Autorretrato
Jaime
Lerner
| Marcelo Rudini
 |
"Minha imagem de qualidade
de vida é a tartaruga: mora e trabalha no mesmo lugar" |
O arquiteto e urbanista Jaime Lerner, 71
anos, ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná, passa boa parte
do ano dando palestras pelo mundo. Suas credenciais incluem a implantação
em Curitiba de um sistema de transporte considerado exemplar, hoje adotado em
83 cidades. O que mais seduz as plateias são suas ideias arrojadas para
a solução dos problemas urbanos. Lerner falou ao editor Okky de
Souza.
O trânsito nas
grandes cidades brasileiras é cada vez mais caótico. O que fazer
para melhorá-lo?
A mobilidade é hoje o grande problema em
todas as cidades do mundo. Um dos maiores equívocos que se cometem ao discuti-la
é a polarização entre o automóvel e o metrô.
Com a multiplicação da frota de carros, os governantes investem
em grandes obras viárias que apenas levam de um congestionamento a outro.
Ah, então a solução é o metrô, dizem. Mas o
metrô que existe no imaginário das pessoas é o de Londres,
Paris ou Nova York. Eles foram construídos há mais de 100 anos,
quando era mais barato trabalhar no subsolo. A operação do metrô
precisa ser subsidiada. O dinheiro do subsídio vai fazer falta em outros
setores da administração. Construir uma linha leva vinte anos. Para
melhorar o transporte público de superfície bastam dois anos. A
cidade não é tão complexa quanto os vendedores de complexidade
querem nos fazer acreditar.
Sem
obras viárias e sem metrô, a cidade não para?
O metrô
é ótimo, mas acredito que o futuro da mobilidade nas cidades está
nos ônibus circulando em canaletas exclusivas, passagem pré-paga,
embarque no mesmo nível da plataforma e alta frequência. A chave
consiste em não ter meios de transporte competindo no mesmo espaço.
Esse sistema foi implantado em Curitiba e deu certo. Muitos colegas dizem: "Ih,
lá vem o Lerner falar de Curitiba de novo". Citando o dramaturgo francês
Molière na peça Don Juan, digo sempre a mesma coisa porque
é sempre a mesma coisa.
O
que fazer para melhorar a qualidade de vida nas cidades?
Minha imagem de
qualidade de vida numa metrópole é a tartaruga. Ela tem o abrigo,
o trabalho e o movimento juntos, no mesmo espaço. Se você cortar
o casco da tartaruga, vai matá-la. É exatamente isso que estamos
fazendo com nossas cidades: morar num bairro, trabalhar em outro e buscar o lazer
num terceiro. Gasta-se energia desnecessariamente. Por que gostamos das cidades
europeias? Porque as funções estão mais integradas.
Como
aplicar esse modelo no Brasil?
A grande revolução em nossas
cidades já está acontecendo, através da mudança de
escala dos criadores de empregos. Boa parte dos empregos está hoje nos
serviços. As indústrias do vestuário e de alimentos têm
tamanho menor e se acomodam dentro da malha urbana. Isso permite a parte da população
morar e circular na mesma área da cidade em que trabalha.
Como
resolver a questão das áreas centrais degradadas, como as de São
Paulo?
Ninguém quer morar na região da Luz, em São
Paulo, porque de dia o bairro tem vida, mas de noite vira a cracolândia.
Quando a solução não está no espaço, está
no tempo. Por que não deixar os vendedores ambulantes trabalhar depois
das 6 e nos fins de semana? Para isso temos o projeto das ruas portáteis,
módulos projetados para abrigar o comércio ao ar livre. Os módulos
são instalados na sexta-feira à noite e recolhidos na segunda-feira
de manhã. Ao se promover o movimento constante de pessoas numa região,
ela fica mais segura. Isso evita que, para revitalizar áreas, seja necessário
desapropriar prédios, um processo demorado e caro. Quando se quer um projeto
criativo, deve-se cortar um zero de seu orçamento.