Edição 1947 . 15 de março de 2006

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O efêmero e a eternidade na carruagem da rainha

E mais: santo Deus, o que será que
nos
espera, na Copa do Mundo?

À vista dos montinhos de estrume a pontuar a paisagem da cinzenta Londres, tudo o mais empalidece. Lá estavam eles, os corcéis de Sua Majestade, a postos, na última terça-feira, para a missão de puxar a carruagem preta de cupidos dourados no teto que conduzia o presidente do Brasil pelo nobre trajeto entre a Casa da Guarda da Rainha e o Palácio de Buckingham. Nessa hora, até o cocô do cavalo faz parte do espetáculo. Seu cheiro adquire a propriedade de, como se diz dos perfumes, produzir efeito inebriante, e até a visão da labuta intestinal incessante própria desse animal pode ser vista como poético contraponto às veleidades dos fraques a acentuar a barriga dos homens e dos chapéus a equilibrar-se na cabeça das mulheres.

A recepção que a coroa britânica costuma proporcionar aos chefes de Estado estrangeiros não é só magnificente. É também uma das práticas mais estudadamente desconcertantes já engendradas pela mente humana, carregada de uma ambigüidade que ao mesmo tempo honra e humilha o visitante. Que escola de samba, que nada, que Joãosinho Trinta... O espetáculo inventado pelos ingleses tem, com relação ao Carnaval carioca, a diferença de aspirar à eternidade. Tanto quanto o Carnaval se equilibra sobre o efêmero, com suas fantasias de purpurina e cenários de papelão, o passeio de carruagem é animado pela pretensão da permanência. O que une um e outro é a extravagância. A monarquia britânica, em sua altaneira indiferença às contingências do tempo, permite-se ignorar a invenção do automóvel.

Lá vai a carruagem, a rainha de um lado, o convidado estrangeiro do outro. E o barulho então? – o barulho das ferraduras sobre o asfalto, ploc ploc, ploc ploc? Nem Mozart!!! Nem Mozart o supera no prodígio de elevar a alma ao céu à custa de terrenos sons. O presidente Lula, segundo o relato dos repórteres brasileiros, mostrava-se tenso. Não admira. É próprio do show alertar o visitante para sua transitoriedade e pequenez. Mas as fotos que o mostram dentro da carruagem flagram um sorriso de "olha eu aqui". Também não admira. É igualmente próprio do show provocar no visitante a sensação de estar vivendo o momento de maior glória na vida, quem diria, pena que mamãe não esteja vendo, mais hei de contar aos meus netos e meus netos aos netos deles... A coexistência das duas reações é resultado dos propósitos ambíguos da pérfida Albion ao espremer seus convidados na carruagem.

A tensão devia-se à presença ali ao lado daquela mulher que costuma exibir-se com uma coroa na cabeça, dos criados de libré vermelha aboletados na traseira da carruagem, da própria carruagem, do Palácio de Buckingham – e o sorriso de "olha eu aqui" provinha das mesmas causas. Eis um momento em que é impossível não ficar tenso. Impossível relaxar diante daquela mulher. Mas eis um momento em que é permitido também mostrar deslumbramento. Não por ser Lula, que já conheceu meios de transporte muito menos glamourosos, a começar pelo pau-de-arara em que deixou Garanhuns. A qualquer mortal é permitido deslumbrar-se nessa ocasião – pois o que lhe é proporcionado, como oferta da casa, num pacote que vai do bumbum dos cavalos à coroa da rainha, é a ilusão de ter contemplado a face da imortalidade.

• • •

No dia seguinte, eis-nos de volta ao ramerrão. Ainda em Londres, ao fim da visita a uma exposição sobre o movimento tropicalista no Brasil, Lula se dá conta de que a chamada que acaba de soar no celular do repórter Marcos Uchôa, da Rede Globo, é da parte do técnico da seleção, Carlos Alberto Parreira. "Deixa eu falar com ele", pede o presidente. "Oi, querido", começa. (Ai, meu Deus – ele diz "Oi, querido"!) Lula fala de Ronaldo, que atravessa má fase e tem sido vaiado pela torcida do Real Madrid. "É nos momentos ruins que a gente tem de ajudar as pessoas", comenta. Diz mais algumas coisas parecidas, depois encerra: "Dê um abração nele (Ronaldo). Tudo de bom, querido". (Ai, meu Deus – ele diz "Tudo de bom"!) Antes de viajar, Lula tinha gravado para o programa radiofônico Café com o Presidente um comentário sobre o mesmo Ronaldo. Contou que se sentiu "ofendido" com as vaias da torcida ao jogador, tanto que resolveu mandar-lhe uma carta. "Foi uma carta de pai para filho", emendou. (Ai, meu Deus, ainda essa mania de se fazer de paizão!)

Com seu apoio a um centroavante que anda mal das pernas e jejuno de gols, o presidente acaba metendo o bedelho na escalação do time. O último presidente que procedeu desse modo foi o general Médici, o inesquecível homem do radinho de pilha, que pediu – e obteve – a uma comissão técnica em que figuravam os mesmos Zagallo e Parreira de hoje a convocação de Dario, do Atlético Mineiro, para a seleção que disputaria a Copa de 1970. Mas isso não é o pior. O pior é o gosto real pelo futebol, no atual presidente, de mistura à tentação de tirar suas casquinhas num tema tão popular. Ai, meu Deus, o que será que nos espera, na Copa do Mundo?

 
 
 
 
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