Edição 1947 . 15 de março de 2006

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A escola do desespero

As memórias de Thomas Bernhard. Ou: o
exercício da raiva na literatura européia


Carlos Graieb


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Trecho do livro

Rica, otimista, até mesmo festiva, a Europa permanece um continente sombrio em sua melhor literatura. Por toda parte, escritores que a crítica canadense Nancy Huston chamou de "professores do desespero" se destacam. Um dos nomes mais importantes dessa escola é Thomas Bernhard, austríaco morto em 1989, aos 58 anos. Romances essenciais de Bernhard, como Extinção e O Náufrago, já foram lançados no Brasil. Agora chega às livrarias Origem (tradução de Sergio Tellaroli; Companhia das Letras; 501 páginas; 61 reais). É um livro poderoso. Redigidos entre 1975 e 1982, os cinco relatos autobiográficos que o compõem ajudam a compreender não apenas uma das grandes vozes artísticas do pós-guerra, mas também as raízes do negativismo tão presente na literatura européia.

As memórias e os romances de Bernhard compartilham o tom e a forma. Ele usa imensos parágrafos, que se estendem do começo ao fim de um capítulo – ou até de um livro. Outra marca é a repetição de palavras (mas a maneira como Bernhard modula essa repetição confirma seu ouvido musical). O tom dos livros é exasperado. Existe, porém, um contraste entre a ficção e a autobiografia. Os narradores dos romances são pessoas no limite da razão. O autor, ao contrário, é um provocador. Ele afirma em Origem: "Sou sempre o encrenqueiro, a cada momento, em cada linha que escrevo... Não sou o tipo de pessoa que deixa os outros em paz". Sua provocação tem método. Ela consiste em chamar atenção para fatos "perturbadores e irritantes". São fatos precisos, relacionados à II Guerra Mundial e ao estado de falência moral que se seguiu.

O segundo texto autobiográfico de Origem foi o primeiro a ser escrito por Bernhard. É significativo que seu título seja A Causa. Esse texto esclarece um pouco das circunstâncias familiares do escritor (ele não conheceu o pai, teve uma relação complicada com a mãe e só encontrou no avô um real apoio afetivo), mas fala, sobretudo, de sua adolescência na cidade de Salzburgo. Uma parte da vida escolar transcorreu durante a guerra. O diretor do colégio era um oficial nazista, sádico em suas botas pretas. Depois do conflito, a Igreja Católica assumiu a instituição. A maneira hipócrita e silenciosa como se deu essa transferência é um dos escândalos denunciados por Bernhard. O outro grande "fato perturbador" é a maneira como os habitantes de Salzburgo lidaram com a destruição de sua cidade. Diz Bernhard: "Quando falo com os antigos moradores, que hão de ter vivido o mesmo que vivi, falo com a gente mais irritadiça, ignorante e esquecida possível, é como se falasse com um único, mesmo e ofensivo desconhecimento".

Essa destruição moral e material causada pela guerra, pelo holocausto, pelo colaboracionismo, é o que escurece a literatura européia. No caso de autores do Leste, a sombra se prolonga com os regimes totalitários de esquerda. Os exemplos do húngaro Imre Kertész, prêmio Nobel de 2002, e do alemão W. G. Sebald são pertinentes. Kertész teve de se haver com o holocausto e com o comunismo. Ele foi prisioneiro do campo de extermínio de Auschwitz e, mais tarde, suportou o regime autoritário instaurado em seu país. Sua literatura é uma denúncia contínua das cicatrizes adquiridas nessas circunstâncias. "Somos todos sobreviventes, e isso delimita nosso universo mental perverso e degenerado", diz Kertész. Em Sebald, o nazismo e a perseguição aos judeus são fantasmas. Livros como Os Emigrantes falam de personagens corroídos por um mal-estar indefinido, cujas raízes se esclarecem à medida que lembranças longamente reprimidas vêm à tona. Sebald nasceu em 1944, tarde demais para ter qualquer envolvimento com o regime de Hitler. "Mas é como se aqueles horrores que eu não experimentei tivessem lançado um feitiço sobre mim, do qual nunca escaparei completamente", disse ele.

Ressaltar a experiência histórica na obra desses europeus poderia parecer supérfluo, não fosse por dois motivos. Muitas vezes, a história é mais pano de fundo do que tema explícito em seus livros. Além disso, a melancolia, a raiva ou o niilismo que eles manifestam transformaram-se em artifício e cacoete na obra de artistas menores. Para muitos leitores, o discurso de Bernhard é uma espécie de grito absurdo, que expressa um horror universal. Reconhecer o vínculo histórico em seus livros, assim como nos de Kertész ou Sebald, não os torna mais limitados ou provincianos. Pelo contrário. Eles criaram ferramentas próprias para lidar com a perturbação que sua época e o lugar onde nasceram lhes impuseram. É isso que lhes dá estatura e os diferencia dos pequenos transgressores da literatura.

 
 
 
 
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