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Música
A musa conservadora
Depois de seis anos sem gravar,
Marisa Monte lança dois discos em
que presta reverência à tradição

Sérgio Martins
Oscar Cabral
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| Marisa: um disco dedicado ao samba e outro
a toda a gama da MPB |
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Marisa Monte é uma estrategista ousada e uma artista conservadora.
Essas duas facetas vão ficar em evidência nesta semana,
quando ela lança não um, mas dois álbuns de
uma vez. A idéia de pôr dois discos nas lojas vai contra
todos os hábitos da indústria musical. Se emplacar
um sucesso num mercado desaquecido e assolado pela pirataria já
é difícil, repetir a dose soa mais do que improvável.
Ainda mais porque clones de Marisa Monte não faltam nos dias
de hoje. Mas Marisa tem cacife para arriscar. Seu último
trabalho-solo é de seis anos atrás. Nesse meio-tempo,
ela não ficou parada. Lançou um DVD de ótima
vendagem, emplacou alguns hits do projeto Os Tribalistas, feito
em parceria com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, e ainda tratou
de dar força à sua própria gravadora, a Phonomotor.
Desse modo, ela não só se manteve presente na cabeça
dos fãs como criou expectativa quanto ao seu próximo
passo. E o que ela pretende oferecer ao público agora é
um cardápio variado. Seus dois discos não colidem
daí a aposta de que um não vá ofuscar
o outro. Universo ao Meu Redor homenageia o samba, um de
seus gêneros prediletos. Infinito Particular é
da mesma família de trabalhos anteriores da cantora, como
Memórias, Crônicas e Declarações de
Amor. Ele exibe todos os genes musicais de Marisa e vai da bossa
à seresta. No que ambos coincidem é na total reverência
à tradição. É aí que se manifesta
o conservadorismo da artista mas isso não é
propriamente uma condenação.
O irlandês Edmund Burke
(1729-1797), o pai do conservadorismo, costumava defini-lo como
"uma disposição para preservar e uma habilidade para
melhorar". É isso que Marisa faz, com mais convicção
do que nunca. Ao contrário do que acontece com tantos artistas
jovens, nem lhe passa pela cabeça subverter os gêneros
tradicionais brasileiros com empréstimos da eletrônica.
Marisa não introduz batidas de computador no samba ou na
bossa nova. Ela mantém intactos os ritmos e as cadências,
reservando as surpresas aos arranjos: um instrumento inesperado
aqui, um barulhinho estranho acolá. Nisso ela demonstra seu
empenho em "melhorar", um pouco que seja, a tradição,
em vez de apenas repetir as fórmulas desgastadas método
utilizado por outros artistas novos, dotados de menos imaginação.
Nada revela tão bem a
atração de Marisa pelo passado quanto suas pesquisas
na seara do samba. Universo ao Meu Redor apresenta ao grande
público Casemiro Vieira, da Velha Guarda da Portela. "Um
dia, seu Casemiro me deu um pacote de biscoito e dentro dele havia
uma fita, repleta de canções", conta Marisa. Dali
saiu Perdoa, Meu Amor, um belo samba-canção.
Outro destaque é Meu Canário. A música
foi escrita por Jayme Silva, autor de O Pato, sucesso na
voz de João Gilberto. A cantora soube da existência
da canção por Monarco, outro integrante da Velha Guarda.
"Monarco disse que Jayme Silva tinha talento, apesar de ter sido
compositor de rádio", diz Marisa. "Antigamente, tirar o samba
da quadra para pôr no rádio era sacrilégio."
A cantora também parece achar que essas músicas têm
algo de sagrado.
Sem ter dúvida nenhuma
de que seu negócio é a MPB, Marisa trabalha com os
mais diversos colaboradores sem perder o norte. Universo ao Meu
Redor tem produção de Mario Caldato, brasileiro
radicado nos Estados Unidos que gravou com grandes nomes da música
pop, como Beck e Beastie Boys. Infinito Particular tem canções
arranjadas pelo minimalista americano Philip Glass, pelo pianista
Eumir Deodato ou por João Donato, um dos papas da bossa nova.
Como não poderia deixar de ser, marcam presença nos
dois discos os amigões Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown.
Felizmente, sem cantar.
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