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Livros A
confraria dos assassinos Com base em
arquivos secretos recentemente abertos, duas obras mostram por dentro
a corte de Stalin  Jerônimo
Teixeira
Uma
piada soviética do fim dos anos 40 contava que, certa vez, o ditador Josef
Stalin perdeu seu cachimbo favorito. Alguns dias depois, Lavrenti Beria
o chefe da polícia secreta que às vezes torturava pessoalmente seus
prisioneiros para fazê-los admitir crimes que não cometeram
perguntou sobre o cachimbo sumido. "Já o encontrei. Estava embaixo do sofá",
disse Stalin. "Não é possível!", replicou Beria. "Três
pessoas já confessaram esse crime." O próprio Stalin costumava contar
essa piada para seus colaboradores próximos e todos riam. Esse monstruoso
cinismo dos círculos mais elevados da tirania comunista ganha um retrato
vigoroso em dois livros: Stalin A Corte do Czar Vermelho (tradução
de Pedro Maia Soares; Companhia das Letras; 864 páginas; 69 reais), do
historiador inglês Simon Sebag Montefiore, e Um Stalin Desconhecido
(tradução de Clóvis Marques; Record; 448 páginas;
53,90 reais), dos historiadores georgianos Roy e Zhores Medvedev.
Os
dois livros estão entre os primeiros a valer-se da abertura de arquivos
que permaneciam secretos até o colapso da União Soviética.
Com base em cartas, bilhetes e documentos inéditos, traçam um retrato
íntimo do stalinismo. Montefiore conta sua história de forma seqüencial,
da consagração de Stalin como líder supremo em 1929 à
sua morte, em 1953. O livro dos Medvedev dois irmãos gêmeos
que, nos anos 70, se tornaram dissidentes soviéticos é uma
coletânea de ensaios sobre temas mais especializados: a corrida atômica,
o expurgo do líder comunista Bukharin, o obscurantismo na ciência
soviética. De certo modo, as duas obras são complementares: dão
ao leitor uma visada interna do exclusivo clube bolchevique um pequeno
grupo de mandantes que exerciam poder de vida e morte sobre regiões inteiras.
Os líderes revolucionários
eram todos vizinhos em apartamentos no Kremlin e também costumavam passar
as férias juntos. Até pelo menos o início dos anos 30, adotavam
um estilo austero, vivendo de magros estipêndios do partido. Nos últimos
anos de Stalin, porém, as reuniões do grupo dirigente começavam
em sessões de cinema (às vezes com um bangue-bangue americano) e
estendiam-se em madrugadas alcoólicas nas dachas (casas de campo). Apesar
da proximidade familiar desses bolcheviques e de sua absoluta identidade ideológica
todos, afinal, acreditavam que estavam heroicamente moldando uma nova sociedade
e um novo homem , o clima entre eles nunca foi de camaradagem. Stalin erigiu
a paranóia como princípio de governo: qualquer aliança era
circunstancial, e todos desconfiavam de todos. Muitos foram os nomes aventados
como herdeiros de Stalin que, mais tarde, caíram no ostracismo: o sinistro
Beria; Molotov, o ministro do Exterior que negociou um pacto com os nazistas;
Jdanov, o intelectual que moldou as diretrizes do "realismo socialista" impostas
a todo artista soviético. Esses três tiveram a sorte de ser escanteados
por Stalin e não assassinados (Beria seria, sim, executado, mas
já no governo Kruschev). Vários figurões foram consumidos
pela autofagia do sistema comunista: Bukharin, Kamenev, Zinoviev, Sergo, Iejov,
Iagoda e, é claro, Trotsky, o mais brilhante opositor de Stalin,
assassinado em seu exílio no México, em 1940, em uma operação
arquitetada por Beria. A partir de 1937, no auge do Terror stalinista, já
nem importava estabelecer quem era amigo ou inimigo do ditador: Stalin, Beria
e seus asseclas estabeleciam cotas para cada região, com um número
mínimo de execuções a ser realizadas. Entre expurgos, assassinatos
e vítimas da fome produzida pela coletivização forçada
do campo, calcula-se que os mortos pelo stalinismo estejam em torno de 20 milhões.
O
mais assustador era a fidelidade que o stalinismo (termo cunhado por Kaganovich,
um dos mais pusilânimes manda-chuvas bolcheviques) inspirava até
em suas vítimas. "Sigam Stalin", disse Kamenev aos filhos, depois do julgamento
em que foi condenado à morte por acusações falsas. Mas essa
lealdade sobrenatural tinha limites: no primeiro ensaio de Um Stalin Desconhecido,
Zhores Medvedev examina a hipótese de que Stalin não teria morrido
de um derrame, mas sim de envenenamento (Beria, aliás, costumava envenenar
inimigos). O historiador conclui que não existe nenhum indício concreto
de assassinato mas que essa não é uma idéia implausível:
entre os potentados comunistas, o sentimento diante da morte de Stalin foi de
alívio. Muitos anos depois, Molotov, já retirado da vida política,
resumiria de forma enigmática a ambivalência da figura de Stalin,
como guia carismático e assassino de massas. Em conversa com um jornalista,
o ex-ministro do Exterior contou um sonho recorrente de sua velhice: "Estou numa
cidade destruída e não consigo encontrar a saída. Depois,
encontro Stalin".
Conspirações no Kremlin
Em 1949, o aniversário do ditador soviético Josef Stalin
reuniu os comunistas que sobreviveram aos expurgos costumeiros na cúpula
do partido. Abaixo, alguns desses sobreviventes políticos
Viatcheslav Molotov : ministro do Exterior, negociou
um pacto de não-agressão com os nazistas. Depois da guerra, seu
prestígio entrou em baixa. Sua mulher, Polina, foi presa em 1949, em uma
onda de perseguições anti-semitas
Lazar Kaganovich : de família judaica, era um
político enérgico, mas cauteloso. Inimigo de Molotov, contava com
Stalin para proteger-se das perseguições anti-semitas
Lavrenti Beria : foi o operador dos expurgos e execuções
dos anos 30. Gostava de torturar pessoalmente seus inimigos
Georgi Malenkov : era considerado o grande aliado de
Beria. Depois da morte de Stalin, porém, ele se aliou ao futuro líder
Kruschev e traiu o companheiro, que foi preso e executado |
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