Edição 1947 . 15 de março de 2006

Índice
Millôr
Stephen Kanitz
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Auto-retrato
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Livros
A confraria dos assassinos

Com base em arquivos secretos
recentemente abertos, duas obras
mostram por dentro a corte de Stalin


Jerônimo Teixeira

EXCLUSIVO ON-LINE
Trechos de dois livros:
Um Stalin Desconhecido
Stalin – A Corte do Czar Vermelho

Uma piada soviética do fim dos anos 40 contava que, certa vez, o ditador Josef Stalin perdeu seu cachimbo favorito. Alguns dias depois, Lavrenti Beria – o chefe da polícia secreta que às vezes torturava pessoalmente seus prisioneiros para fazê-los admitir crimes que não cometeram – perguntou sobre o cachimbo sumido. "Já o encontrei. Estava embaixo do sofá", disse Stalin. "Não é possível!", replicou Beria. "Três pessoas já confessaram esse crime." O próprio Stalin costumava contar essa piada para seus colaboradores próximos – e todos riam. Esse monstruoso cinismo dos círculos mais elevados da tirania comunista ganha um retrato vigoroso em dois livros: Stalin – A Corte do Czar Vermelho (tradução de Pedro Maia Soares; Companhia das Letras; 864 páginas; 69 reais), do historiador inglês Simon Sebag Montefiore, e Um Stalin Desconhecido (tradução de Clóvis Marques; Record; 448 páginas; 53,90 reais), dos historiadores georgianos Roy e Zhores Medvedev.

Os dois livros estão entre os primeiros a valer-se da abertura de arquivos que permaneciam secretos até o colapso da União Soviética. Com base em cartas, bilhetes e documentos inéditos, traçam um retrato íntimo do stalinismo. Montefiore conta sua história de forma seqüencial, da consagração de Stalin como líder supremo em 1929 à sua morte, em 1953. O livro dos Medvedev – dois irmãos gêmeos que, nos anos 70, se tornaram dissidentes soviéticos – é uma coletânea de ensaios sobre temas mais especializados: a corrida atômica, o expurgo do líder comunista Bukharin, o obscurantismo na ciência soviética. De certo modo, as duas obras são complementares: dão ao leitor uma visada interna do exclusivo clube bolchevique – um pequeno grupo de mandantes que exerciam poder de vida e morte sobre regiões inteiras.

Os líderes revolucionários eram todos vizinhos em apartamentos no Kremlin e também costumavam passar as férias juntos. Até pelo menos o início dos anos 30, adotavam um estilo austero, vivendo de magros estipêndios do partido. Nos últimos anos de Stalin, porém, as reuniões do grupo dirigente começavam em sessões de cinema (às vezes com um bangue-bangue americano) e estendiam-se em madrugadas alcoólicas nas dachas (casas de campo). Apesar da proximidade familiar desses bolcheviques e de sua absoluta identidade ideológica – todos, afinal, acreditavam que estavam heroicamente moldando uma nova sociedade e um novo homem –, o clima entre eles nunca foi de camaradagem. Stalin erigiu a paranóia como princípio de governo: qualquer aliança era circunstancial, e todos desconfiavam de todos. Muitos foram os nomes aventados como herdeiros de Stalin que, mais tarde, caíram no ostracismo: o sinistro Beria; Molotov, o ministro do Exterior que negociou um pacto com os nazistas; Jdanov, o intelectual que moldou as diretrizes do "realismo socialista" impostas a todo artista soviético. Esses três tiveram a sorte de ser escanteados por Stalin – e não assassinados (Beria seria, sim, executado, mas já no governo Kruschev). Vários figurões foram consumidos pela autofagia do sistema comunista: Bukharin, Kamenev, Zinoviev, Sergo, Iejov, Iagoda – e, é claro, Trotsky, o mais brilhante opositor de Stalin, assassinado em seu exílio no México, em 1940, em uma operação arquitetada por Beria. A partir de 1937, no auge do Terror stalinista, já nem importava estabelecer quem era amigo ou inimigo do ditador: Stalin, Beria e seus asseclas estabeleciam cotas para cada região, com um número mínimo de execuções a ser realizadas. Entre expurgos, assassinatos e vítimas da fome produzida pela coletivização forçada do campo, calcula-se que os mortos pelo stalinismo estejam em torno de 20 milhões.

O mais assustador era a fidelidade que o stalinismo (termo cunhado por Kaganovich, um dos mais pusilânimes manda-chuvas bolcheviques) inspirava até em suas vítimas. "Sigam Stalin", disse Kamenev aos filhos, depois do julgamento em que foi condenado à morte por acusações falsas. Mas essa lealdade sobrenatural tinha limites: no primeiro ensaio de Um Stalin Desconhecido, Zhores Medvedev examina a hipótese de que Stalin não teria morrido de um derrame, mas sim de envenenamento (Beria, aliás, costumava envenenar inimigos). O historiador conclui que não existe nenhum indício concreto de assassinato – mas que essa não é uma idéia implausível: entre os potentados comunistas, o sentimento diante da morte de Stalin foi de alívio. Muitos anos depois, Molotov, já retirado da vida política, resumiria de forma enigmática a ambivalência da figura de Stalin, como guia carismático e assassino de massas. Em conversa com um jornalista, o ex-ministro do Exterior contou um sonho recorrente de sua velhice: "Estou numa cidade destruída e não consigo encontrar a saída. Depois, encontro Stalin".

 

Conspirações no Kremlin

Em 1949, o aniversário do ditador soviético Josef Stalin reuniu os comunistas que sobreviveram aos expurgos costumeiros na cúpula do partido. Abaixo, alguns desses sobreviventes políticos  

Viatcheslav Molotov : ministro do Exterior, negociou um pacto de não-agressão com os nazistas. Depois da guerra, seu prestígio entrou em baixa. Sua mulher, Polina, foi presa em 1949, em uma onda de perseguições anti-semitas  

Lazar Kaganovich : de família judaica, era um político enérgico, mas cauteloso. Inimigo de Molotov, contava com Stalin para proteger-se das perseguições anti-semitas  

Lavrenti Beria : foi o operador dos expurgos e execuções dos anos 30. Gostava de torturar pessoalmente seus inimigos

Georgi Malenkov : era considerado o grande aliado de Beria. Depois da morte de Stalin, porém, ele se aliou ao futuro líder Kruschev e traiu o companheiro, que foi preso e executado

 
 
 
 
topovoltar