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Edição 1 751 - 15 de maio de 2002
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O mártir populista

Assassinato de político aumenta
as chances da extrema direita
nas eleições holandesas


AFP Photo/Jasper Juinen
Partidários de Fortuyn em seu enterro: contra os imigrantes e inimigo do Islã

A última coisa que se espera na Holanda é um crime político. Nesse país de economia próspera e apenas 16 milhões de habitantes, a política costuma ser sonolenta e sempre prevaleceram o consenso e a tolerância. Na segunda-feira passada, o cenário confortável espatifou-se sob o impacto dos seis tiros que mataram Pim Fortuyn, líder de um partido de extrema direita e a maior sensação da política holandesa em décadas. O assassinato – o primeiro crime político por lá desde o século XVII – foi tão inusitado quanto a carreira do morto. Professor de sociologia e gay assumido, ele irrompeu na vida pública no início deste ano com exigências que, outra surpresa, muitos holandeses aplaudiram. Fortuyn exigia o fim da imigração e acusava o Islã de ser uma "cultura retrógrada", por sua intolerância em relação ao homossexualismo. Ainda assim, o acusado pelo crime não é um muçulmano fanático da Al Qaeda, mas um jovem ecoterrorista holandês. O político foi morto, de acordo com a polícia, por sua posição a favor da criação de animais para aproveitamento de peles, um assunto marginal.


Reuters/Leo Vogelzang
Pim Fortuyn: idéias e gostos extravagantes


A carreira fulminante de um extremista de direita e seu assassinato no país mais tolerante da Europa reforçam a sensação de que há algo de podre no continente. O que cheira mal, evidentemente, é a proliferação de partidos xenófobos e de traços fascistas. Eles já fazem parte do governo na Áustria, Itália e Dinamarca. No domingo, um dia antes da morte do holandês, o truculento populista Jean-Marie Le Pen, que defende a deportação dos estrangeiros, disputou a Presidência da França. Os franceses reelegeram Jacques Chirac com 82% dos votos, numa clara manifestação de repúdio a Le Pen – mas o fato é que, ainda que por vias tortas, o neofascista chegou a disputar o segundo turno das eleições. Colocada no devido contexto, a ascensão da extrema direita é menos assustadora. Em nenhum lugar a classe média abraçou maciçamente alguma ideologia racista e antidemocrática, como ocorreu quando o nazismo chegou ao poder, nos anos 30. O preconceito antiimigrante parece não ir além de um subproduto da sensação equivocada de que a economia européia é frágil demais para sustentar recém-chegados.

Talvez o voto na direita populista reflita apenas a falta de opções do eleitor. Depois do fim da Guerra Fria, ficou mesmo difícil ver diferenças entre socialistas e conservadores, o tradicional dueto da política européia. Por fim, os líderes de extrema direita não são todos do mesmo matiz. Pim Fortuyn odiava ser comparado a Le Pen. O holandês tinha uma personalidade singular. Vestia-se com elegância exagerada, andava de limusine com motorista e tinha mordomo. Vivia numa casa imponente em estilo italiano, que batizou de "Casa di Pietro", numa praça elegante em Roterdã. As muitas gravuras de homens pelados espalhadas pelas paredes não deixavam dúvida quanto a sua predileção sexual. Às vésperas do assassinato, ele já contava com 17% das intenções de voto nas eleições parlamentares desta semana, o que o colocaria entre as três principais forças políticas da Holanda. O crime estúpido pode transformar Pim Fortuyn num perigo maior do que ele foi em vida: um mártir da extrema direita na Europa.

 
 
   
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