|
|
Música
Os punks da era do rádio
Pery Ribeiro mostra o lado "sexo & drogas"
da geração de seus pais, Herivelto Martins
e Dalva de Oliveira, ídolos da MPB
 |
| Herivelto e Dalva: traições e brigas homéricas
|
Dos anos 30 aos 50, a Rádio
Nacional foi o equivalente da Rede Globo. A popularidade de seus
cantores e artistas não tinha paralelo. Essa era costuma
ser lembrada com os tons sépia da nostalgia. Fixou-se a imagem
de uma época inocente, de sambas alegres cantados por estrelas
de sorriso radiante. Cantava-se a volta do boêmio, claro
mas era uma boêmia aprumada. Na autobiografia Minhas
Duas Estrelas (Editora Globo; 384 páginas; 42 reais),
o cantor Pery Ribeiro despedaça esse mito áureo. Filho
de um casal de artistas muito populares o compositor Herivelto
Martins (1912-1992) e a cantora Dalva de Oliveira (1917-1972) ,
Pery testemunhou as traições, bebedeiras e brigas
dos dois. Para usar referências dos netos de quem nasceu naquelas
décadas de antanho, Herivelto e Dalva foram o Sid e a Nancy
da era do rádio. Sid Vicious foi o vocalista da banda inglesa
Sex Pistols, e Nancy, sua namorada. O relacionamento entre os dois
era punk.
Herivelto e Dalva se conheceram
em meados dos anos 30. Ele começava a despontar como compositor
e Dalva era cantora de orquestra. Os dois se apaixonaram e Herivelto
a convidou a fazer parte de um grupo ao lado dele e do cantor Nilo
Chagas. Nasceu então o Trio de Ouro, grupo vocal que emplacou
Praça Onze e Ave Maria do Morro, entre outros
sucessos. O problema é que Herivelto era um eterno conquistador.
Trazia namoradas para dentro da casa em que vivia ao lado de Dalva
e dos filhos. Num dos momentos mais dolorosos da autobiografia,
Pery conta que uma das irmãs de Dalva flagrou o compositor
na cama com a também cantora Isaurinha Garcia. As roupas
de Isaurinha foram devidamente jogadas pela janela. Pery
jura que nunca presenciou uma traição da mãe,
mas há quem diga o contrário. "Dalva não era
santa. Também fez das suas", espeta José Messias,
ex-secretário de Herivelto e atualmente jurado do Programa
Raul Gil.
olari
 |
Jean Solari
 |
| Orlando Silva (à esq.) e
Silvio Caldas: o vício em heroína tirou a voz do primeiro; o
segundo usava cocaína "socialmente" |
No uso de drogas e álcool,
a turma da Rádio Nacional também não pegava
leve. Dalva aprendeu a apreciar cachaça com o pai e não
conseguia subir no palco sem tomar um gole de conhaque. Minhas
Duas Estrelas faz um retrato duro dos problemas que os artistas
da época tiveram com as drogas. O caso mais surpreendente
foi o de Orlando Silva (1915-1978), viciado em heroína. Pery
revela que por duas vezes Dalva resgatou o cantor de um banheiro,
desmaiado e com a seringa espetada no braço. Silvio Caldas
(1908-1998) teria levado o amigo Orlando ao vício. Silvio
que era chamado de "vagabundo" por Herivelto cheirava
cocaína "socialmente". Outro que sucumbiu à cocaína
foi Nelson Gonçalves (1919-1998). Sobre este, Pery relata
uma história trágica. Uma das namoradas do cantor
ateou fogo em si mesma depois de ter sido trocada por uma noite
na boêmia. Perto das estrelas da era do rádio, são
os punks que parecem inocentes.
|