Edição 1947 . 15 de março de 2006

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Retrato da violência

Pesquisa mostra que a palmada não
educa e que as crianças que apanham
tendem a ser mais agressivas


Monica Weinberg

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Trechos de dois livros:
Mulheres em Pedaços
Assédio Moral

Uma pesquisa nacional conduzida pelo Laboratório de Estudos da Criança (Lacri), da Universidade de São Paulo, dimensionou pela primeira vez um velho problema brasileiro: o da violência praticada contra crianças no ambiente doméstico. Segundo o estudo, 60% dos brasileiros afirmam ter sido vítimas de castigos físicos na infância – de punições leves a surras que levaram a seqüelas físicas graves. São dois os argumentos mais usados pelos pais brasileiros para justificar o hábito de bater nos filhos. O primeiro é que a punição física "tem função educativa". O segundo é que ela é uma forma de castigo "merecida" em situações nas quais a criança ultrapassa os limites estipulados em casa. Outra constatação do estudo é que esse fenômeno não está associado à pobreza, ao contrário do que se costuma afirmar – ele está presente em todas as classes sociais. Casos de surras que ocorrem em famílias pobres aparecem com mais freqüência nas estatísticas das delegacias especializadas por uma razão simples: nos lares de classe média, eles são mais acobertados. "O brasileiro está longe de ser cordial", diz a coordenadora do Lacri, Maria Amélia Azevedo, há três décadas dedicada à pesquisa sobre violência contra crianças. "Ele é condescendente com a brutalidade física."

60% dos brasileiros afirmam ter sido vítimas de castigos físicos na infância – de punições leves a surras que levaram a seqüelas físicas graves

Com base na observação de centenas de casos, Maria Amélia reuniu dados para condenar a punição física na infância – inclusive a palmada. Ao comparar o comportamento de crianças que sofrem castigos corporais (mesmo leves) com o daquelas que afirmam nunca ter levado uma surra em casa, a professora observou uma clara tendência: as que não apanham são menos agressivas e mais propensas a resolver conflitos por meio do diálogo. Outro ponto levantado por ela é que a palmada é ineficiente como método para ensinar a criança a não repetir o erro pelo qual está sendo punida. Sua experiência mostra que a forma mais eficaz de lidar com situações de extrema indisciplina é aplicar um castigo. "O essencial é que o castigo seja proporcional à falha da criança e ocorra no momento da desobediência, para que não perca seu efeito educativo", diz a professora.

Os especialistas chegaram a algumas conclusões sobre as razões que colocam o Brasil entre os países onde o nível de violência contra crianças é considerado grave. Um dos fatores que explicam a explosão desse tipo de violência vale para outros países da América Latina: são sociedades predominantemente patriarcais, nas quais mulheres e crianças ainda ocupam papel inferior no núcleo familiar – e por isso estão mais sujeitas a sofrer castigos físicos. Os estudos conduzidos pela professora Maria Amélia Azevedo também jogam luz nas origens históricas da violência infantil. Segundo ela, há evidências de que a sociedade escravocrata teve sua contribuição na popularização dos castigos corporais contra as crianças brasileiras. Isso se explica pelo fato de os filhos dos escravos terem sido vítimas de severas punições físicas. Outra influência para a banalização da violência infantil, de acordo com a pesquisa de Maria Amélia, veio dos jesuítas, que desembarcaram no Brasil com a missão de educar as crianças indígenas e defendiam o lema "A letra entra com sangue". Conclui a professora: "Como se vê, a cultura de bater em crianças está arraigada na sociedade brasileira".

 
 
 
 
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