Edição 1947 . 15 de março de 2006

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Música
A musa conservadora

Depois de seis anos sem gravar,
Marisa Monte lança dois discos em
que presta reverência à tradição


Sérgio Martins

Oscar Cabral
Marisa: um disco dedicado ao samba e outro a toda a gama da MPB
NESTA REPORTAGEM
Quadro: Os genes musicais de Marisa Monte e as suas herdeiras


Marisa Monte é uma estrategista ousada e uma artista conservadora. Essas duas facetas vão ficar em evidência nesta semana, quando ela lança não um, mas dois álbuns de uma vez. A idéia de pôr dois discos nas lojas vai contra todos os hábitos da indústria musical. Se emplacar um sucesso num mercado desaquecido e assolado pela pirataria já é difícil, repetir a dose soa mais do que improvável. Ainda mais porque clones de Marisa Monte não faltam nos dias de hoje. Mas Marisa tem cacife para arriscar. Seu último trabalho-solo é de seis anos atrás. Nesse meio-tempo, ela não ficou parada. Lançou um DVD de ótima vendagem, emplacou alguns hits do projeto Os Tribalistas, feito em parceria com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, e ainda tratou de dar força à sua própria gravadora, a Phonomotor. Desse modo, ela não só se manteve presente na cabeça dos fãs como criou expectativa quanto ao seu próximo passo. E o que ela pretende oferecer ao público agora é um cardápio variado. Seus dois discos não colidem – daí a aposta de que um não vá ofuscar o outro. Universo ao Meu Redor homenageia o samba, um de seus gêneros prediletos. Infinito Particular é da mesma família de trabalhos anteriores da cantora, como Memórias, Crônicas e Declarações de Amor. Ele exibe todos os genes musicais de Marisa e vai da bossa à seresta. No que ambos coincidem é na total reverência à tradição. É aí que se manifesta o conservadorismo da artista – mas isso não é propriamente uma condenação.

O irlandês Edmund Burke (1729-1797), o pai do conservadorismo, costumava defini-lo como "uma disposição para preservar e uma habilidade para melhorar". É isso que Marisa faz, com mais convicção do que nunca. Ao contrário do que acontece com tantos artistas jovens, nem lhe passa pela cabeça subverter os gêneros tradicionais brasileiros com empréstimos da eletrônica. Marisa não introduz batidas de computador no samba ou na bossa nova. Ela mantém intactos os ritmos e as cadências, reservando as surpresas aos arranjos: um instrumento inesperado aqui, um barulhinho estranho acolá. Nisso ela demonstra seu empenho em "melhorar", um pouco que seja, a tradição, em vez de apenas repetir as fórmulas desgastadas – método utilizado por outros artistas novos, dotados de menos imaginação.

Nada revela tão bem a atração de Marisa pelo passado quanto suas pesquisas na seara do samba. Universo ao Meu Redor apresenta ao grande público Casemiro Vieira, da Velha Guarda da Portela. "Um dia, seu Casemiro me deu um pacote de biscoito e dentro dele havia uma fita, repleta de canções", conta Marisa. Dali saiu Perdoa, Meu Amor, um belo samba-canção. Outro destaque é Meu Canário. A música foi escrita por Jayme Silva, autor de O Pato, sucesso na voz de João Gilberto. A cantora soube da existência da canção por Monarco, outro integrante da Velha Guarda. "Monarco disse que Jayme Silva tinha talento, apesar de ter sido compositor de rádio", diz Marisa. "Antigamente, tirar o samba da quadra para pôr no rádio era sacrilégio." A cantora também parece achar que essas músicas têm algo de sagrado.

Sem ter dúvida nenhuma de que seu negócio é a MPB, Marisa trabalha com os mais diversos colaboradores sem perder o norte. Universo ao Meu Redor tem produção de Mario Caldato, brasileiro radicado nos Estados Unidos que gravou com grandes nomes da música pop, como Beck e Beastie Boys. Infinito Particular tem canções arranjadas pelo minimalista americano Philip Glass, pelo pianista Eumir Deodato ou por João Donato, um dos papas da bossa nova. Como não poderia deixar de ser, marcam presença nos dois discos os amigões Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown. Felizmente, sem cantar.

 
 
 
 
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