Ideias
A
culpa é de todos
Richard
Drew/AP
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Um
defensor do livre mercado Fox lembra
o óbvio: se a responsabilidade pela crise é dos "olhos azuis",
é deles também a prosperidade que enriqueceu o mundo |
O
México está de novo mergulhado na violência, desta vez não
por iniciativa das guerrilhas de esquerda, mas dos cartéis das drogas.
O país também sofre com os efeitos da aterrissagem de barriga da
economia americana, da qual tem dependência quase total. O ex-presidente
Vicente Fox atribui os problemas com o narcotráfico à omissão
do governo americano e reconhece que o México vai sofrer mais que o Brasil
com a crise mundial. Fox, cujo mandato terminou há quase três anos,
conversou com o editor Diogo Schelp às vésperas de sua participação,
na semana passada, no ciclo de debates Fórum da Liberdade, realizado em
Porto Alegre.
Os "loiros de olhos
azuis", ou melhor, as nações ricas são as únicas
culpadas pela atual crise financeira?
De jeito nenhum. A crise originou-se
nos Estados Unidos e se estendeu ao resto do mundo. Mas eu pergunto ao Brasil,
ao México, à África e ao Leste Europeu: como poderiam ter
tido, nos últimos dez anos, seu melhor período de crescimento econômico
e desenvolvimento se não fosse pelo acesso ao crédito? A economia
brasileira só alcançou o desempenho dos últimos anos porque
suas empresas tiveram acesso livre aos mercados internacionais e a financiamentos.
Todos nós temos uma parcela de responsabilidade.
Um
estado forte, onipresente na economia, é inevitável em tempos de
crise financeira?
O estado tem uma tarefa a cumprir como regulador, mas
é um erro retornar aos tempos dos governos intervencionistas, autoritários.
Progredimos muito na última década. Não podemos voltar às
economias fechadas, limitar o comércio e impor barreiras alfandegárias.
O Nafta vai ser prejudicado pela
crise?
O Nafta, o acordo de livre comércio que o México tem
com os Estados Unidos, é invejado por outras nações. Todos
gostariam de estar tão perto do maior mercado consumidor do mundo. O Nafta,
à medida que caírem as exportações, vai ser afetado,
sim. Mas trata-se de um instrumento tão generoso que, a longo prazo, as
dificuldades certamente serão superadas. A preocupação no
México, hoje, é saber o que quis dizer o presidente americano Barack
Obama quando anunciou uma revisão do Nafta. Esperamos que sua intenção
seja aprimorar o acordo, e não impor restrições.
O
México, devido à sua integração com a economia americana,
vai sofrer mais que o Brasil com a crise?
Nossas exportações
dependem muito do mercado americano, onde está o epicentro da crise. Por
isso, do ponto de vista da economia real os empregos, os investimentos,
as exportações, as remessas dos emigrantes , o México
vai se sair pior do que outras nações. Quem tem um comércio
exterior mais diversificado, como é o caso do Brasil, vai sofrer menos.
A boa notícia é que os fundamentos da economia e o sistema financeiro
mexicano não estão se decompondo, como ocorre em outros países.
Nesse aspecto, a economia mexicana é uma fortaleza, porque fizemos um bom
trabalho na última década, com o reforço das instituições,
a redução da dívida pública e o aumento da capacidade
de poupança da população.
Como
Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua, países com governo
populista, vão enfrentar a crise?
O pior que pode acontecer aos
cidadãos desses países é ter governantes como Hugo Chávez
no poder. Sua administração é um verdadeiro fracasso, porque
desestimula os negócios e elimina empregos. Esses governantes messiânicos
e demagogos estão construindo verdadeiras ditaduras e ampliando a pobreza.
Além disso, a Venezuela está se tornando um território quase
livre para o trânsito de drogas ilícitas rumo aos Estados Unidos.
Isso é ruim para toda a região.
A
secretária de Estado americana, Hillary Clinton, disse que a demanda pela
droga em seu país impulsiona a violência no México. Como combater
o narcotráfico?
Finalmente, os Estados Unidos reconhecem que são
responsáveis pela situação de violência do crime organizado
no México. Nesta vida, contudo, não basta reconhecer, é preciso
atuar. O que eu quero ver agora são compromissos sérios e definitivos.
Alguns membros do governo Obama chegaram a falar que o México é
um estado falido. Eu tenho a impressão de que o comentário de Hillary
esconde a intenção de blindar a fronteira com o México, de
seguir construindo muros e cercas, de mandar mais e mais guardas nacionais para
não deixar ninguém entrar no país. Isso não resolve.
O que resolve?
Dar alguns milhões
de dólares em ajuda não resolve o problema. Isso não serve
para nada na luta contra o narcotráfico. Primeiro, os Estados Unidos devem
limpar sua própria casa. Eles têm de reduzir o consumo e a oferta
lá mesmo, em seu território, e combater a lavagem de dinheiro associada
ao tráfico. Segundo, devem controlar o contrabando de armas. O México
não produz armas e, no entanto, estamos com as ruas abarrotadas de fuzis
de alto calibre. Eles vêm todos dos Estados Unidos. A violência dos
cartéis mexicanos é uma reação à decisão,
com bons resultados, do governo mexicano de meter o Exército numa guerra
frontal contra eles. O México sempre foi um ponto de passagem da droga
entre os países produtores e o mercado americano. Infelizmente, com o tempo
nós nos tornamos também um país produtor e consumidor de
narcóticos.
Em seu livro A
Revolução da Esperança, o senhor descreve o ex-presidente
americano George W. Bush como um "caubói de para-brisa". Por
quê?
Porque ele não sabe montar a cavalo, não
sabe nada de fazendas, como se vangloriava. Ou seja, é um caubói
motorizado. Mas eu respeito o presidente Bush, continuamos nos comunicando mesmo
após o fim de nossos mandatos.