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Edição 1 751 - 15 de maio de 2002
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O terror é quem
dá as cartas

Com atentados suicidas, o Hamas
desafia Arafat e mostra que tem
poder de veto em qualquer
tentativa de diálogo

José Eduardo Barella

AFP Photo/Yariv Katz-Yedioth Aharonot
Reuters/Gil Cohen Magen
Terrorista é revistado por robô e palestinos deixam a Igreja da Natividade após 38 dias de cerco

O jovem alto e bem-vestido subiu as escadas que levam ao clube de sinuca situado no 3º andar de um prédio simples em Rishon Letzion, cidade industrial nas proximidades de Tel-Aviv. Carregava uma pasta na mão esquerda e, ao entrar no salão, não disse uma palavra – olhou para os lados e detonou a bomba que levava na maleta. A explosão deixou dezesseis mortos e sessenta feridos. Mais uma vez o Hamas, movimento terrorista islâmico, deixou claro seu poder de veto em qualquer diálogo entre israelenses e palestinos. Esse primeiro atentado suicida depois da ofensiva militar na Cisjordânia, em abril, foi também um lembrete de que, apesar da devastação causada pelos tanques nas cidades e vilas palestinas, Israel permanece vulnerável aos ataques terroristas em suas próprias cidades. O que vem aí é o de sempre. Na sexta-feira, Israel já havia convocado reservistas e concentrava blindados para uma operação de retaliação na Faixa de Gaza, o principal reduto do Hamas.

O atentado jogou no lixo semanas de articulações políticas encabeçadas pelos Estados Unidos para reaproximar israelenses e palestinos. Com perversa precisão, a explosão ocorreu no momento em que o primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, era recebido pelo presidente americano George W. Bush em Washington justamente para dar início a um processo de negociação de paz com os palestinos. Pouco adiantou o líder palestino Yasser Arafat condenar o ataque. Não foi levado a sério por duas razões. Primeiro porque é o tipo de pronunciamento que ele sempre faz quando percebe que mais uma vez foi atingido o número de vítimas que o governo de Israel não deixa de vingar. Segundo porque Sharon tenta comportar-se, ainda que sem sucesso, como se o líder palestino já não tivesse importância. Em Washington, ele tentou convencer Bush de que Arafat precisa ser substituído por uma nova liderança palestina, menos corrupta e mais disposta ao diálogo. O presidente aceitou a tese, pelo menos em parte. Sharon voltou às pressas para Israel para preparar a retaliação e, ainda uma vez, membros de seu governo pediram a deportação do líder palestino.

 
AP Photo/NTV Russian Channel
Terror islâmico ataca na Rússia: 41 mortos, entre eles dezessete crianças

Doze horas depois do atentado em Rishon Letzion, o Hamas tentou novo ataque suicida perto de Haifa, no norte de Israel. Desta vez, a bomba explodiu antes do tempo, ferindo apenas o terrorista que a levava amarrada ao corpo. Ferido no meio da rua, o palestino ainda teve de enfrentar um robô enviado pela polícia israelense para desarmar outro explosivo que ele tinha junto ao corpo. Projetado por um coronel inglês em 1972 para combater as bombas dos terroristas do Exército Republicano Irlandês (IRA), o robô é uma ferramenta impressionante, que, estima-se, já salvou 400 vidas. Com o tamanho de um cortador de grama, provido de uma câmara de vídeo e de um braço mecânico acionado por controle remoto, o equipamento é movido por um pequeno motor elétrico. Em Haifa, diante de numerosa platéia, o robô arrastou o terrorista até o meio da rua e, enquanto desativava a bomba com movimentos cirúrgicos, uma haste acima do braço mecânico mantinha uma arma apontada para a cabeça dele. Em outras circunstâncias, o fuzil é usado para destruir o detonador do explosivo. Quando se defronta com um carro-bomba, o braço mecânico é usado para sacudir o veículo, forçando a explosão do artefato. Devido aos ferimentos causados pela detonação da bomba, o terrorista morreu no dia seguinte.

O fracasso do segundo ataque não impediu que o Hamas conseguisse o que queria – elevar novamente a temperatura do conflito no Oriente Médio. O único avanço positivo da semana passada foi o fim do cerco israelense à Igreja da Natividade, em Belém, que durou 38 dias. Esse santuário de mais de 1.500 anos foi construído no local que a tradição cristã diz ser o de nascimento de Jesus Cristo. Pelo acordo, negociado com a ajuda dos Estados Unidos e da União Européia, treze palestinos procurados por Israel, que estavam no cerne do impasse, foram transferidos para Chipre. Depois, seguiriam para o exílio em países europeus. Uma centena de palestinos também refugiados na igreja, com a proteção de padres e ativistas estrangeiros pró-palestinos, foi interrogada e libertada na entrada da Faixa de Gaza.

Os atentados do Hamas são um desafio direto à autoridade de Arafat, porque ele já deixou claro que novas ações terroristas dentro de Israel podem levar a uma guerra civil entre os palestinos. É um ciclo sem fim de violência. A ofensiva israelense na Cisjordânia arrasou com o aparato de segurança de Arafat. Sem sua polícia, o líder palestino tem maior dificuldade para controlar os militantes do Hamas – e, provavelmente, até seus próprios homens que também estão envolvidos em ataques dentro de Israel. O terrorismo não é um problema exclusivo do Oriente Médio, evidentemente. Na quinta-feira passada, uma bomba acionada por controle remoto, provavelmente colocada por separatistas muçulmanos, matou 41 pessoas, entre elas dezessete crianças, no sul da Rússia. A diferença é que, por mais terrível que seja, os atentados em geral não têm o poder de engessar o futuro de um povo. No conflito entre israelenses e palestinos, ao contrário, os homens-bomba detêm o poder de veto em qualquer solução negociada.

 
 
   
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