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Cinema Ou
você, ou nada Com A Garota da Vitrine,
Steve Martin dá sua versão do que é ser um solitário
apaixonado 
Isabela Boscov
Divulgação  |
| Martin e Claire: antes mal acompanhados do que sós
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O apreciador de Steve Martin tem duas
opções: apanhá-lo num momento de mediocridade plena
em A Pantera Cor-de-Rosa, em circuito nacional ou vê-lo de
posse da sua inteligência e discrição, em A Garota da
Vitrine (Shopgirl, Estados Unidos/Inglaterra, 2005). Escrito pelo próprio
Martin a partir de um conto de sua autoria, o filme que estréia nesta sexta-feira
no país não explora seus talentos cada vez mais erráticos
de comediante. É, ao contrário, uma espécie de peça
de câmara sobre os desesperadamente solitários. Aqui esse grupo é
representado pela jovem Mirabelle (Claire Danes), que passa horas olhando para
o nada detrás do balcão de luvas da loja de departamentos Saks;
pelo também jovem, mas desocupado, Jeremy (Jason Schwartzman); e pelo cinqüentão
Ray Porter (Martin), que se reveza entre duas magníficas casas, em Los
Angeles e em Seattle, e entre o desejo e a recusa de estabelecer algum contato
humano real. Mirabelle será o vértice desse triângulo
que, entretanto, não se pode chamar de amoroso. Em A Garota da Vitrine,
os romances não começam porque a paixão ou a afinidade aconteceram.
Antes, começam por causa do vazio daquilo que não
aconteceu na vida dos personagens. Martin, um notório pessimista
e misantropo, dá sua versão do que é um solitário
apaixonado: alguém que trata de achar afinidades com o parceiro que lhe
calhou de atravessar o caminho. É ele ou nada.
Dito dessa forma, A Garota da Vitrine pode parecer acre. Mas é tudo
menos isso. O tailandês Anand Tucker o dirige com objetividade, mas também
delicadeza, como se não quisesse ele próprio ferir os sentimentos
dessas pessoas já tão tristes ou menosprezar a sinceridade dos seus
esforços românticos. O segredo do filme está justamente na
maneira como ele saboreia os momentos em que essa necessidade constrangedora de
companhia dá lugar a uma conexão verdadeira. De onde se passa, por
questão de lógica, às atuações. Jason Schwartzman
(que é sobrinho de Francis Ford Coppola e a cara de Tom Cruise antes do
banho) tem uma certa tendência a se amparar em "muletas" dramáticas.
Mas Claire Danes e Steve Martin entregam desempenhos que, ao mesmo tempo, põem
toda a alma a descoberto e evitam qualquer traço de histrionismo. É
isso, de certa forma, o mais tocante em A Garota da Vitrine: a consideração
com que Ray e Mirabelle tentam dispersar, um para o outro, a impressão
de que estão ali por falta de escolha. |