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Edição 1 713 - 15 de agosto de 2001
Entrevista: HENRY KISSINGER

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É mais difícil agora

Ex-secretário de Estado diz que
o mundo hoje é
mais complexo do
que
foi na Guerra Fria, pois não há
um inimigo claro

Eduardo Salgado

Por quase uma década, Henry Kissinger ditou as linhas mestras da política externa americana. Como assessor de segurança nacional do presidente Richard Nixon a partir de 1969 e como secretário de Estado, de 1973 a 1977, foi protagonista de decisões históricas. Mentor da política de aproximação com a China, ele ganhou o Prêmio Nobel da Paz pelo acordo que pôs fim à Guerra do Vietnã, em 1973. Desde que deixou o governo, Kissinger se tornou consultor internacional, escritor (tem treze livros publicados) e palestrante muito requisitado. Quando viaja para o exterior, é recebido com deferência digna de um chefe de Estado. Nada mau para um imigrante alemão que chegou adolescente aos Estados Unidos em 1938 para escapar à perseguição nazista aos judeus. Nos últimos tempos tem sido perturbado por um fantasma do passado. Um juiz chileno quer ouvi-lo sobre o golpe militar no Chile em 1973, quando ele era um dos responsáveis pela política externa dos Estados Unidos. Aos 78 anos, ele falou a VEJA sobre esse e outros assuntos.

Veja – A justificativa do presidente Bush para rejeitar o Protocolo de Kioto foi o impacto que teria na economia americana. A economia americana é mais importante que a qualidade de vida no planeta?
Kissinger – A maneira como o governo americano explicou a saída do protocolo foi, taticamente, errada. Teria sido melhor se Bush tivesse dado uma explicação no plano geral. Esse tipo de coisa acontece no começo de um novo governo, porque a coordenação de estratégias é falha. A posição de Bush na questão de Kioto foi melhor que a explicação que deu para justificá-la.

Veja – Em apenas sete meses, o governo Bush já se opôs a vários acordos internacionais, como o do clima global, o da guerra biológica e o do tráfico de armas leves. Daqui para a frente serão sempre os Estados Unidos contra o mundo?
Kissinger – O governo Bush não gosta de acordos que criam grandes órgãos multilaterais e que, no final, não podem ser implementados. O Protocolo de Kioto foi assinado em 1997, mas apenas o Congresso romeno o ratificou. Em Bonn, os países renegociaram o protocolo e agora estão discutindo como vão fazer para colocá-lo em prática. Acho que os Estados Unidos farão uma proposta para combater o aquecimento global nos próximos meses. As negociações para mudar o Tratado Antimísseis Balísticos são positivas.

Veja – A adoção de tantas medidas unilaterais não está isolando os Estados Unidos de seus aliados?
Kissinger – O governo Bush não é contra decisões multilaterais, mas, sim, discorda do conteúdo desses acordos. Não concordo de maneira alguma quando dizem que Bush age para favorecer as grandes corporações. O aquecimento global é de fato um problema, mas há muita controvérsia no meio científico quanto à melhor maneira de resolvê-lo. Concordo que houve uma mudança em termos de retórica. Clinton, que era um presidente de centro-esquerda, falava mais em decisões multilaterais. O governo atual é de centro-direita. Isso não quer dizer que os Estados Unidos podem isolar-se. Houve uma mudança de ênfase. Um exemplo: o governo atual dá mais importância à América Latina que o anterior.

Veja – O projeto de escudo antimíssil do presidente Bush vai dar início a uma nova corrida armamentista?
Kissinger – Não. Os países que possuem arsenais de armas atômicas não serão afetados pelo escudo antimíssil dos Estados Unidos. A exceção pode ser a China. É possível que os chineses queiram aumentar seu arsenal. A doutrina dominante durante a Guerra Fria era que a capacidade de destruição mútua impedia a guerra nuclear. Há trinta anos repito que isso é niilismo. Uma coisa é participar de um seminário acadêmico e dizer que essa doutrina é a melhor saída. Outra, bem diferente, é estar sentado na Casa Branca e ter de considerar a possibilidade de acabar com a vida de milhões de pessoas em questão de dias. Por sorte, nenhum grupo de líderes jamais teve de tomar essa decisão, que acabaria com a vida civilizada nos países envolvidos. A doutrina fazia sentido na época em que havia duas superpotências. Hoje vários países têm armas atômicas e o fim da doutrina é um avanço. Nesse contexto, o escudo antimíssil faz sentido. Como um líder americano pode permitir que uma bomba atômica caia em seu território se há tecnologia capaz de evitar isso?

Veja – Por que russos e chineses não reagiriam ao escudo de Bush com uma nova corrida nuclear?
Kissinger – O governo americano certamente chegará a algum acordo com os russos. Há um ponto muito importante: nenhum escudo será capaz de impedir um ataque em massa da Rússia. Os russos sabem que o escudo só pode evitar catástrofes em casos de acidentes, perda de controle do poder central ou se alguém ceder à tentação de levar adiante ataques limitados de caráter psicológico. Sou um dos maiores defensores de boas relações entre a China e os Estados Unidos. Os chineses não investem tanto em armas nucleares como os russos fizeram no passado.

Veja – Quando o senhor era secretário de Estado, em que circunstâncias teria admitido o uso do arsenal atômico?
Kissinger – Espero que ninguém jamais tenha de passar por uma situação dessas. É óbvio que estava preparado para tomar decisões importantes de acordo com as circunstâncias. Como ex-secretário de Estado, não posso dar respostas explícitas sobre esse assunto. O que posso dizer é que iniciar uma guerra atômica é uma decisão moral que nenhum líder pode tomar.

Veja – O mundo está mais complexo hoje que na época da Guerra Fria?
Kissinger – As pessoas costumam dizer que o mundo era muito simples na época da Guerra Fria porque havia apenas um inimigo. Não podemos esquecer que as exigências da Guerra Fria nos obrigaram a estar presentes em várias partes do mundo. Tínhamos medo de que certos países caíssem sob a influência comunista e acabávamos nos metendo em lugares longínquos. É verdade que o mundo hoje é complexo porque não há nenhum oponente claro e as coalizões precisam ser formadas pontualmente. Isso torna mais complexa a gestão diária da política externa de um país como os Estados Unidos.

Veja – O embargo comercial americano a Cuba é um remanescente da Guerra Fria. Ainda faz sentido?
Kissinger – Não há nenhuma razão geopolítica para o embargo. É só uma questão de política doméstica. Os eleitores de origem latino-americana têm opiniões muito fortes a respeito desse assunto. Não são só eles. Há vários outros. Mas uma coisa é certa: Cuba não é nenhuma ameaça aos Estados Unidos.

Veja – Um juiz chileno quer convocar o senhor para depor sobre a morte de um cidadão americano durante o golpe militar no Chile. O senhor vai depor?
Kissinger – Prefiro que esta pergunta seja feita ao governo americano.

Veja – O governo americano patrocinou o golpe militar liderado por Pinochet, em 1973?
Kissinger – Antes do golpe, o governo americano nem conhecia Augusto Pinochet. Não fizemos nenhum acordo com ele. Não estávamos envolvidos no desaparecimento de pessoas. Após o golpe, fizemos, sim, contato. Pinochet já era o governo do Chile.

Veja – O senhor acha correto Pinochet ter sido preso em Londres pelo que fez no Chile?
Kissinger – Sou totalmente contra tribunais nacionais com jurisdição universal. As autoridades chilenas têm toda a legitimidade para julgar Pinochet. Não gosto da idéia de juízes de determinados países julgando cidadãos estrangeiros por supostos crimes cometidos no exterior. Isso criaria arbitrariedades.

Veja – O senhor é a favor de tribunais internacionais para crimes de guerra, como o que está julgando o ex-ditador iugoslavo Slobodan Milosevic?
Kissinger – Sou a favor de tribunais de guerra. Gostaria que a entrega de Milosevic tivesse acontecido de outra forma. Sem chantagem, sem ameaçar o governo iugoslavo com o bloqueio de ajuda econômica.

Veja – Se a guerrilha comunista derrotar militarmente o governo colombiano, os Estados Unidos podem se envolver num Vietnã sul-americano?
Kissinger – Eu não gostaria de ver um governo colombiano de extrema esquerda baseado na exportação de drogas. Por outro lado, não gostaria também de ver tropas americanas lutando na Colômbia. A saída para evitar o caos naquele país é apoiar o governo, dar todas as condições possíveis para que se fortaleça. Ele pode vencer, mas somente se as nações vizinhas ajudarem. Países como o Brasil poderiam dar apoio técnico ao governo colombiano. Não podemos deixar que os traficantes usem os territórios vizinhos para se reorganizar. Essa é a maior contribuição que esses países podem dar.

Veja – O que o Brasil tem a ganhar com a criação da área de livre comércio das Américas, a Alca?
Kissinger – O regionalismo, a formação de blocos criados a partir de acordos de livre comércio, é um fenômeno mundial. Com a Alca, o Brasil poderá aumentar sua influência na região. Com ou sem a Alca, as companhias brasileiras terão de buscar a competitividade. A experiência do México é importante. Com a criação do Nafta, o acordo de livre comércio dos três países da América do Norte, a indústria mexicana cresceu muito em decorrência dos investimentos e do fluxo de comércio. O mesmo aconteceria com o Brasil.

Veja – Considerando que a China tem as melhores condições para se tornar o principal rival dos Estados Unidos neste século, qual deve ser a relação entre os dois países?
Kissinger – Ainda se passarão várias décadas até que a China possa ser o principal rival dos Estados Unidos. Acho que uma política de cooperação nas áreas em que isso é possível é melhor que o confronto. Não deveríamos inflamar o nacionalismo chinês. A sociedade chinesa irá se modernizar cada vez mais nos próximos anos. Temos de avaliar se é melhor que os chineses vejam os Estados Unidos como o país que limita o desenvolvimento chinês ou como uma nação compatível com seus objetivos. A hostilidade americana hoje poderá criar muitos problemas no dia em que a China se tornar mais poderosa.

Veja – Nos anos 70, quais eram os cenários para 2001 mais usados pela Casa Branca?
Kissinger – Na América Latina, achei que haveria uma maior integração com o Brasil, um processo a que o governo de Richard Nixon deu início. Nunca pensei que instituições como o Mercosul seriam criadas. Quanto à China, minhas previsões foram confirmadas. Hoje o país é muito mais influente do que era trinta anos atrás. Sem sombra de dúvida, o evento que mais me surpreendeu nessas três décadas foi o colapso da União Soviética, com a conseqüente desintegração do império comunista. Pensava que os países-satélites da União Soviética se tornariam mais independentes da Rússia, mais nacionalistas e menos ideológicos. Mas nunca imaginei que o bloco comunista se desintegrasse do modo como vimos.

Veja – Qual era seu principal desafio durante a Guerra Fria?
Kissinger – Naquela época, todos os governos americanos, independentemente de quem estivesse no poder, encaravam a conversão de um país ao comunismo como uma derrota. Até mesmo um governo de extrema esquerda muito ligado a Moscou era considerado uma derrota. Há trinta anos, não falávamos tanto de questões globais. Hoje o desafio é dar a devida atenção às questões não econômicas da globalização, que é o processo sociológico mais incrível já visto.

Veja – O que o senhor faria diferente se pudesse voltar no tempo?
Kissinger – Não gosto desse tipo de exercício de raciocínio. Em termos de estratégias, não mudaria nada. Talvez modificasse uma ou outra decisão. Sempre fui muito meticuloso. Talvez tenha cometido alguns erros, mas, de modo geral, tomei as melhores decisões. A saída para a crise do Vietnã era muito difícil. Um dos maiores erros foi não levar a sério a ameaça do Egito de começar uma guerra. Achávamos que o país não tinha condições e não demos a devida atenção.

Veja – Quais foram suas principais vitórias?
Kissinger – A principal vitória foi acabar com a Guerra do Vietnã. Não importa o que algumas pessoas digam. Conseguimos fazer com que milhares de soldados parassem de lutar na Ásia. Foi uma tarefa dificílima. Em segundo lugar, reatamos relações com a China e, em terceiro, iniciamos o diálogo com os soviéticos. Com os europeus, resolvemos problemas na área militar e de segurança e, no Oriente Médio, demos início ao processo de paz.

Veja – O senhor acha que israelenses e palestinos vão conseguir viver em paz algum dia?
Kissinger – Nesse momento, os dois lados não devem pensar em como a paz definitiva seria. O desafio é fazer com que os dois povos coexistam no mesmo território. Se israelenses e palestinos conseguirem, talvez isso sirva de base para uma paz duradoura. O maior problema hoje é parar com a matança. E o segundo é formular princípios de coexistência. Acho que em breve a violência irá se esvair e as comunidades envolvidas sentirão a necessidade de negociar. Embora não pareça possível hoje, as negociações acontecerão numa questão de meses.

Veja – Há quem diga que o senhor era o garganta profunda, a fonte do jornal Washington Post no caso Watergate, que acabou com o mandato do presidente Richard Nixon.
Kissinger – Olhe, fui parte de um governo sério, e acho esse tipo de acusação ridícula, desrespeitosa e descabida. O presidente Nixon me deu a grande honra de poder servir a meu país e jamais o trairia. Pelo que sei, não havia um garganta profunda, mas um grupo de fontes.

 
 
   
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