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Televisão Séries
que são locomotivas Um trio de campeãs
ensina que não basta agradar: é preciso tocar um nervo do
público  Isabela
Boscov
Quando o produtor e roteirista J.J. Abrams apresentou
sua primeira proposta para Lost, o maior enigma não era o que aqueles
quarenta e poucos sobreviventes de um desastre aéreo estavam fazendo numa
ilha bizarra em algum lugar dos trópicos. O mistério era se uma
série baseada no suspense, que depende da fidelidade do espectador, poderia
ela própria sobreviver no mundo darwiniano do horário nobre. A questão
está solucionada: Lost acumula 20 milhões de espectadores
nos Estados Unidos e, no Brasil, confirmou-se como o carro-chefe indisputável
do canal AXN com a estréia de sua segunda temporada, na semana passada.
À semelhança de Lost, as outras duas séries mais vistas
do momento tiveram início nada auspicioso. Fazia dois anos que Marc Cherry,
criador de Desperate Housewives, não conseguia sequer uma entrevista
de trabalho quando finalmente emplacou seu projeto hoje um arrasa-quarteirão
de 26 milhões de espectadores. E, seis anos atrás, a sinopse de
C.S.I. era motivo de riso. Autópsias? Testes de DNA? Nerds de laboratório?
Quem pararia para ver um negócio desses?, era o que se perguntava. Resposta:
30 milhões de pessoas, a maior média de uma série roteirizada
em toda a televisão americana atual. Uma média, aliás, que
sobe a cada temporada (o que vale também no Brasil, para C.S.I.
e para Desperate Housewives, ambas exibidas pelo canal Sony). Mas o sucesso
é o mínimo que esses programas têm em comum: o que faz deles
verdadeiras locomotivas é a força com que respondem à cultura
popular e a moldam. Por causa de séries
como essas três, o panorama atual da televisão americana é
um dos mais criativos em muito tempo e também um dos mais atordoantes.
Apenas três anos atrás, as regras do jogo pareciam simples: as comédias
e a franquia Law & Order davam as cartas a longo prazo, e no curto
prazo dominavam os reality shows (dos quais só American Idol se
mantém imbatível). Hoje, a marca Law & Order vem sofrendo
um declínio cujas causas desafiam os especialistas. Desde Friends
uma comédia não vira mania. Os reality shows minguaram e
os novos donos do pedaço não oferecem uma lição simples
que seus concorrentes possam imitar, como é praxe no meio. Criações
sólidas, como 24 Horas e House (que ficam no nicho confortável
dos 14 milhões de espectadores), ou meteóricas, como Grey's Anatomy,
que disparou para a casa dos 24 milhões de fregueses, são do interesse
de qualquer emissora. Mas o que todas cobiçam é uma combinação
dessas duas qualidades: programas que subam rápido para o topo, e permaneçam
lá como Lost, Desperate Housewives e C.S.I.
Para atingir esse efeito, não basta agradar. É preciso tocar um
nervo do público. "Desperate housewife", por exemplo, já virou expressão
corrente do vocabulário. Em duas palavras, ela exprime um sem-número
de aflições profissão versus família, casamento
versus sexo, aventura versus estabilidade que atormentam não apenas
as suburbanas ricas do título, mas potencialmente qualquer mulher (e refletem
com razoável precisão a idéia que os homens fazem dos queixumes
femininos). Lost manipula a aptidão da imaginação
humana para teorias conspiratórias segundo as muitas que estão
em curso, numa febre que não se via desde os primeiros tempos de Arquivo
X, seus protagonistas podem estar no purgatório, fazem parte de um
experimento do governo ou foram parar numa dimensão paralela. C.S.I.
reconcilia os espectadores com sua morbidez latente e não seria
exagero dizer que teve um papel fundamental em familiarizar o público com
certos aspectos da ciência. Tanto que membros da polícia americana
já reclamaram que seu trabalho anda mais difícil agora, quando qualquer
meliante sabe como não deixar vestígios de sua presença no
local do crime. Vai aí, então, uma fórmula: para bolar um
sucesso, basta que se reúnam conhecimento da condição humana
e perícia dramática. Como se vê, não existe nada de
novo na novidade.
Divulgação
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LOST
PICO DE AUDIÊNCIA 20 milhões
de espectadores COMO FISGOU O PÚBLICO A
cada mistério que se resolve na história de um grupo isolado numa
estranha ilha, outros tantos surgem para enredar o espectador
SINAIS DO IMPACTO Entre todos os programas da TV
americana, é o campeão em sites dedicados a criar e deslindar teorias
em torno de seu enredo DESPERATE HOUSEWIVES
PICO DE AUDIÊNCIA 26 milhões de
espectadores COMO FISGOU O PÚBLICO Centrada
nas mulheres bem de vida de um subúrbio, combina elementos consagrados:
o novelão, o humor das sitcoms e a ironia de filmes como Beleza Americana
SINAIS DO IMPACTO No ano passado, a primeira-dama
Laura Bush causou furor ao se declarar uma dona-de-casa desesperada, cujo maridão
ferra no sono às 9 da noite C.S.I.
PICO DE AUDIÊNCIA 30 milhões de
espectadores COMO FISGOU O PÚBLICO Mostrando
em todos os detalhes mórbidos (e repulsivos) a rotina de cientistas que
analisam provas de crimes em Las Vegas SINAIS
DO IMPACTO Policiais americanos já se queixaram de que a série
anda ensinando demais aos criminosos como burlar seus métodos de investigação
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