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Divertimento
O mercador persa
Uma apresentadora invisível, uma mão
cheia de anéis, uma câmera eis a
fórmula do sucesso do iraniano Jafari

Sandra Brasil
Fotos Joel Rocha
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Todo
mundo que percorre os canais da televisão de madrugada já
passou pela experiência: um programa que vende jóias
ao vivo, sem cenário, com a câmera focada na bandeja
de peças variadas ou em partes específicas do corpo
em geral as mãos de uma modelo de resto invisível.
Para quem não se interessa pelo tema, o Medalhão
Persa, pioneiro na venda de jóias pela televisão
(agora já tem dois concorrentes, cópias comandadas
por um ex-sócio e um ex-funcionário), pode ter efeito
soporífero. Para aficionados, é o melhor da madrugada.
Uma pequena mas fiel parcela do público vai além:
são os viciados em compras no Medalhão. No
comando da operação está o iraniano Masoud
Jafari, 49 anos, que começou a desbravar o filão televisivo
em 1995, com leilões de tapetes (persas, evidentemente),
e hoje declara faturamento de 1 milhão de reais por mês.
"Em 1999, por acaso, aproveitei o programa para mostrar no vídeo
uma jóia que havia comprado para presentear a mulher de um
cliente de tapetes. Os telefones começaram a tocar na mesma
hora", conta Jafari em bom português, apesar do sotaque. Com
evidente tino comercial, ele passou a importar coleções
de peças de ouro e pedras preciosas, principalmente da Arábia
Saudita e Turquia. Com típico estilo elaborado e chamativo,
elas são até hoje estrelas do programa, embora o grosso
do faturamento venha das jóias montadas aqui mesmo, com as
chamadas pedras brasileiras, mais em conta. Os tapetes originais
foram minguando e agora são só um bloco do programa,
respondendo por 10% das vendas. Jafari, que saiu do Irã depois
da revolução do aiatolá Khomeini, continua
a ser representante oficial no Brasil da Sherkat Farsh Iran, empresa
estatal que assumiu a exportação dos tradicionais
tapetes.
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| Jafari: dos tapetes às jóias
que a modelo Adriana e a apresentadora Cibele vendem no Medalhão
Persa |
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A sede do Medalhão Persa
TV fica em Curitiba, onde três estúdios de televisão,
permanentemente movimentados, se distribuem por 1.500 metros quadrados.
Com 160 funcionários, cobre todas as áreas: desde
as equipes de produção do programa até uma
oficina própria, com dezessete ourives. O contato direto
e intenso com as consumidoras mostra claramente o que a brasileira
quer: acima de tudo, o tradicional solitário de diamante
no mínimo 1.000 reais, ou 200 reais cada uma das cinco
parcelas em que todo produto é vendido. Ou qualquer outra
coisa que brilhe bastante. As dezessete telefonistas do Medalhão
recebem em média 3.000 ligações por dia em
seis horas e meia de programa (três e meia à tarde,
três na madrugada) e vendem 6.000 produtos por mês.
"O mais difícil é ficar com a mão parada. Qualquer
movimento fica brusco no vídeo", diz Adriana Lopes, 23 anos,
uma das três modelos das quais só aparecem pedaços.
Grávida de seis meses do segundo filho, Cibele Esmanhotto,
33 anos, é uma das quatro apresentadoras, igualmente invisíveis,
embora de voz reconhecida por qualquer aficionado. "Fiz um treinamento
com especialistas em pedras e técnicas de lapidação",
conta Cibele, que leva para o trabalho uma pasta com "colas" e fala
de improviso, sem parar, durante maratônicas três horas.
A cliente típica do programa mora no Sudeste, tem entre 40
e 60 anos, é fiel e trata as telefonistas como se fossem
da família. Estas, simpaticíssimas, reforçam
o vínculo: chegam a recomendar a quem tem excesso de prestações
aguardar um pouco antes de fazer nova compra, um esforço
que traz o benefício adicional de conter a taxa de inadimplência,
na casa dos 15%.
Antes de se estabelecer no Brasil,
Jafari vendeu tapetes persas na Itália, Japão, México
e Estados Unidos. Tem duas lojas em Palo Alto, na Califórnia,
onde mora com a americana Daine e dois filhos adolescentes. Mas
passa mais tempo fora do que em casa: em geral, uns vinte dias em
Curitiba. Como todo comerciante, Jafari reclama do excesso de impostos,
mas está muito satisfeito com seus negócios aqui
tanto que se prepara para trocar sua segunda cidadania, hoje americana,
pela brasileira. Não mudou de planos nem depois da operação
de busca e apreensão nos seus escritórios realizada
em setembro do ano passado pela Receita Estadual e pelo Ministério
Público do Paraná, que resultou até agora em
dois autos de infração por sonegação
de impostos. O Medalhão recorreu, e o caso tramita no Fisco.
O método de compras pela
televisão sacudiu o mercado de jóias. "A compra é
feita sem sair de casa, de pijama e chinelo. Além disso,
por telefone ninguém enfrenta o olhar superior da vendedora",
diz a arquiteta Regina Machado, consultora de estilo do Instituto
Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos (IBGM). A professora aposentada
Maria Perina Penov, 65 anos, de São Paulo, é uma fã
arrebatada: assiste aos programas da tarde e da madrugada diariamente.
"Comecei quando eles vendiam só tapetes persas. Comprei dezoito,
dos pequenos, que uso como centro de mesa", enumera. "Agora compro
jóias, mas nada muito caro. De pedras brasileiras, tenho
quinze pingentes, seis pares de brinco e sete anéis. Também
tenho dois anéis da linha oriental mais cara." Ela paga mensalmente,
em média, quatro prestações, com valores entre
39 e 75 reais, mais 150 reais de ligações interurbanas.
"As telefonistas são minhas amigas, e o Medalhão
é a minha maior distração", diz. As jóias
do Medalhão raramente têm parcela superior a
1.000 reais. Mais que isso, só a pedidos. Em 2004, um empresário
do interior do Rio de Janeiro (sim, homens também assistem)
ligou atrás de "um brinco especial". Foi mostrado no vídeo
um par de esmeraldas e brilhantes, de 420.000 reais, recorde do
programa. Ven-di-do.
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