Edição 1947 . 15 de março de 2006

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Moda
Desaquecimento global

Os novos ventos que sopram das
passarelas indicam um inverno
mais sóbrio e bastante conservador


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Nas vitrines do mundo inteiro, uma invasão de rendas, babados e jabôs projeta uma mulher de feminilidade quase vitoriana. Na passarela estelar do Oscar, as mais belas criaturas do planeta desfilaram na semana passada em modelos de cores luminosas. Mas o mundo da moda já mandou avisar: podem ir pensando em guardar as roupinhas frívolas, juvenis ou coloridas que há algumas estações, seja inverno, seja verão, no Hemisfério Norte ou no Sul, dominam o panorama. Pelo que se viu nos últimos desfiles internacionais, em especial nos de Paris, que ainda dão o tom geral do planeta moda, esse tom está mudando. O frio será maduro, senhoril, sóbrio. Quando a austeridade não cria uma silhueta monacal, a alternativa é um estilo madame que parece reconstituído de várias décadas atrás. "A previsão para a nova temporada de moda é tão sombria quanto infalível: será um longo e escuro inverno", resumiu Suzy Menkes, crítica de moda do jornal Herald Tribune cuja palavra faz estremecer as passarelas. "Esqueça os babados tão femininos, as celebridades com o corpo à mostra no tapete vermelho. A roupa das novas coleções pode ser de qualquer cor, desde que seja preta", brinca.

Outros críticos viram na nova onda de austeridade um reflexo direto do momento de mal-estar nos acontecimentos internacionais e até do choque representado pelo quebra-quebra nos cinturões de excluídos dos subúrbios franceses, uma rebelião sem idéias nem glamour, quase como que um antimaio de 68. Há algo de exagero nessa idéia. A moda evidentemente reflete o espírito do tempo, mas as conexões não são automáticas. A nova onda de austeridade e até de conservadorismo provavelmente está mais relacionada à necessidade de consolidar posições num mercado que se recupera depois de forte retração. A criatividade e a maestria dos grandes nomes da moda também garantem que, mesmo em momentos conservadores ou nostálgicos, há espaço para arroubos de beleza e modernidade – a contradição faz parte do negócio. O exemplo mais brilhante disso foi o desfile do estilista Nicolas Ghesquière para a grife criada pelo espanhol Cristóbal Balenciaga, uma relíquia semi-abandonada que agora está sendo recuperada. O francês de nome complicado (pronúncia aproximada: Jesquiér), considerado um dos maiores talentos do momento, praticamente ressuscitou as coleções mais conhecidas de Balenciaga, com todos os signos dos anos 60: silhueta futurista, modelos estruturados, botas plataforma e até o chapéu de aeromoça.

Conciliar modernidade com as roupas senhoris que reapareceram em grande escala também foi um exercício enfrentado brilhantemente por outro dos mais bem-sucedidos estilistas da nova geração, o americano Marc Jacobs, que desfila nos Estados Unidos as grifes com seu nome e, em Paris, assina as coleções Louis Vuitton. O inglês Alexander McQueen, arrebatador até na sobriedade, criou imagens do que chamou de "viúvas de guerra" (aliás, guerra, terrorismo e islamismo em sua versão ultracoberta apareceram com freqüência nas sempre convolutas explicações de muitos estilistas para suas fontes de inspiração). Resumindo a estação, a italiana Miuccia Prada, sempre a primeira a dar meia-volta nas tendências da moda, decretou: "Estou cansada de ser meiga. Nós, mulheres, temos de voltar a mostrar força".

 
 
 
 
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