|
|
Aviação
Prisioneiros do ar
Overbooking e vôos
cancelados infernizam e
humilham os passageiros

Rosana Zakabi e José Eduardo Barella
Fabiano Accorsi
 |
SEM LUXO E SEM BANHEIRO
"Reservei
duas vagas na primeira classe do vôo da Varig de Miami
a São Paulo, na semana passada. Devido ao overbooking,
fui colocado na classe executiva e o vôo atrasou oito
horas. Na classe executiva só tinha um banheiro para
quarenta passageiros. E estava entupido."
Agostinho Gaspar, paulista, relações-públicas
|
O overbooking, o atraso e o cancelamento de
vôos estão transformando as viagens aéreas dos
brasileiros em um inferno. As expressões mais repetidas pelos
passageiros que passam por essas situações são
"humilhação", "desamparo" e "revolta". Não
são sentimentos exagerados para alguém que, mesmo
tendo comprado a passagem com antecedência e reservado o assento,
é impedido de embarcar no avião e obrigado a esperar
horas, às vezes dias, porque o lugar foi vendido a outra
pessoa ou porque a companhia cancelou o vôo. Esses constrangimentos
podem acontecer com os passageiros da maioria das empresas aéreas
do mundo principalmente pela venda de passagens em excesso.
No Brasil, a situação é agravada pela alta
taxa de cancelamento de vôos. O overbooking, a prática
de aceitar mais reservas do que a capacidade do avião, existe
há décadas. Com base na estatística de que
20% dos passageiros, em média, não comparecem ao check-in
a tempo de voar, as empresas vendem por volta de dez passagens a
mais para cada 100 lugares no avião. O sistema funcionou
em épocas mais tranqüilas. Tornou-se abusivo a partir
dos anos 90, quando os aviões se transformaram em transporte
de massa. "No Brasil, nos últimos anos, houve aumento no
número de passageiros, mas as empresas não revisaram
suas estatísticas", diz Alberto Carmo Frazatto, presidente
da Comissão de Defesa do Consumidor da OAB paulista. O problema
é agravado em feriados e outras datas em que o movimento
nos aeroportos é maior.
Roberto Setton
 |
VIAGEM INTERMINÁVEL
"O avião da Varig em que
eu deveria embarcar de Milão a São Paulo, no dia
7, atrasou e fomos remanejados para um vôo da Air France.
A viagem foi um caos, com atrasos em todas as escalas, e acabei
perdendo a conexão para Manaus. Para completar, deixaram
minha mala no Rio de Janeiro."
Massimiliana DeLuca,
italiana, consultora em turismo
|
Ao pesadelo do overbooking se junta, no Brasil, o alto índice
de vôos cancelados 11%, em média, enquanto o
padrão internacional é de 5%. No momento, o que puxa
a estatística para cima é a crise financeira da Varig.
Afundada em dívidas de 10 bilhões de reais, a empresa
reduziu à metade o número de aviões em operação
e não tem dinheiro para fazer a manutenção
rápida das aeronaves. "Nenhuma companhia aérea possui
100% das peças em estoque, mas na Varig a situação
é pior", diz Uébio José da Silva, presidente
do Sindicato dos Aeroviários do Estado de São Paulo.
O resultado é que a Varig acaba cancelando a viagem. A companhia
nega, mas entre seu próprio quadro de pilotos há quem
fale também de "vôos-fantasma": vendidos normalmente,
eles seriam, na verdade, inexistentes. Na hora do embarque, a empresa
finge que o vôo foi cancelado por motivos técnicos
e os passageiros são transferidos para outros horários,
eliminando, dessa forma, os vôos com assentos vazios.
A TAM, durante a crise financeira
que enfrentou entre 2001 e 2003, também registrou altos índices
de cancelamento de vôos. Para contornar a situação,
16% dos funcionários foram demitidos, rotas deficitárias
abolidas e o serviço de bordo simplificado. As companhias
não costumam divulgar, mas elas devem ressarcir os passageiros
afetados por cancelamento de vôo. Os direitos são os
mesmos de quem fica de fora de um avião por overbooking:
se não consegue acomodar o cliente em um novo vôo em
até quatro horas, a empresa aérea tem de pagar refeições,
telefonemas, transporte e acomodação em hotel. Não
adianta esperar que o benefício seja oferecido espontaneamente.
Em geral, só recebe quem briga por ele no balcão da
companhia.
|