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Moda Desaquecimento
global Os novos ventos que sopram das passarelas
indicam um inverno mais sóbrio e bastante conservador
Nas vitrines do mundo inteiro, uma
invasão de rendas, babados e jabôs projeta uma mulher de feminilidade
quase vitoriana. Na passarela estelar do Oscar, as mais belas criaturas do planeta
desfilaram na semana passada em modelos de cores luminosas. Mas o mundo da moda
já mandou avisar: podem ir pensando em guardar as roupinhas frívolas,
juvenis ou coloridas que há algumas estações, seja inverno,
seja verão, no Hemisfério Norte ou no Sul, dominam o panorama. Pelo
que se viu nos últimos desfiles internacionais, em especial nos de Paris,
que ainda dão o tom geral do planeta moda, esse tom está mudando.
O frio será maduro, senhoril, sóbrio. Quando a austeridade não
cria uma silhueta monacal, a alternativa é um estilo madame que parece
reconstituído de várias décadas atrás. "A previsão
para a nova temporada de moda é tão sombria quanto infalível:
será um longo e escuro inverno", resumiu Suzy Menkes, crítica de
moda do jornal Herald Tribune cuja palavra faz estremecer as passarelas.
"Esqueça os babados tão femininos, as celebridades com o corpo à
mostra no tapete vermelho. A roupa das novas coleções pode ser de
qualquer cor, desde que seja preta", brinca.
Outros críticos viram na nova onda de austeridade um reflexo direto do
momento de mal-estar nos acontecimentos internacionais e até do choque
representado pelo quebra-quebra nos cinturões de excluídos dos subúrbios
franceses, uma rebelião sem idéias nem glamour, quase como que um
antimaio de 68. Há algo de exagero nessa idéia. A moda evidentemente
reflete o espírito do tempo, mas as conexões não são
automáticas. A nova onda de austeridade e até de conservadorismo
provavelmente está mais relacionada à necessidade de consolidar
posições num mercado que se recupera depois de forte retração.
A criatividade e a maestria dos grandes nomes da moda também garantem que,
mesmo em momentos conservadores ou nostálgicos, há espaço
para arroubos de beleza e modernidade a contradição faz parte
do negócio. O exemplo mais brilhante disso foi o desfile do estilista Nicolas
Ghesquière para a grife criada pelo espanhol Cristóbal Balenciaga,
uma relíquia semi-abandonada que agora está sendo recuperada. O
francês de nome complicado (pronúncia aproximada: Jesquiér),
considerado um dos maiores talentos do momento, praticamente ressuscitou as coleções
mais conhecidas de Balenciaga, com todos os signos dos anos 60: silhueta futurista,
modelos estruturados, botas plataforma e até o chapéu de aeromoça.
Conciliar modernidade com as roupas
senhoris que reapareceram em grande escala também foi um exercício
enfrentado brilhantemente por outro dos mais bem-sucedidos estilistas da nova
geração, o americano Marc Jacobs, que desfila nos Estados Unidos
as grifes com seu nome e, em Paris, assina as coleções Louis Vuitton.
O inglês Alexander McQueen, arrebatador até na sobriedade, criou
imagens do que chamou de "viúvas de guerra" (aliás, guerra, terrorismo
e islamismo em sua versão ultracoberta apareceram com freqüência
nas sempre convolutas explicações de muitos estilistas para suas
fontes de inspiração). Resumindo a estação, a italiana
Miuccia Prada, sempre a primeira a dar meia-volta nas tendências da moda,
decretou: "Estou cansada de ser meiga. Nós, mulheres, temos de voltar a
mostrar força". |