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Alvoroço no ninho tucanoSurgem
indícios de que uma parte da
Eduardo Oinegue
A notícia de que Ricardo Sérgio de Oliveira, o ex-coletor de fundos para campanhas do PSDB, pode ter cobrado propina do empresário Benjamin Steinbruch, por ocasião da privatização da Vale do Rio Doce, provocou alvoroço no ninho tucano. O presidente Fernando Henrique procurou minimizar o episódio, dizendo tratar-se de notícia "requentada". O candidato José Serra disse que a história era "tititi", "trololó de campanha". O presidente do PSDB, José Aníbal, afirmou que há uma "campanha infamante" para desestabilizar a candidatura de Serra. O ministro da Educação, Paulo Renato Souza, e o ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros reafirmaram o que declararam a VEJA que ambos ouviram queixas de Benjamin Steinbruch segundo as quais o sócio controlador da Vale estava sendo achacado em 15 milhões, de reais ou dólares, por Ricardo Sérgio. O único tucano que veio a público negar peremptoriamente que tenha havido pedido de propina foi o próprio Ricardo Sérgio. "É mentira", voltou a declarar. Agora, porém, surgem indícios de que a propina não foi apenas cobrada mas de que uma parte chegou a ser paga.
Na semana passada, VEJA colheu cinco depoimentos de pessoas que mantêm relações estreitas com a Vale do Rio Doce e o empresário Benjamin Steinbruch, que hoje não está mais à frente da mineradora. Todas foram entrevistadas em ocasiões diferentes, todas pediram para ter a identidade preservada e todas contam a mesma história, com pequenas variações, ratificando que uma parte da propina foi desembolsada. São elas: Os ex-conselheiros da Vale dizem que eram comuns, dentro da empresa, os comentários de que uma parte da propina foi desembolsada, mas jamais tiveram acesso a prova alguma. "Comentava-se que o Benjamin tinha pago em torno de 6 milhões de dólares e deixou de pagar uma parte maior que 6 milhões", diz um deles. Os outros dois empresários, amigos de Steinbruch, contam história semelhante, com um dado adicional relevante: ambos ouviram o caso do próprio Steinbruch. "Ele contou para mim, e para dois empresários nordestinos, que recebeu pedido de propina, sim. A mim, o Benjamin disse que chegou a pagar. Depois, mais ou menos um ano mais tarde, ele recebeu outro pedido de propina, mas então decidiu não pagar. Foi aí que o Benjamin começou a se sentir ameaçado, pressionado. Por isso, ele espalhou a história e acabou contando tudo ao Paulo Renato e ao Luiz Carlos", relata o amigo. A quinta fonte de VEJA também diz que uma parte foi paga, e outra não, e traz personagem novo à história: Bruno Bolfo, empresário italiano da multinacional Duferco. Essa fonte diz que a propina teria sido paga com a ajuda da Duferco, empresa com a qual a Vale mantém relações comerciais. A companhia, que fatura 3 bilhões de dólares por ano e tem sede em Lugano, na Suíça, é dirigida pelo italiano Bruno Bolfo. Em entrevista a VEJA, Bolfo contou ter sido apresentado a Steinbruch e convidado a integrar o consórcio que arrematou a Vale. Quem o apresentou a Steinbruch foi o financista José Brafman, que trabalhou na formação do consórcio vencedor ao lado do empresário paulista Miguel Ethel e do próprio Ricardo Sérgio. Bolfo nega ter efetuado qualquer pagamento a pedido de Steinbruch, mas confirma ter sido sondado a fazê-lo. "Contaram-me que Steinbruch estava com um problema técnico para fazer um pagamento e me consultaram se eu estava pronto a resolver o problema para ele. Respondi que, se eu pudesse ajudar o dono da Vale, faria com o maior prazer, apenas com o objetivo de me aproximar dele", diz Bolfo. O empresário italiano garante que, depois dessa abordagem inicial, nunca mais foi procurado para tratar do assunto. Na privatização da Vale do Rio Doce, em 1997, Ricardo Sérgio teve papel decisivo. No posto de diretor do Banco do Brasil e em estreito contato com a cúpula do governo, tinha influência sobre a aplicação dos recursos dos fundos estatais de pensão em negócios variados, especialmente o ervanário do fundo dos funcionários do Banco do Brasil, a Previ. Foi Ricardo Sérgio que montou o consórcio com o qual o empresário Benjamin Steinbruch, do grupo Vicunha e acionista da Companhia Siderúrgica Nacional, viria a arrematar a Vale do Rio Doce em leilão. Só os fundos da Petrobras (Petros), da Caixa Econômica Federal (Funcef) e do Banco do Brasil (Previ) entraram com 834 milhões de reais do preço total de 3,3 bilhões pago pela companhia mineradora. A propina seria o pagamento pela realização desse trabalho de colocar o dinheiro dos fundos no negócio. Em 1998, quando a segunda parte da propina não foi paga ou um segundo pedido não foi atendido, de acordo com os cinco depoimentos ouvidos por VEJA, as relações entre Steinbruch e Ricardo Sérgio estavam azedas. Nesse ano, deu-se uma cena pública. Num jantar no Massimo, reduto gastronômico da elite em São Paulo, Steinbruch, de saída do restaurante, dirigiu-se à mesa de alguns amigos para se despedir . entre eles, estava Ricardo Sérgio. Steinbruch cumprimentou um a um e, quando estendeu a mão para Ricardo Sérgio, foi destratado. "Não cumprimento crápulas iguais a você", disse o então diretor do Banco do Brasil. Nessa mesma época, a Previ decidiu resgatar as aplicações financeiras que mantinha no banco Fibra, de propriedade de Steinbruch. O empresário ficou então preocupado com a sobrevivência do banco e começou a temer que o saque da Previ pudesse levar outros fundos a fazer o mesmo o que empurraria seu banco para a falência. Para evitar o pior, Steinbruch pediu à direção da Previ que voltasse a aplicar no Fibra, mas ouviu como resposta que o fundo criara regras de classificação de risco financeiro e o Fibra não se encaixava nelas.
Depois da venda da Vale ao consórcio de Steinbruch, o empresário Antônio Ermírio de Moraes, do grupo Votorantim, que foi derrotado no leilão da mineradora, andava reclamando muito. Segundo sua avaliação, o consórcio vencedor parecia ter arranjado dinheiro com excessiva facilidade. Antônio Ermírio formou inicialmente um consórcio do qual participavam a mineradora sul-africana Anglo American, o Bradesco e a Previ. Tinha-se como certo que esse grupo levaria a Vale do Rio Doce. O governo, interessado em criar disputa no leilão para elevar o preço de venda da companhia, procurou então incentivar a criação de outro consórcio, para concorrer com o de Antônio Ermírio. Foi aí que entrou em ação Ricardo Sérgio de Oliveira. Ele organizou o novo consórcio em torno de Benjamin Steinbruch. A um mês do leilão, a Previ mudou de lado. Deixou Antônio Ermírio e foi para o consórcio de Steinbruch. A Previ foi acompanhada por outras minas de ouro, os fundos Petros e Funcef. Para se ter uma idéia do que representou esse cacife, só a Previ, o maior fundo de pensão do Brasil, conta com um capital para aplicações de cerca de 35 bilhões de reais. O dinheiro da Previ vem da contribuição mensal dos funcionários do Banco do Brasil para sua futura aposentadoria e da contrapartida de igual valor (50% a 50%) desembolsada pelo próprio Banco do Brasil. É uma relação equilibrada, mas isso só acontece hoje. O patrimônio da Previ, de 35 bilhões, foi formado ao longo de muitos anos, durante os quais o Banco do Brasil chegou a arrecadar 12 partes para 1 de cada funcionário com direito a aposentadoria. Portanto, o dinheiro investido pela Previ é, em sua vasta maioria, dinheiro público. Discreto, Antônio Ermírio fez um desabafo a VEJA na semana passada. Ao ser indagado sobre a mudança de lado da Previ, respondeu o seguinte: "Antes, a Previ garantia que estava comigo e não abria. Depois, foi para o consórcio de Steinbruch. Por quê? Bem, não sou criança, mas posso imaginar..." A denúncia da cobrança de propina na Vale deixou os tucanos inquietos e respingou na candidatura de Serra, já que Ricardo Sérgio foi arrecadador de fundos em suas campanhas eleitorais de 1990, 1994 e 1996. Agora, ficou tudo ao contrário. Antes, era Serra quem dizia que Luís Inácio Lula da Silva, candidato do PT, era o adversário ideal num segundo turno. Serra também vinha adiando ao máximo a indicação do vice em sua chapa pelo PMDB, pois não se agradava das opções que o partido oferecia. Tudo mudou. Os parlamentares do PT pouco se empenharam na coleta de assinaturas para criar uma CPI da propina, no Congresso Nacional. Os petistas torcem para que Serra se mantenha na disputa. É, agora, o adversário ideal para eles no segundo turno. Movimento semelhante deu-se no PMDB. Na semana passada, Serra quis agilizar a indicação do vice, mas a cúpula do PMDB, demonstrando uma calma que antes não se via, decidiu que só anuncia o vice no fim do mês, quem sabe só em junho, mês das convenções. A candidatura de Serra atravessa um momento ruim, dá sinais de certo enfraquecimento, mas nem de longe os pefelistas podem ficar tão entusiasmados com a hipótese de uma desistência de Serra, como ficaram na semana passada. Valendo-se do desgaste do tucano na campanha, o presidente do PFL, Jorge Bornhausen, foi incisivo com Fernando Henrique num jantar no início da semana. Com clareza, repetiu que Serra não é um bom candidato e não ganhará a eleição. Aproveitou para informar que 87% dos parlamentares do PFL aceitam apoiar um candidato presidencial tucano desde que não seja Serra. No jantar, ao ouvir essa exposição, Fernando Henrique adotou uma expressão fechada e nem se deu ao trabalho de responder. No dia seguinte, o PFL fez sua manifestação mais contundente contra a candidatura de Serra. Em nota oficial, pediu diretamente a renúncia do candidato e recebeu como resposta, também através de uma nota, que o PSDB nem sequer está considerando essa hipótese.
Na sexta-feira, Serra voltou a dar explicações, dessa vez por causa de uma reportagem de Fernando Rodrigues, publicada pelo jornal Folha de S.Paulo. A matéria informa que Ricardo Sérgio, na condição de diretor do Banco do Brasil, favoreceu negócios de um parente de Serra o empresário Gregorio Marin Preciado, espanhol naturalizado brasileiro, casado com uma prima do candidato. Em 1993, duas empresas de Gregorio Marin a Gremafer e a Aceto contraíram empréstimos no Banco do Brasil, num total de 2,5 milhões de dólares, tiveram problemas para pagar e a dívida foi crescendo em bases geométricas, em função das taxas de juro aplicadas ao empréstimo. Em 1995, quando Ricardo Sérgio já era do BB, o parente de Serra conseguiu um desconto de 16 milhões de reais na dívida, referente ao crescimento em juros. E arrancou outro empréstimo, no valor de 2,8 milhões de dólares. Em 1998, outro desconto, dessa vez de 57 milhões de reais. A reportagem informa que documentos internos do Banco do Brasil tratavam as negociações como "heterodoxas" e "atípicas", embora as operações tenham sido aprovadas por toda a diretoria do banco. Logo no início das negociações com Gregorio Marin, a direção do Banco do Brasil começou a listar seus bens para arrestá-los, como garantia de pagamento da dívida. Um deles era um terreno no bairro do Morumbi, em São Paulo, no qual Gregorio Marin tinha uma metade e Serra era dono da outra metade. Antes que o arresto fosse feito, o terreno foi vendido. A parte de Serra correspondeu a uns 70.000 reais. O negócio foi declarado à Receita Federal. "O terreno foi vendido três meses antes da decisão do Banco do Brasil de arrestá-lo", declara José Serra. Ricardo Sérgio e Gregorio Marin refutam a insinuação de que agiram como amigos e dizem que mal se conhecem. "Estive com ele algumas vezes nesse período", diz Gregorio Marin, referindo-se à época das negociações com o banco. "Somos conhecidos. Ele já me deu uma ou duas caixas de charutos", afirma Ricardo Sérgio, negando que tenha tentado beneficiá-lo de algum modo. A relação de ambos, no entanto, já se cruzou em outros negócios, especialmente na época da privatização do setor elétrico. Em 1996, quando era diretor do Banco do Brasil e manda-chuva na Previ, Ricardo Sérgio montou, com Gregorio Marin, o consórcio Guaraniana S/A. Pelas mãos de Ricardo Sérgio, entraram no consórcio a Previ, o Banco do Brasil e fundos administrados pela instituição. Junto com eles, estavam os espanhóis da Iberdrola, empresa gigante no setor energético, representada oficialmente por Gregorio Marin. Reunidos na Guaraniana, BB, Previ e Iberdrola foram às compras e chegaram a participar de investimentos em dez empresas nas áreas de energia e telecomunicações. Destacaram-se na área de energia. Em apenas três anos, entre 1997 e 2000, o consórcio montado por Ricardo Sérgio e Gregorio Marin arrematou três estatais de energia elétrica a baiana Coelba, a pernambucana Celpe e a potiguar Cosern. Só essas três empresas respondem por um negócio de 4 bilhões de reais. Ao que parece, a relação do ex-tesoureiro dos tucanos com o parente de José Serra não ficou apenas na troca de caixas de charutos.
Com
reportagem de
Maurício Lima,
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