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Internacional
Lula e a rainha
Na Inglaterra, o presidente põe em prática
uma
política externa mais realista buscar alianças
e afinidades com os países desenvolvidos

Diogo Schelp
Michael Dunlea/AP
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| Lula com Elizabeth II, Marisa
e o príncipe Philip (acima) no Palácio
de Buckingham. Abaixo, com Chirac, em 2005, e Bush, em 2002
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Patrick Kovarik/AFP
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Kevin Lamarque/Reuters
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O presidente Lula ficou encantado
com a cortesia de todos os que o receberam em sua visita à
Inglaterra, na semana passada. Ele andou de carruagem com a rainha
Elizabeth II, hospedou-se no Palácio de Buckingham e foi
recepcionado em um banquete real. Lula disse que nunca foi tão
bem tratado em uma viagem internacional. O comentário pode
ter sido um tanto indelicado em relação aos outros
países que visitou, mas destaca a mais concreta utilidade
de viagens presidenciais: criar uma aproximação política
e pessoal entre os governantes. Os encontros entre chefes de governo
são uma oportunidade para encontrar e ampliar pontos de vista
em comum e conquistar a confiança um do outro.
Em sua visita aos Estados Unidos,
em 2002, Lula descobriu uma inesperada afinidade pessoal com o presidente
americano George W. Bush. Do presidente francês Jacques Chirac,
no ano passado, o brasileiro conseguiu a admissão de que
os subsídios agrícolas europeus poderiam, sim, ser
abolidos um dia desde que os Estados Unidos também
o façam. Do primeiro-ministro inglês, Tony Blair, na
conversa da semana passada, Lula conseguiu o apoio para uma cúpula
de presidentes e primeiros-ministros com o objetivo de avançar
nas negociações para acabar com os subsídios
agrícolas nos países ricos. De acordo com um estudo
do Banco Mundial feito no ano passado, se as barreiras aos produtos
agrícolas de todos os países fossem abolidas, o Brasil
ganharia, em uma década, 40 bilhões de dólares
em exportações.
Blair vê em Lula a confirmação
de que a terceira via, da qual já foi apóstolo, ainda
tem lugar na vida real. Atualmente um tanto esquecida, a teoria
significa basicamente aliar desenvolvimento econômico com
justiça social, passando longe dos extremismos de esquerda
e direita. O primeiro-ministro também está sinceramente
interessado na tecnologia brasileira de produção de
álcool combustível como alternativa aos derivados
de petróleo, mais caros e poluentes. Maior produtor de etanol
do mundo, o Brasil tem muito a ganhar com o aumento da demanda internacional
pelo produto. "Os temas discutidos na viagem de Lula à Inglaterra
são mais palpáveis e realistas que aqueles que o levaram
à África", diz o cientista político Carlos
Pio, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade
de Brasília. "Isso levanta a pergunta: por que não
foi esse o foco da política externa adotada desde o início
de seu governo?"
Nos últimos três
anos, a diplomacia brasileira concentrou seus esforços em
duas metas, ambas fracassadas. A primeira, conseguir apoio para
a candidatura brasileira a uma vaga permanente no Conselho de Segurança
da ONU. A segunda, liderar um bloco de países pobres. Na
campanha por esses objetivos de utilidade duvidosa, Lula fez cinqüenta
viagens internacionais desde a sua posse seis a mais que
Fernando Henrique Cardoso em seu primeiro mandato presidencial.
Dos 47 países visitados por Lula, apenas nove são
nações desenvolvidas. Em comparação,
o presidente visitou treze países africanos. Ao dar menor
ênfase aos mais ricos, Lula perdeu a oportunidade de explorar
a ótima imagem que desfruta no Primeiro Mundo. "Apesar dos
problemas políticos domésticos, Lula não perdeu
entre os europeus sua aura de líder do Terceiro Mundo que
veio de baixo e governa de forma pragmática, sem deixar de
lado a retórica esquerdista", disse a VEJA a inglesa Mahrukh
Doctor, especialista em economia política do Centro de Estudos
Brasileiros da Universidade de Oxford, na Inglaterra.
É essa imagem, mais do
que qualquer interesse específico da Inglaterra, que justifica
o tratamento oferecido ao presidente brasileiro na semana passada.
A rainha Elizabeth II recebe só duas visitas de Estado por
ano, em média. Nos últimos três anos, essa deferência
foi reservada aos presidentes da Rússia, Estados Unidos,
Polônia, França, Coréia do Sul e Itália
países que mantêm com a Inglaterra mais interesses
econômicos e políticos do que o Brasil. Dois outros
presidentes brasileiros tiveram recepção similar:
Fernando Henrique, em 1997, e Ernesto Geisel, em 1976. Geisel foi
tratar da dívida externa brasileira, que tinha a Inglaterra
entre os maiores credores. As visitas de Fernando Henrique e Lula
tiveram motivações mais políticas. Para o trabalhista
Tony Blair, foram boas oportunidades para reafirmar sua imagem de
governante preocupado com o desenvolvimento dos países pobres.
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