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Edição 2108

15 de abril de 2009
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Economia
Para que serve o BB?

A queda do presidente do Banco do Brasil reacende
a questão sobre o real papel dos bancos estatais


Giuliano Guandalini


História dos bancos do Brasil editora Pro Service
HISTÓRIA
A primeira agência do Banco do Brasil, na Rua Direita, no centro do Rio

O Banco do Brasil foi fundado em 1808 por dom João VI. Durante a maior parte de seus 200 anos, foi um dos braços da política econômica do governo. Isso começou a mudar mais radicalmente na última década, como parte das reformas do Plano Real. O BB passou a ser administrado como um banco comercial, voltou a dar lucro e buscou a participação de acionistas privados. Hoje, duas de cada dez ações do banco estão nas mãos de investidores, metade deles estrangeiros. Por isso, foi recebida com espanto a notícia de que o atual presidente da instituição, Antonio Francisco de Lima Neto, deixará o cargo vitimado pelo fato de estar sendo eficiente demais na produção de lucros quando, na visão de seu patrão, o governo, deveria trabalhar para reduzir mais rapidamente os juros – objetivos claramente contrastantes.

A reação dos investidores foi óbvia: as ações do banco sofreram uma desvalorização de 8% na quarta-feira, após o anúncio da troca de comando. Contribuiu para a avaliação negativa o fato de o indicado para o cargo, Aldemir Bendine, ter laços estreitos com o Partido dos Trabalhadores, o PT. Desde o fim do ano passado, Lima Neto vinha recebendo críticas do alto escalão do governo por insistir em tocar sua instituição em meio à crise com a mesma lógica dos bancos privados. Isso levou o BB a aumentar as taxas de juros, ato reflexo em um ambiente de inadimplência crescente e diminuição geral da oferta de crédito. Para o governo, no entanto, o papel de um banco público nessas horas deveria ser anticíclico, ou seja, baixar juros e aumentar a oferta de crédito e, assim, alinhar-se com as demais medidas oficiais para minorar os efeitos da crise. Agindo como os bons profissionais do ramo, o presidente do BB simplesmente não contemplou a hipótese de pôr em risco a remuneração dos acionistas para satisfazer uma necessidade do governo. Claro e evidente conflito sem solução simples.

Sérgio Lima/Folha Imagem
NOVA DIREÇÃO
Bendine (à esq.), indicado para assumir o BB, Mantega e Lima Neto, que caiu: metas para diminuir os juros

Em conversa com VEJA na quinta-feira, Lima Neto preferiu não detalhar os motivos de sua saída. Mas rebateu as ilações feitas pela oposição segundo as quais o real motivo de sua saída estaria em irregularidades na aquisição de carteiras de crédito e na associação com o Banco Votorantim: "Todos os negócios que fechamos foram estratégicos e tiveram em vista o interesse empresarial do banco, para torná-lo mais forte e competitivo. Foram decisões transparentes, tomadas por um colegiado de diretores". A oposição, de fato, não ofereceu nenhum fato concreto, e o próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, indicou que sua insatisfação em relação a Lima Neto residia na questão dos juros. Nesse sentido, Bendine assume com a missão explícita de reduzir as taxas.

A questão que o episódio trouxe é a seguinte: um banco oficial precisa ser tão lucrativo quanto os privados ou ele deve atuar em harmonia com o governo na execução da política econômica? Por enquanto, essa indagação não tem resposta clara. Ela depende de que cadeira o respondente ocupa. Para os investidores, os lucros devem ser os maiores possíveis. Já o governo deseja que ele atue como instrumento de suas políticas. A gestão de Lima Neto, assim como a de seus antecessores recentes, buscou equilibrar esses dois objetivos contraditórios. Manteve a rentabilidade, mas sem abrir mão de funções sociais não exercidas plenamente pelas instituições comerciais. Economistas e banqueiros ouvidos por VEJA acreditam que o caminho correto é mesmo o de equilibrar-se entre esses dois papéis. Se os bancos públicos fizerem exatamente o que fazem os privados, deixarão de ter razão de existir; mas não podem também prescindir do lucro, senão deixarão de ser saudáveis. Afirma o economista Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central: "Devido ao seu peso como acionista, o governo pode até di-zer que o foco do BB deva ser o financiamento do comércio exterior, o crédito rural e o apoio às empresas menores. São direcionamentos compreensíveis, como forma de cumprir um papel mais social. Contudo, em momento nenhum, o banco pode ser imprudente".



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