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Especial Retrato
da violência Pesquisa mostra que
a palmada não educa e que as crianças que apanham tendem
a ser mais agressivas  Monica
Weinberg
Uma pesquisa nacional conduzida pelo
Laboratório de Estudos da Criança (Lacri), da Universidade de São
Paulo, dimensionou pela primeira vez um velho problema brasileiro: o da violência
praticada contra crianças no ambiente doméstico. Segundo o estudo,
60% dos brasileiros afirmam ter sido vítimas de castigos físicos
na infância de punições leves a surras que levaram
a seqüelas físicas graves. São dois os argumentos mais usados
pelos pais brasileiros para justificar o hábito de bater nos filhos. O
primeiro é que a punição física "tem função
educativa". O segundo é que ela é uma forma de castigo "merecida"
em situações nas quais a criança ultrapassa os limites estipulados
em casa. Outra constatação do estudo é que esse fenômeno
não está associado à pobreza, ao contrário do que
se costuma afirmar ele está presente em todas as classes sociais.
Casos de surras que ocorrem em famílias pobres aparecem com mais freqüência
nas estatísticas das delegacias especializadas por uma razão simples:
nos lares de classe média, eles são mais acobertados. "O brasileiro
está longe de ser cordial", diz a coordenadora do Lacri, Maria Amélia
Azevedo, há três décadas dedicada à pesquisa sobre
violência contra crianças. "Ele é condescendente com a brutalidade
física."
60% dos
brasileiros afirmam ter sido vítimas de castigos físicos na infância
de punições leves a surras que levaram a seqüelas físicas
graves | | Com
base na observação de centenas de casos, Maria Amélia reuniu
dados para condenar a punição física na infância
inclusive a palmada. Ao comparar o comportamento de crianças que sofrem
castigos corporais (mesmo leves) com o daquelas que afirmam nunca ter levado uma
surra em casa, a professora observou uma clara tendência: as que não
apanham são menos agressivas e mais propensas a resolver conflitos por
meio do diálogo. Outro ponto levantado por ela é que a palmada é
ineficiente como método para ensinar a criança a não repetir
o erro pelo qual está sendo punida. Sua experiência mostra que a
forma mais eficaz de lidar com situações de extrema indisciplina
é aplicar um castigo. "O essencial é que o castigo seja proporcional
à falha da criança e ocorra no momento da desobediência, para
que não perca seu efeito educativo", diz a professora.
Os especialistas chegaram a algumas conclusões sobre as razões que
colocam o Brasil entre os países onde o nível de violência
contra crianças é considerado grave. Um dos fatores que explicam
a explosão desse tipo de violência vale para outros países
da América Latina: são sociedades predominantemente patriarcais,
nas quais mulheres e crianças ainda ocupam papel inferior no núcleo
familiar e por isso estão mais sujeitas a sofrer castigos físicos.
Os estudos conduzidos pela professora Maria Amélia Azevedo também
jogam luz nas origens históricas da violência infantil. Segundo ela,
há evidências de que a sociedade escravocrata teve sua contribuição
na popularização dos castigos corporais contra as crianças
brasileiras. Isso se explica pelo fato de os filhos dos escravos terem sido vítimas
de severas punições físicas. Outra influência para
a banalização da violência infantil, de acordo com a pesquisa
de Maria Amélia, veio dos jesuítas, que desembarcaram no Brasil
com a missão de educar as crianças indígenas e defendiam
o lema "A letra entra com sangue". Conclui a professora: "Como se vê, a
cultura de bater em crianças está arraigada na sociedade brasileira".
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