Edição 1947 . 15 de março de 2006

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Música
Os punks da era do rádio

Pery Ribeiro mostra o lado "sexo & drogas"
da geração de seus pais, Herivelto Martins
e Dalva de Oliveira, ídolos da MPB


Herivelto e Dalva: traições e brigas homéricas

Dos anos 30 aos 50, a Rádio Nacional foi o equivalente da Rede Globo. A popularidade de seus cantores e artistas não tinha paralelo. Essa era costuma ser lembrada com os tons sépia da nostalgia. Fixou-se a imagem de uma época inocente, de sambas alegres cantados por estrelas de sorriso radiante. Cantava-se a volta do boêmio, claro – mas era uma boêmia aprumada. Na autobiografia Minhas Duas Estrelas (Editora Globo; 384 páginas; 42 reais), o cantor Pery Ribeiro despedaça esse mito áureo. Filho de um casal de artistas muito populares – o compositor Herivelto Martins (1912-1992) e a cantora Dalva de Oliveira (1917-1972) –, Pery testemunhou as traições, bebedeiras e brigas dos dois. Para usar referências dos netos de quem nasceu naquelas décadas de antanho, Herivelto e Dalva foram o Sid e a Nancy da era do rádio. Sid Vicious foi o vocalista da banda inglesa Sex Pistols, e Nancy, sua namorada. O relacionamento entre os dois era punk.

Herivelto e Dalva se conheceram em meados dos anos 30. Ele começava a despontar como compositor e Dalva era cantora de orquestra. Os dois se apaixonaram e Herivelto a convidou a fazer parte de um grupo ao lado dele e do cantor Nilo Chagas. Nasceu então o Trio de Ouro, grupo vocal que emplacou Praça Onze e Ave Maria do Morro, entre outros sucessos. O problema é que Herivelto era um eterno conquistador. Trazia namoradas para dentro da casa em que vivia ao lado de Dalva e dos filhos. Num dos momentos mais dolorosos da autobiografia, Pery conta que uma das irmãs de Dalva flagrou o compositor na cama com a também cantora Isaurinha Garcia. As roupas de Isaurinha foram devidamente jogadas pela janela. Pery jura que nunca presenciou uma traição da mãe, mas há quem diga o contrário. "Dalva não era santa. Também fez das suas", espeta José Messias, ex-secretário de Herivelto e atualmente jurado do Programa Raul Gil.


olari
Jean Solari
Orlando Silva (à esq.) e Silvio Caldas: o vício em heroína tirou a voz do primeiro; o segundo usava cocaína "socialmente"

No uso de drogas e álcool, a turma da Rádio Nacional também não pegava leve. Dalva aprendeu a apreciar cachaça com o pai e não conseguia subir no palco sem tomar um gole de conhaque. Minhas Duas Estrelas faz um retrato duro dos problemas que os artistas da época tiveram com as drogas. O caso mais surpreendente foi o de Orlando Silva (1915-1978), viciado em heroína. Pery revela que por duas vezes Dalva resgatou o cantor de um banheiro, desmaiado e com a seringa espetada no braço. Silvio Caldas (1908-1998) teria levado o amigo Orlando ao vício. Silvio – que era chamado de "vagabundo" por Herivelto – cheirava cocaína "socialmente". Outro que sucumbiu à cocaína foi Nelson Gonçalves (1919-1998). Sobre este, Pery relata uma história trágica. Uma das namoradas do cantor ateou fogo em si mesma depois de ter sido trocada por uma noite na boêmia. Perto das estrelas da era do rádio, são os punks que parecem inocentes.

 
 
 
 
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