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Livros A
escola do desespero As memórias de Thomas
Bernhard. Ou: o exercício da raiva na literatura européia 
Carlos Graieb
Rica, otimista,
até mesmo festiva, a Europa permanece um continente sombrio em sua melhor
literatura. Por toda parte, escritores que a crítica canadense Nancy Huston
chamou de "professores do desespero" se destacam. Um dos nomes mais importantes
dessa escola é Thomas Bernhard, austríaco morto em 1989, aos 58
anos. Romances essenciais de Bernhard, como Extinção e O
Náufrago, já foram lançados no Brasil. Agora chega às
livrarias Origem (tradução de Sergio Tellaroli; Companhia
das Letras; 501 páginas; 61 reais). É um livro poderoso. Redigidos
entre 1975 e 1982, os cinco relatos autobiográficos que o compõem
ajudam a compreender não apenas uma das grandes vozes artísticas
do pós-guerra, mas também as raízes do negativismo tão
presente na literatura européia.
As memórias e os romances de Bernhard compartilham o tom e a forma. Ele
usa imensos parágrafos, que se estendem do começo ao fim de um capítulo
ou até de um livro. Outra marca é a repetição
de palavras (mas a maneira como Bernhard modula essa repetição confirma
seu ouvido musical). O tom dos livros é exasperado. Existe, porém,
um contraste entre a ficção e a autobiografia. Os narradores dos
romances são pessoas no limite da razão. O autor, ao contrário,
é um provocador. Ele afirma em Origem: "Sou sempre o encrenqueiro,
a cada momento, em cada linha que escrevo... Não sou o tipo de pessoa que
deixa os outros em paz". Sua provocação tem método. Ela consiste
em chamar atenção para fatos "perturbadores e irritantes". São
fatos precisos, relacionados à II Guerra Mundial e ao estado de falência
moral que se seguiu. O segundo texto
autobiográfico de Origem foi o primeiro a ser escrito por Bernhard.
É significativo que seu título seja A Causa. Esse texto esclarece
um pouco das circunstâncias familiares do escritor (ele não conheceu
o pai, teve uma relação complicada com a mãe e só
encontrou no avô um real apoio afetivo), mas fala, sobretudo, de sua adolescência
na cidade de Salzburgo. Uma parte da vida escolar transcorreu durante a guerra.
O diretor do colégio era um oficial nazista, sádico em suas botas
pretas. Depois do conflito, a Igreja Católica assumiu a instituição.
A maneira hipócrita e silenciosa como se deu essa transferência é
um dos escândalos denunciados por Bernhard. O outro grande "fato perturbador"
é a maneira como os habitantes de Salzburgo lidaram com a destruição
de sua cidade. Diz Bernhard: "Quando falo com os antigos moradores, que hão
de ter vivido o mesmo que vivi, falo com a gente mais irritadiça, ignorante
e esquecida possível, é como se falasse com um único, mesmo
e ofensivo desconhecimento". Essa
destruição moral e material causada pela guerra, pelo holocausto,
pelo colaboracionismo, é o que escurece a literatura européia. No
caso de autores do Leste, a sombra se prolonga com os regimes totalitários
de esquerda. Os exemplos do húngaro Imre Kertész, prêmio Nobel
de 2002, e do alemão W. G. Sebald são pertinentes. Kertész
teve de se haver com o holocausto e com o comunismo. Ele foi prisioneiro
do campo de extermínio de Auschwitz e, mais tarde, suportou o regime autoritário
instaurado em seu país. Sua literatura é uma denúncia contínua
das cicatrizes adquiridas nessas circunstâncias. "Somos todos sobreviventes,
e isso delimita nosso universo mental perverso e degenerado", diz Kertész.
Em Sebald, o nazismo e a perseguição aos judeus são fantasmas.
Livros como Os Emigrantes falam de personagens corroídos por um
mal-estar indefinido, cujas raízes se esclarecem à medida que lembranças
longamente reprimidas vêm à tona. Sebald nasceu em 1944, tarde demais
para ter qualquer envolvimento com o regime de Hitler. "Mas é como se aqueles
horrores que eu não experimentei tivessem lançado um feitiço
sobre mim, do qual nunca escaparei completamente", disse ele.
Ressaltar a experiência histórica na obra desses europeus poderia
parecer supérfluo, não fosse por dois motivos. Muitas vezes, a história
é mais pano de fundo do que tema explícito em seus livros. Além
disso, a melancolia, a raiva ou o niilismo que eles manifestam transformaram-se
em artifício e cacoete na obra de artistas menores. Para muitos leitores,
o discurso de Bernhard é uma espécie de grito absurdo, que expressa
um horror universal. Reconhecer o vínculo histórico em seus livros,
assim como nos de Kertész ou Sebald, não os torna mais limitados
ou provincianos. Pelo contrário. Eles criaram ferramentas próprias
para lidar com a perturbação que sua época e o lugar onde
nasceram lhes impuseram. É isso que lhes dá estatura e os diferencia
dos pequenos transgressores da literatura. |