Edição 1947 . 15 de março de 2006

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Televisão
Séries que são locomotivas

Um trio de campeãs ensina que
não basta agradar: é preciso
tocar um nervo do público


Isabela Boscov

Quando o produtor e roteirista J.J. Abrams apresentou sua primeira proposta para Lost, o maior enigma não era o que aqueles quarenta e poucos sobreviventes de um desastre aéreo estavam fazendo numa ilha bizarra em algum lugar dos trópicos. O mistério era se uma série baseada no suspense, que depende da fidelidade do espectador, poderia ela própria sobreviver no mundo darwiniano do horário nobre. A questão está solucionada: Lost acumula 20 milhões de espectadores nos Estados Unidos e, no Brasil, confirmou-se como o carro-chefe indisputável do canal AXN com a estréia de sua segunda temporada, na semana passada. À semelhança de Lost, as outras duas séries mais vistas do momento tiveram início nada auspicioso. Fazia dois anos que Marc Cherry, criador de Desperate Housewives, não conseguia sequer uma entrevista de trabalho quando finalmente emplacou seu projeto – hoje um arrasa-quarteirão de 26 milhões de espectadores. E, seis anos atrás, a sinopse de C.S.I. era motivo de riso. Autópsias? Testes de DNA? Nerds de laboratório? Quem pararia para ver um negócio desses?, era o que se perguntava. Resposta: 30 milhões de pessoas, a maior média de uma série roteirizada em toda a televisão americana atual. Uma média, aliás, que sobe a cada temporada (o que vale também no Brasil, para C.S.I. e para Desperate Housewives, ambas exibidas pelo canal Sony). Mas o sucesso é o mínimo que esses programas têm em comum: o que faz deles verdadeiras locomotivas é a força com que respondem à cultura popular e a moldam.

Por causa de séries como essas três, o panorama atual da televisão americana é um dos mais criativos em muito tempo – e também um dos mais atordoantes. Apenas três anos atrás, as regras do jogo pareciam simples: as comédias e a franquia Law & Order davam as cartas a longo prazo, e no curto prazo dominavam os reality shows (dos quais só American Idol se mantém imbatível). Hoje, a marca Law & Order vem sofrendo um declínio cujas causas desafiam os especialistas. Desde Friends uma comédia não vira mania. Os reality shows minguaram – e os novos donos do pedaço não oferecem uma lição simples que seus concorrentes possam imitar, como é praxe no meio. Criações sólidas, como 24 Horas e House (que ficam no nicho confortável dos 14 milhões de espectadores), ou meteóricas, como Grey's Anatomy, que disparou para a casa dos 24 milhões de fregueses, são do interesse de qualquer emissora. Mas o que todas cobiçam é uma combinação dessas duas qualidades: programas que subam rápido para o topo, e permaneçam lá – como Lost, Desperate Housewives e C.S.I.

Para atingir esse efeito, não basta agradar. É preciso tocar um nervo do público. "Desperate housewife", por exemplo, já virou expressão corrente do vocabulário. Em duas palavras, ela exprime um sem-número de aflições – profissão versus família, casamento versus sexo, aventura versus estabilidade – que atormentam não apenas as suburbanas ricas do título, mas potencialmente qualquer mulher (e refletem com razoável precisão a idéia que os homens fazem dos queixumes femininos). Lost manipula a aptidão da imaginação humana para teorias conspiratórias – segundo as muitas que estão em curso, numa febre que não se via desde os primeiros tempos de Arquivo X, seus protagonistas podem estar no purgatório, fazem parte de um experimento do governo ou foram parar numa dimensão paralela. C.S.I. reconcilia os espectadores com sua morbidez latente – e não seria exagero dizer que teve um papel fundamental em familiarizar o público com certos aspectos da ciência. Tanto que membros da polícia americana já reclamaram que seu trabalho anda mais difícil agora, quando qualquer meliante sabe como não deixar vestígios de sua presença no local do crime. Vai aí, então, uma fórmula: para bolar um sucesso, basta que se reúnam conhecimento da condição humana e perícia dramática. Como se vê, não existe nada de novo na novidade.

 
Divulgação

LOST

PICO DE AUDIÊNCIA
20 milhões de espectadores  

COMO FISGOU O PÚBLICO
A cada mistério que se resolve na história de um grupo isolado numa estranha ilha, outros tantos surgem para enredar o espectador  

SINAIS DO IMPACTO
Entre todos os programas da TV americana, é o campeão em sites dedicados a criar e deslindar teorias em torno de seu enredo

 

DESPERATE HOUSEWIVES

PICO DE AUDIÊNCIA
26 milhões de espectadores  

COMO FISGOU O PÚBLICO
Centrada nas mulheres bem de vida de um subúrbio, combina elementos consagrados: o novelão, o humor das sitcoms e a ironia de filmes como Beleza Americana

SINAIS DO IMPACTO
No ano passado, a primeira-dama Laura Bush causou furor ao se declarar uma dona-de-casa desesperada, cujo maridão ferra no sono às
9 da noite

 

C.S.I.

PICO DE AUDIÊNCIA
30 milhões de espectadores  

COMO FISGOU O PÚBLICO
Mostrando em todos os detalhes mórbidos (e repulsivos) a rotina de cientistas que analisam provas de crimes em Las Vegas

SINAIS DO IMPACTO
Policiais americanos já se queixaram de que a série anda ensinando demais aos criminosos como burlar seus métodos de investigação

 
 
 
 
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