Edição 1947 . 15 de março de 2006

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Internacional
Lula e a rainha

Na Inglaterra, o presidente põe em prática uma
política externa mais realista – buscar alianças
e afinidades com os países desenvolvidos


Diogo Schelp


Michael Dunlea/AP
Lula com Elizabeth II, Marisa e o príncipe Philip (acima) no Palácio de Buckingham. Abaixo, com Chirac, em 2005, e Bush, em 2002
Patrick Kovarik/AFP
Kevin Lamarque/Reuters

O presidente Lula ficou encantado com a cortesia de todos os que o receberam em sua visita à Inglaterra, na semana passada. Ele andou de carruagem com a rainha Elizabeth II, hospedou-se no Palácio de Buckingham e foi recepcionado em um banquete real. Lula disse que nunca foi tão bem tratado em uma viagem internacional. O comentário pode ter sido um tanto indelicado em relação aos outros países que visitou, mas destaca a mais concreta utilidade de viagens presidenciais: criar uma aproximação política e pessoal entre os governantes. Os encontros entre chefes de governo são uma oportunidade para encontrar e ampliar pontos de vista em comum e conquistar a confiança um do outro.

Em sua visita aos Estados Unidos, em 2002, Lula descobriu uma inesperada afinidade pessoal com o presidente americano George W. Bush. Do presidente francês Jacques Chirac, no ano passado, o brasileiro conseguiu a admissão de que os subsídios agrícolas europeus poderiam, sim, ser abolidos um dia – desde que os Estados Unidos também o façam. Do primeiro-ministro inglês, Tony Blair, na conversa da semana passada, Lula conseguiu o apoio para uma cúpula de presidentes e primeiros-ministros com o objetivo de avançar nas negociações para acabar com os subsídios agrícolas nos países ricos. De acordo com um estudo do Banco Mundial feito no ano passado, se as barreiras aos produtos agrícolas de todos os países fossem abolidas, o Brasil ganharia, em uma década, 40 bilhões de dólares em exportações.

Blair vê em Lula a confirmação de que a terceira via, da qual já foi apóstolo, ainda tem lugar na vida real. Atualmente um tanto esquecida, a teoria significa basicamente aliar desenvolvimento econômico com justiça social, passando longe dos extremismos de esquerda e direita. O primeiro-ministro também está sinceramente interessado na tecnologia brasileira de produção de álcool combustível como alternativa aos derivados de petróleo, mais caros e poluentes. Maior produtor de etanol do mundo, o Brasil tem muito a ganhar com o aumento da demanda internacional pelo produto. "Os temas discutidos na viagem de Lula à Inglaterra são mais palpáveis e realistas que aqueles que o levaram à África", diz o cientista político Carlos Pio, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília. "Isso levanta a pergunta: por que não foi esse o foco da política externa adotada desde o início de seu governo?"

Nos últimos três anos, a diplomacia brasileira concentrou seus esforços em duas metas, ambas fracassadas. A primeira, conseguir apoio para a candidatura brasileira a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. A segunda, liderar um bloco de países pobres. Na campanha por esses objetivos de utilidade duvidosa, Lula fez cinqüenta viagens internacionais desde a sua posse – seis a mais que Fernando Henrique Cardoso em seu primeiro mandato presidencial. Dos 47 países visitados por Lula, apenas nove são nações desenvolvidas. Em comparação, o presidente visitou treze países africanos. Ao dar menor ênfase aos mais ricos, Lula perdeu a oportunidade de explorar a ótima imagem que desfruta no Primeiro Mundo. "Apesar dos problemas políticos domésticos, Lula não perdeu entre os europeus sua aura de líder do Terceiro Mundo que veio de baixo e governa de forma pragmática, sem deixar de lado a retórica esquerdista", disse a VEJA a inglesa Mahrukh Doctor, especialista em economia política do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford, na Inglaterra.

É essa imagem, mais do que qualquer interesse específico da Inglaterra, que justifica o tratamento oferecido ao presidente brasileiro na semana passada. A rainha Elizabeth II recebe só duas visitas de Estado por ano, em média. Nos últimos três anos, essa deferência foi reservada aos presidentes da Rússia, Estados Unidos, Polônia, França, Coréia do Sul e Itália – países que mantêm com a Inglaterra mais interesses econômicos e políticos do que o Brasil. Dois outros presidentes brasileiros tiveram recepção similar: Fernando Henrique, em 1997, e Ernesto Geisel, em 1976. Geisel foi tratar da dívida externa brasileira, que tinha a Inglaterra entre os maiores credores. As visitas de Fernando Henrique e Lula tiveram motivações mais políticas. Para o trabalhista Tony Blair, foram boas oportunidades para reafirmar sua imagem de governante preocupado com o desenvolvimento dos países pobres.

 
 
 
 
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