Edição 1947 . 15 de março de 2006

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Cinema
Ou você, ou nada

Com A Garota da Vitrine, Steve Martin dá sua
versão do que é ser um solitário apaixonado


Isabela Boscov


Divulgação
Martin e Claire: antes mal acompanhados do que sós

DA INTERNET
Trailer do filme

O apreciador de Steve Martin tem duas opções: apanhá-lo num momento de mediocridade plena – em A Pantera Cor-de-Rosa, em circuito nacional – ou vê-lo de posse da sua inteligência e discrição, em A Garota da Vitrine (Shopgirl, Estados Unidos/Inglaterra, 2005). Escrito pelo próprio Martin a partir de um conto de sua autoria, o filme que estréia nesta sexta-feira no país não explora seus talentos cada vez mais erráticos de comediante. É, ao contrário, uma espécie de peça de câmara sobre os desesperadamente solitários. Aqui esse grupo é representado pela jovem Mirabelle (Claire Danes), que passa horas olhando para o nada detrás do balcão de luvas da loja de departamentos Saks; pelo também jovem, mas desocupado, Jeremy (Jason Schwartzman); e pelo cinqüentão Ray Porter (Martin), que se reveza entre duas magníficas casas, em Los Angeles e em Seattle, e entre o desejo e a recusa de estabelecer algum contato humano real. Mirabelle será o vértice desse triângulo – que, entretanto, não se pode chamar de amoroso. Em A Garota da Vitrine, os romances não começam porque a paixão ou a afinidade aconteceram. Antes, começam por causa do vazio – daquilo que não aconteceu – na vida dos personagens. Martin, um notório pessimista e misantropo, dá sua versão do que é um solitário apaixonado: alguém que trata de achar afinidades com o parceiro que lhe calhou de atravessar o caminho. É ele ou nada.

Dito dessa forma, A Garota da Vitrine pode parecer acre. Mas é tudo menos isso. O tailandês Anand Tucker o dirige com objetividade, mas também delicadeza, como se não quisesse ele próprio ferir os sentimentos dessas pessoas já tão tristes ou menosprezar a sinceridade dos seus esforços românticos. O segredo do filme está justamente na maneira como ele saboreia os momentos em que essa necessidade constrangedora de companhia dá lugar a uma conexão verdadeira. De onde se passa, por questão de lógica, às atuações. Jason Schwartzman (que é sobrinho de Francis Ford Coppola e a cara de Tom Cruise antes do banho) tem uma certa tendência a se amparar em "muletas" dramáticas. Mas Claire Danes e Steve Martin entregam desempenhos que, ao mesmo tempo, põem toda a alma a descoberto e evitam qualquer traço de histrionismo. É isso, de certa forma, o mais tocante em A Garota da Vitrine: a consideração com que Ray e Mirabelle tentam dispersar, um para o outro, a impressão de que estão ali por falta de escolha.

 
 
 
 
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