Edição 1947 . 15 de março de 2006

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Cinema
Quixotes portenhos

Em Clube da Lua, a tentativa
de salvar a velha Argentina


Isabela Boscov

Divulgação
Darín, como o taxista Román: pouco a ganhar, muito a perder


Os poucos sócios remanescentes do Luna, um velho clube social e desportivo da periferia de Buenos Aires, ainda se lembram da glória dos anos 60, quando seus milhares de sócios brigavam por espaço em seus animadíssimos bailes. Se o Luna existe no presente, é porque suas paredes ainda não ruíram de todo e porque idealistas como o motorista de táxi Román (Ricardo Darín, sempre ótimo) acham que as crianças da área precisam de algum sentido de comunidade e de um lugar para bater bola. O que fazer, então: vender o Luna para que ele seja transformado em cassino, mediante a promessa de empregos, ou lutar para que ele subsista? O que esses dedicados, mas cansados, dom-quixotes descobrirão é que, em qualquer um dos casos, há muito a perder. Clube da Lua (Luna de Avellaneda, Argentina/Espanha, 2004), desde sexta-feira em cartaz no país, é, assim, mais uma das metáforas um bocado transparentes que o cinema argentino tem produzido sobre a crise que, no início da década, roubou ao país a identidade e colocou-o diante do temor de que não houvesse lugar para ele na nova ordem mundial. Com sua boa mão, porém, o diretor Juan José Campanella, do sucesso O Filho da Noiva, exprime algo mais: a idéia de que a conjunção econômica não existe num plano e as pessoas, em outro. Em momentos críticos, elas são uma coisa só e a mesma coisa. Afetuoso e sereno, Campanella não é dado a bater panelas em protesto. Mas, com seus filmes tão pequenos e tão bem amarrados, faz ainda mais barulho.

 
 
 
 
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