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O mártir populista
Assassinato
de político aumenta
as chances da extrema direita
nas eleições holandesas
AFP Photo/Jasper Juinen
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| Partidários
de Fortuyn em seu enterro: contra os imigrantes e inimigo do Islã
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A última
coisa que se espera na Holanda é um crime político. Nesse
país de economia próspera e apenas 16 milhões de
habitantes, a política costuma ser sonolenta e sempre prevaleceram
o consenso e a tolerância. Na segunda-feira passada, o cenário
confortável espatifou-se sob o impacto dos seis tiros que mataram
Pim Fortuyn, líder de um partido de extrema direita e a maior sensação
da política holandesa em décadas. O assassinato o
primeiro crime político por lá desde o século XVII
foi tão inusitado quanto a carreira do morto. Professor
de sociologia e gay assumido, ele irrompeu na vida pública no início
deste ano com exigências que, outra surpresa, muitos holandeses
aplaudiram. Fortuyn exigia o fim da imigração e acusava
o Islã de ser uma "cultura retrógrada", por sua intolerância
em relação ao homossexualismo. Ainda assim, o acusado pelo
crime não é um muçulmano fanático da Al Qaeda,
mas um jovem ecoterrorista holandês. O político foi morto,
de acordo com a polícia, por sua posição a favor
da criação de animais para aproveitamento de peles, um assunto
marginal.
Reuters/Leo Vogelzang
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| Pim
Fortuyn: idéias e gostos extravagantes |
A carreira fulminante de um extremista de direita e seu assassinato no
país mais tolerante da Europa reforçam a sensação
de que há algo de podre no continente. O que cheira mal, evidentemente,
é a proliferação de partidos xenófobos e de
traços fascistas. Eles já fazem parte do governo na Áustria,
Itália e Dinamarca. No domingo, um dia antes da morte do holandês,
o truculento populista Jean-Marie Le Pen, que defende a deportação
dos estrangeiros, disputou a Presidência da França. Os franceses
reelegeram Jacques Chirac com 82% dos votos, numa clara manifestação
de repúdio a Le Pen mas o fato é que, ainda que por
vias tortas, o neofascista chegou a disputar o segundo turno das eleições.
Colocada no devido contexto, a ascensão da extrema direita é
menos assustadora. Em nenhum lugar a classe média abraçou
maciçamente alguma ideologia racista e antidemocrática,
como ocorreu quando o nazismo chegou ao poder, nos anos 30. O preconceito
antiimigrante parece não ir além de um subproduto da sensação
equivocada de que a economia européia é frágil demais
para sustentar recém-chegados.
Talvez o
voto na direita populista reflita apenas a falta de opções
do eleitor. Depois do fim da Guerra Fria, ficou mesmo difícil ver
diferenças entre socialistas e conservadores, o tradicional dueto
da política européia. Por fim, os líderes de extrema
direita não são todos do mesmo matiz. Pim Fortuyn odiava
ser comparado a Le Pen. O holandês tinha uma personalidade singular.
Vestia-se com elegância exagerada, andava de limusine com motorista
e tinha mordomo. Vivia numa casa imponente em estilo italiano, que batizou
de "Casa di Pietro", numa praça elegante em Roterdã. As
muitas gravuras de homens pelados espalhadas pelas paredes não
deixavam dúvida quanto a sua predileção sexual. Às
vésperas do assassinato, ele já contava com 17% das intenções
de voto nas eleições parlamentares desta semana, o que o
colocaria entre as três principais forças políticas
da Holanda. O crime estúpido pode transformar Pim Fortuyn num perigo
maior do que ele foi em vida: um mártir da extrema direita na Europa.
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