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Onde foi parar o dinheiro?As versões
sobre o dinheiro que
Eduardo Oinegue
Em março de 2001, VEJA publicou uma reportagem intitulada "Na alma e no bolso tucano", falando sobre o prestígio que o ex-diretor do Banco do Brasil Ricardo Sérgio de Oliveira tinha junto a expoentes do PSDB. A reportagem contava que uma das razões desse poder era que "Ricardo Sérgio conseguia dinheiro para empresários na Previ e para políticos com os empresários". A certa altura da reportagem, VEJA relatava alguns exemplos para mostrar de que forma (e com quanto) Ricardo Sérgio ajudava os políticos. Escreveu-se o seguinte:
Em 14 de março de 2001, data de publicação da reportagem, 1 dólar equivalia a cerca de 2 reais. Os 2 milhões de reais representavam, portanto, algo como 1 milhão de dólares. O empresário que relatou a doação a VEJA é Carlos Jereissati, dono do grupo La Fonte e um dos sócios da Telemar. A entrevista ocorreu no restaurante Fasano, em São Paulo, e foi testemunhada por uma pessoa. Na ocasião, Jereissati autorizou a publicação da história, mas pediu que seu nome fosse mantido em sigilo. Publicada a informação de que Jereissati apresentado no texto como "um dos maiores empresários do país" havia entregue dinheiro em quatro ou cinco prestações a Ricardo Sérgio para a campanha de Serra, a revista não recebeu uma única carta de esclarecimento ou desmentido, seja do candidato José Serra, seja de sua assessoria, seja de Ricardo Sérgio de Oliveira. Na semana passada, VEJA voltou ao assunto no curso de nova reportagem sobre Ricardo Sérgio e suas ações à frente dos fundos de pensão. A revista procurou Jereissati para obter dele autorização para a publicação de seu nome. Jereissati consentiu. Há uma diferença entre as duas publicações, além de apresentar o nome do empresário. VEJA fez uma comparação entre dois números. Um é o total da doação que Jereissati declarou ter feito. O outro são os valores oficiais da ajuda do empresário, de acordo com o boletim entregue pelo comitê de Serra ao Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. Eis o trecho publicado em VEJA em sua última edição:
Apresentada dessa forma, com mais detalhes, a informação que havia sido publicada pela primeira vez em março de 2001 produziu uma reação diferente, agora que o país atravessa uma campanha eleitoral. Em vez do silêncio da primeira vez, os envolvidos decidiram dar explicações adicionais. O empresário Carlos Jereissati concedeu uma entrevista ao jornalista Fernando Rodrigues, publicada na Folha de S.Paulo. Perguntado se havia doado 2 milhões de reais para a campanha, conforme a reportagem de VEJA, Jereissati disse ter havido um mal-entendido de natureza cambial. O empresário contou ao jornal que 2 milhões de reais equivalem hoje a cerca de 700.000 dólares. (Lembre-se de que valiam quase 1 milhão de dólares na data da primeira entrevista sobre o assunto.) "Eu posso ter dito que doei 700.000 dólares porque, à época, 1 dólar valia 1 real. Mas o valor correto foi 700.000 reais", afirmou. O empresário Jereissati explicou ainda que, em dinheiro, suas empresas entregaram apenas o valor correspondente ao que está declarado no tribunal eleitoral: cerca de 100.000 reais. "Essa parte é que foi entregue em quatro ou cinco prestações", contou. O restante, cerca de 600.000 reais, Jereissati afirmou à Folha não ter entregue em dinheiro à campanha, mas na forma de serviço. "Aluguei um avião que foi usado por Serra na campanha, por uns cinco meses, em algumas ocasiões." Essa foi a explicação dada por Jereissati, na qual 2 milhões de reais "entregues em quatro ou cinco prestações" se transformaram em 700.000 reais, dos quais apenas 100.000 foram "entregues em quatro ou cinco prestações". De acordo com a legislação, toda ajuda feita a um político precisa ser registrada. Nessa versão, 600.000 reais doados a título de serviço na forma de aluguel de avião teriam ficado de fora da declaração assinada por Serra ao tribunal eleitoral de São Paulo. O senador José Serra fez uma correção ainda mais ampla que a de Jereissati. Ele nega não apenas o que Jereissati disse a VEJA. Desmente também a nova versão apresentada pelo empresário à Folha. "Nove de cada dez viagens aéreas eu fiz usando o avião da campanha de Mário Covas ao governo de São Paulo", afirma José Serra. "Fazendo isso, não precisava pagar." Para ser ainda mais contundente, a assessoria do candidato divulgou uma nota dizendo que, se o candidato gastasse 600.000 em avião, ficaria cinco horas diárias no ar. "Isso, evidentemente, não aconteceu", escreveu o assessor de imprensa de Serra. Quando se conferem os documentos oficiais da campanha, surge uma terceira versão para os fatos, que se choca com as do doador e também com as do candidato. Segundo os papéis oficiais, Jereissati não pode ter entregue "100.000 reais em quatro ou cinco prestações". O relatório da campanha registra o ingresso de apenas um cheque, no valor de 50.000 reais. O cheque de número 642487, da agência 0564 do Unibanco, foi entregue no dia 27 de setembro de 1994. Nenhuma outra quantia em dinheiro foi destinada à campanha, sempre segundo os documentos oficiais. Há duas outras contribuições de Jereissati, uma de 15.000 reais e outra de 30.000, prestadas não em dinheiro, mas na forma de serviços. Elas contabilizam as horas de vôo doadas oficialmente por Jereissati ao candidato. Ou seja, onde foram parar os 600.000 reais que Jereissati diz que entregou e que Serra diz que não recebeu? É comum que empresários entreguem dinheiro a candidatos sem que as quantias sejam registradas na Justiça Eleitoral. A maioria dos políticos recebe contribuições de duas formas: aquela oficialmente declarada e outra "por fora", pelo caixa dois. A prática é rotineira não apenas no Brasil, mas também em outros países. Muitas vezes, a contribuição acontece "por fora" por iniciativa do empresário que quer agradar ao candidato, mas não deseja aparecer. Outras vezes, a direção da campanha é que pede ao doador que faça uma ajuda sem registro oficial. Dessa forma, haverá dinheiro disponível para certas despesas que jamais seriam aceitas à luz da lei. Nas rodas de empresários e de políticos, as doações pelo caixa dois são tratadas como um dado absolutamente normal, como se não passassem de rotina da contabilidade eleitoral. Eventualmente, um fato desse tipo vem a público ou porque escapa um documento ou porque alguém fala. E, quando isso acontece, aquilo que era normal vira um constrangimento. Enquanto essa prática não for de alguma maneira coibida ou abandonada, a hipocrisia e o susto continuarão colados ao ombro dos políticos.
Com
reportagem de
Sandra Brasil
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