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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo O
efêmero e a eternidade na carruagem da rainha
E
mais: santo Deus, o que será
que nos espera, na Copa do
Mundo? À vista dos montinhos de
estrume a pontuar a paisagem da cinzenta Londres, tudo o mais empalidece. Lá
estavam eles, os corcéis de Sua Majestade, a postos, na última terça-feira,
para a missão de puxar a carruagem preta de cupidos dourados no teto que
conduzia o presidente do Brasil pelo nobre trajeto entre a Casa da Guarda da Rainha
e o Palácio de Buckingham. Nessa hora, até o cocô do cavalo
faz parte do espetáculo. Seu cheiro adquire a propriedade de, como se diz
dos perfumes, produzir efeito inebriante, e até a visão da labuta
intestinal incessante própria desse animal pode ser vista como poético
contraponto às veleidades dos fraques a acentuar a barriga dos homens e
dos chapéus a equilibrar-se na cabeça das mulheres.
A recepção que a coroa britânica costuma proporcionar aos
chefes de Estado estrangeiros não é só magnificente. É
também uma das práticas mais estudadamente desconcertantes já
engendradas pela mente humana, carregada de uma ambigüidade que ao mesmo
tempo honra e humilha o visitante. Que escola de samba, que nada, que Joãosinho
Trinta... O espetáculo inventado pelos ingleses tem, com relação
ao Carnaval carioca, a diferença de aspirar à eternidade. Tanto
quanto o Carnaval se equilibra sobre o efêmero, com suas fantasias de purpurina
e cenários de papelão, o passeio de carruagem é animado pela
pretensão da permanência. O que une um e outro é a extravagância.
A monarquia britânica, em sua altaneira indiferença às contingências
do tempo, permite-se ignorar a invenção do automóvel.
Lá vai a carruagem, a rainha de um lado, o convidado estrangeiro do outro.
E o barulho então? o barulho das ferraduras sobre o asfalto, ploc
ploc, ploc ploc? Nem Mozart!!! Nem Mozart o supera no prodígio de elevar
a alma ao céu à custa de terrenos sons. O presidente Lula, segundo
o relato dos repórteres brasileiros, mostrava-se tenso. Não admira.
É próprio do show alertar o visitante para sua transitoriedade e
pequenez. Mas as fotos que o mostram dentro da carruagem flagram um sorriso de
"olha eu aqui". Também não admira. É igualmente próprio
do show provocar no visitante a sensação de estar vivendo o momento
de maior glória na vida, quem diria, pena que mamãe não esteja
vendo, mais hei de contar aos meus netos e meus netos aos netos deles... A coexistência
das duas reações é resultado dos propósitos ambíguos
da pérfida Albion ao espremer seus convidados na carruagem.
A tensão devia-se à presença ali ao lado daquela mulher que
costuma exibir-se com uma coroa na cabeça, dos criados de libré
vermelha aboletados na traseira da carruagem, da própria carruagem, do
Palácio de Buckingham e o sorriso de "olha eu aqui" provinha das
mesmas causas. Eis um momento em que é impossível não ficar
tenso. Impossível relaxar diante daquela mulher. Mas eis um momento em
que é permitido também mostrar deslumbramento. Não por ser
Lula, que já conheceu meios de transporte muito menos glamourosos, a começar
pelo pau-de-arara em que deixou Garanhuns. A qualquer mortal é permitido
deslumbrar-se nessa ocasião pois o que lhe é proporcionado,
como oferta da casa, num pacote que vai do bumbum dos cavalos à coroa da
rainha, é a ilusão de ter contemplado a face da imortalidade.
• • • No
dia seguinte, eis-nos de volta ao ramerrão. Ainda em Londres, ao fim da
visita a uma exposição sobre o movimento tropicalista no Brasil,
Lula se dá conta de que a chamada que acaba de soar no celular do repórter
Marcos Uchôa, da Rede Globo, é da parte do técnico da seleção,
Carlos Alberto Parreira. "Deixa eu falar com ele", pede o presidente. "Oi, querido",
começa. (Ai, meu Deus ele diz "Oi, querido"!) Lula fala de Ronaldo,
que atravessa má fase e tem sido vaiado pela torcida do Real Madrid. "É
nos momentos ruins que a gente tem de ajudar as pessoas", comenta. Diz mais algumas
coisas parecidas, depois encerra: "Dê um abração nele (Ronaldo).
Tudo de bom, querido". (Ai, meu Deus ele diz "Tudo de bom"!) Antes de viajar,
Lula tinha gravado para o programa radiofônico Café com o Presidente
um comentário sobre o mesmo Ronaldo. Contou que se sentiu "ofendido" com
as vaias da torcida ao jogador, tanto que resolveu mandar-lhe uma carta. "Foi
uma carta de pai para filho", emendou. (Ai, meu Deus, ainda essa mania de se fazer
de paizão!) Com seu apoio a um centroavante
que anda mal das pernas e jejuno de gols, o presidente acaba metendo o bedelho
na escalação do time. O último presidente que procedeu desse
modo foi o general Médici, o inesquecível homem do radinho de pilha,
que pediu e obteve a uma comissão técnica em que figuravam
os mesmos Zagallo e Parreira de hoje a convocação de Dario, do Atlético
Mineiro, para a seleção que disputaria a Copa de 1970. Mas isso
não é o pior. O pior é o gosto real pelo futebol, no atual
presidente, de mistura à tentação de tirar suas casquinhas
num tema tão popular. Ai, meu Deus, o que será que nos espera, na
Copa do Mundo? |