me deu
a grande honra de poder servir a meu país e jamais o trairia. Pelo
que sei, não havia um garganta profunda, mas um grupo de fontes.
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