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A vingança
dos nerds
Peter
Parker, ou o Homem-Aranha, é
tímido e desajeitado. Mas já é também
um milionário, que deixou na poeira os
recordistas de bilheteria

Isabela Boscov

Veja também |
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Há
pelo menos um momento de excitação em Homem-Aranha
(Spider-Man, Estados Unidos, 2002), que estréia
nesta sexta-feira no país. Depois de uma noite de febre e mal-estar,
o jovem Peter Parker acorda se sentindo uma nova pessoa nova mesmo.
Seus músculos mirrados milagrosamente ganharam volume e definição.
Os óculos já não servem mais ao invés
de corrigir sua miopia, eles embaçam sua visão agora perfeita.
Sua agilidade é algo de extraordinário: ele é, literalmente,
capaz de caminhar pelas paredes. Peter vai se dando conta dessas transformações
com aquela elação típica dos sonhos, de quem se vê
subitamente livre de todos os pequenos fracassos e fraquezas que tornam
a vida tão mesquinha ainda mais a vida dos adolescentes
solitários e impopulares, do tipo que os colegas acham "esquisitos".
É nessa reinvenção de Peter que o filme ganha a platéia.
Sejam quais forem os defeitos que Homem-Aranha apresente daí
para a frente e há alguns , essa cumplicidade entre
protagonista e espectador permanece, até o final, o grande trunfo
do filme. Aqui há um personagem que desperta interesse genuíno,
coisa rara nesse gênero de superprodução.
Fotos Zade Rosenthal
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thal
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| Maguire,
como Peter, descobre seus poderes: os objetos grudam em suas mãos,
sua visão ficou perfeita e a gravidade não é
mais um obstáculo |
Homem-Aranha
quebrou com folga os recordes de bilheteria nos Estados Unidos, onde recolheu
quase 115 milhões de dólares apenas nos primeiros três
dias de exibição (veja
quadro). Ou seja, está perto de pagar seu custo
de produção, de cerca de 140 milhões. A cifra pegou
todo mundo de surpresa: as "bocas de urna" mais otimistas previam um total
de 75 milhões no primeiro fim de semana. Somaram para esse sucesso
a expectativa em torno de um projeto que passava de mão em mão
havia anos, os trailers sensacionais, que vinham atiçando o apetite
do público fazia meses, e o carisma do personagem criado por Stan
Lee, que há quatro décadas é um dos campeões
de vendagem da editora de quadrinhos Marvel. Um olhar mais atento ao desempenho
do filme, contudo, revela a influência de outro fator: o boca-a-boca
positivo. Foi isso que deu a Homem-Aranha pernas para avançar
além do gueto de fãs do personagem e conquistar um público
que nunca folheou suas revistas.
Homem-Aranha
é, em tudo, um pouco diferente das adaptações costumeiras
dos quadrinhos e em tudo um pouco melhor. Primeiro fato notável:
trata-se de um romance. Quando Peter (interpretado por Tobey Maguire)
adquire seus poderes, nem passa pela sua cabeça correr para salvar
o mundo. A única coisa que lhe vem à mente é que
agora talvez fique mais fácil conquistar Mary Jane Watson (Kirsten
Dunst), sua vizinha no bairro nova-iorquino do Queens. Não que
Peter cogite dar uma de galã. Seu plano é empregar sua força
nos ringues de luta livre e, com os prêmios, comprar um carro usado.
Aí quem sabe ele possa convidar Mary para passear. Peter é
tão humilde que costura sozinho seu primeiro uniforme um
moletom com capuz e uma aranha pintada no peito. Só mais tarde,
quando as circunstâncias o impelem, ele começa a livrar Nova
York do crime, correndo por entre os arranha-céus da cidade preso
à sua teia. Nessas seqüências, Homem-Aranha é
irresistível. Até no ar irreal e cartunesco dos efeitos
especiais o diretor Sam Raimi acertou. Em vez de buscar o realismo, eles
dão a sensação de que se está vendo um quadrinho
que ganhou vida, com toda a exuberância e o ritmo vertiginoso que
o gênero pede.
Zade Rosenthal/Columbia Pictures
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Doug Hyun/Columbia Pictures
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| O
diretor Sam Raimi (à esq.) no set: um ex-nerd que só
veste terno e gravata e que bateu o pé para escalar Maguire
e Kirsten (à dir.) para os papéis centrais |
Bem menos
envolvente é a relação de Peter com seus tios, que
tem um quê de novela das 6, ou o embate do Homem-Aranha com o grande
vilão do filme, o Duende Verde (Willem Dafoe) na verdade,
o pai do melhor amigo de Peter, que desenvolve uma personalidade psicótica
ao inalar um gás tóxico. O problema aí não
está só na atuação burocrática de Dafoe,
ou na pobreza evidente do personagem. É que, nessa altura da trama,
o Homem-Aranha já alcançou a plenitude de seu poder, o que
reduz muito seu apelo. O que torna Peter Parker um super-herói
tão especial não é o domínio de seu arsenal,
mas justamente a falta de controle sobre ele. Peter é o que os
americanos chamam com muita crueldade de loser, ou perdedor. Desde
a infância, ele observa Mary pela janela de seu quarto, mas ela
mal nota sua existência. Não que Mary esteja sozinha nessa
indiferença. Ninguém olha duas vezes para Peter,
a não ser para dar risada ao vê-lo correndo atrás
do ônibus escolar, todas as manhãs, por obra de um motorista
perverso. Peter é órfão, mora com seus tios idosos,
não tem dinheiro, não é bonito e é bom aluno.
É, enfim, um nerd, e como tal invariavelmente almoça sem
companhia na cafeteria da escola. É nela, aliás, que acontece
uma das cenas mais bem boladas do filme. Peter acabou de ser picado por
uma aranha geneticamente modificada razão de sua metamorfose
e ainda não sabe muito bem que surpresas o aguardam. Por
causa de um gesto mais brusco com os talheres, uma substância esbranquiçada
e viscosa sua teia jorra de seu pulso, atingindo os colegas
e causando um embaraço sem tamanho. Clara sem ser grosseira, a
cena resume aquele pânico que um adolescente experimenta ao constatar
que seus hormônios agem sem aviso prévio e transformam situações
simples em cenários de pesadelo.
Zade Rosenthal/Columbia Pictures
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| O
Homem-Aranha enfrenta o Duende Verde: o vilão é o ponto
fraco |
Até
um ano atrás, Homem-Aranha ainda não tinha adquirido
esse contorno de sucesso anunciado com que chegou aos cinemas. Por quase
vinte anos a transposição do quadrinho para a tela foi alvo
de infindáveis disputas legais, em que se misturavam falências,
embargos e desistências. Em 1999, quando o diretor James Cameron
um fã incondicional do personagem avisou que estava
caindo fora do projeto, sua morte parecia só uma questão
de tempo. Nem a decisão da Sony de reavivá-lo diminuiu o
pessimismo. O primeiro senão, segundo se acreditava, estava na
contratação do diretor Sam Raimi. Hoje com 42 anos, Raimi
começou a carreira como um garotão (também ele um
nerd, obviamente) com nítida inclinação para o trash
e o filme B criativo e de qualidade, mas nem por isso menos B.
Até duas semanas atrás, seus trabalhos mais conhecidos ainda
eram A Morte do Demônio e os dois Uma Noite Alucinante,
fitas cômicas (e baratíssimas) de terror em que ele extravasava
toda a sua imaginação e o seu talento para inventar câmaras
e lentes novas, capazes de proezas visuais até hoje difíceis
de igualar e cuja marca está bem presente em Homem-Aranha.
Nos últimos tempos, Raimi partiu para dramas pequenos, como o ótimo
Um Plano Simples e o irregular O Dom da Premonição.
Até aceitar o convite para Homem-Aranha, ele nunca havia
comandado uma produção multimilionária, muito menos
lidado com efeitos digitais na escala exigida pelo projeto. Pelo que se
vê na tela, isso não o atrapalhou em nada. Raimi (que só
comparece ao set de terno e gravata) tem uma sensibilidade perfeitamente
sintonizada com a linguagem dos quadrinhos e um senso de humor efusivo,
que pende muito mais para o alegre do que para o esquisito uma
das razões pelas quais assistir a Homem-Aranha é
uma experiência tão saborosa.
A principal
virtude de Raimi, contudo, é a preocupação em ancorar
o filme nos atores, e não nos efeitos, por mais delirantes que
estes sejam. Contra o eterno instinto dos estúdios de convocar
astros consagrados e esteticamente privilegiados, foi do diretor a decisão
de recrutar Tobey Maguire e Kirsten Dunst para os papéis centrais.
Nem um nem outro têm porte de estrela, mas ambos estão entre
os melhores nomes de sua geração. A serenidade de Tobey
e a delicadeza de Kirsten são, no fim, o eixo em torno do qual
gira Homem-Aranha: quando o Duende Verde já está
há muito esquecido, a platéia ainda está ansiosa
para saber que rumo, afinal, vai tomar o romance dos dois. Não
que a história termine por aqui. Homem-Aranha 2, é
claro, já está garantido.
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Aracnídeo,
mas sensível
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| Lee,
representado ao lado do infalível Capitão América
(à esq.), e os atormentados Hulk e Surfista Prateado
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O quadrinista
americano Stan Lee criou o Homem-Aranha quarenta anos atrás,
num gesto de rebeldia e teimosia. Lee trabalhava por encomenda,
e durante um bom tempo teve sob sua responsabilidade as histórias
do Capitão América. Com seu novo personagem, ele virou
do avesso a fórmula dos super-heróis. Em vez de resolver
seus problemas, os poderes do adolescente Peter Parker só
lhe trazem mais dúvidas, inadequações e desafios.
Publicada numa revista que já estava em seu último
número, a história fez sucesso imediato e catapultou
a carreira de Lee. No cargo de presidente da gigante Marvel Comics,
o autor criou outros personagens conflituosos de sucesso. Entre
eles, o Incrível Hulk cuja versão cinematográfica
está sendo dirigida pelo taiwanês Ang Lee, de O
Tigre e o Dragão e o Surfista Prateado. Lee, hoje
com 79 anos e ainda na ativa, influenciou fortemente os rumos da
história em quadrinhos. Essa sua ótica do herói
"comum" levou à revisão até de personagens
rivais, como Batman, que se tornou um morcegão angustiado.
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