Edição 1947 . 15 de março de 2006

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Copa
Preço de pop star

Exibição da seleção brasileira
tem preço: 1,5 milhão de dólares


André Fontenelle


Montagem sobre fotos de Robson Fernandes/AE,
Terry O'Neill/Getty Images
A cabeça de Ronaldo no corpo de Elton John: jogadores têm tratamento de astros do rock

Organizar um jogo da seleção brasileira é tão caro quanto realizar um concerto de uma estrela do rock. Para apresentar-se por noventa minutos no último dia 1º, sob o frio moscovita de 10 graus negativos, o time do Brasil que estará na Copa da Alemanha cobrou 1,5 milhão de dólares (3,3 milhões de reais), segundo a federação russa de futebol. Para cantarem por duas horas na Praia de Copacabana, os Rolling Stones receberam, especula-se, 2 milhões de dólares. Cada um dos dois shows do U2 em São Paulo também teve preço semelhante. Os valores do futebol têm ainda uma vantagem. "Uma seleção não carrega 400 toneladas de equipamento, como o U2, e se apresenta em palcos que já estão prontos", compara o empresário Alexandre Accioly, que trouxe o conjunto irlandês ao Brasil. Há outras semelhanças, porém, como o tratamento de pop star que os jogadores recebem. Sempre ficam hospedados em hotéis de primeira categoria e sofrem constante assédio de tietes.

A Ásia é o eldorado do comércio do futebol. No ano passado, o Manchester United, da Inglaterra, recebeu 5 milhões de dólares por quatro jogos no continente. O Real Madrid, da Espanha, excursiona todo ano por lá, como parte de um contrato de 50 milhões de dólares com duração de quatro anos. O mercado asiático tem 2 bilhões de fãs potenciais do esporte cada vez mais endinheirados. O Manchester conta com 23 milhões de torcedores na China – mais que o dobro do que tem na Inglaterra. A Confederação Brasileira de Futebol também olha para a Ásia, mas esbarra em um problema. Os clubes europeus, nos quais jogam os titulares do Brasil, não gostam de ver seus craques embarcar em longas viagens sem ganhar nada em troca. Obtiveram da Fifa a dispensa de ceder craques para jogos amistosos a mais de seis horas de avião da Europa. Isso cria dificuldades para a CBF levar seu melhor time à Ásia e disputar esse mercado com o Manchester e o Real Madrid.

Goh Chai Hin/AFP
Cartaz promove o Real Madrid na Ásia: um mercado bilionário


O preço de um jogo da seleção varia conforme o freguês. A CBF não divulga números, mas geralmente a federação anfitriã revela quanto pagou. Sabe-se, por exemplo, que o jogo na região espanhola da Catalunha, contra um combinado local, em 2004, rendeu 1,4 milhão de dólares. Um ano antes, a seleção se apresentou na Nigéria por 250.000 dólares. Quem se dispõe a pagar geralmente recupera o investimento com venda de ingressos, patrocínio e transmissão de TV. Os catalães, por exemplo, arrecadaram quase o dobro do que gastaram para contratar o Brasil. Uma vez por ano, a cota do jogo vai para a AmBev, uma das patrocinadoras da seleção. Foi o caso do jogo do dia 1º em Moscou. A CBF garante que isso não é uma interferência indevida na programação da seleção – os amistosos que a empresa negocia são submetidos à aprovação do técnico Carlos Alberto Parreira. A AmBev afirma que recebeu apenas 500 000 reais pela partida, e não o 1,5 milhão de dólares divulgado pelos russos. Atribui a discrepância a outros custos embutidos na organização do jogo.

Desde o pentacampeonato, a seleção valorizou-se muito. Em 1989, Ricardo Teixeira levou o time para jogar com a equipe do Milan, da Itália, por 150.000 dólares. Era uma época de vacas magras porque desde 1970 a equipe não vencia uma Copa. Hoje a entidade nada em dinheiro, com 100 milhões de reais de receita anual, e pode ser mais seletiva. Deu-se até ao luxo, no ano passado, de recusar uma proposta de 2,5 milhões de dólares para enfrentar o Chelsea, da Inglaterra, time do bilionário russo Roman Abramovich. É sempre uma temeridade expor os pentacampeões a uma eventual derrota contra um clube, um risco mais do que mediano quando o adversário é o time mais caro do mundo.

Estrelas do espetáculo, os jogadores também faturam alto com as turnês, mas não diretamente. Pelas partidas, recebem bolsas em torno de 6.000 dólares por cabeça, entre diárias, "bicho" por vitórias e outros prêmios previstos em contrato. O lucro real advém de vestir a camisa da seleção, valorizando o atleta em negociações futuras, e dos contratos de publicidade, que também aumentam conforme a exposição do jogador. No passado, a situação era bem diferente. Os times brasileiros eram obrigados a viajar pelo mundo para conseguir pagar o salário dos craques. Foi assim com o Santos de Pelé, na década de 60. Na época, o clube recebia 150.000 dólares (em valores atualizados) por uma exibição no exterior. Sem Pelé, o cachê era reduzido em um terço. O próprio Pelé ficava com 10.000 dólares dessa cota, também em valores de hoje.

 
 
 
 
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