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Brasil Será
que é hora de chamar as tropas? O apoio
da população do Rio de Janeiro à ocupação
militar dos morros cariocas provoca discussão sobre o papel das
Forças Armadas na segurança pública 
João Gabriel de Lima e Ronaldo França
Vanderlei Almeida/AFP  |
| O Exército no morro: a explosão do disque-denúncia mostra
que a população mais pobre confia mais nos militares do que na polícia |
Será que as Forças
Armadas têm um papel a cumprir no combate ao tráfico de drogas no
Rio de Janeiro? Essa pergunta estava no ar no país na semana passada, quando
o Exército ocupou oito favelas com o objetivo de recuperar dez fuzis e
uma pistola, roubados de um quartel do Comando Militar do Leste. Houve críticas
sobre uma suposta ilegalidade da ação injustas, pois o Exército
agiu amparado em mandados de busca e apreensão emitidos pela Justiça
Militar. Questionou-se o gigantismo da operação, já que o
contingente que ocupou os morros era maior do que o enviado ao Haiti. Passada
a polêmica, restou um fato impressionante: grande parte da desprotegida
população carioca aprovou a empreitada. Uma pesquisa do site do
jornal O Globo aferiu que 90% dos leitores apoiavam a ocupação
dos morros pelo Exército. O número de denúncias por telefone
contra os traficantes dobrou, o que significa que também os moradores dos
morros, sempre com o pé atrás em relação a uma polícia
historicamente corrupta, consideravam o Exército mais confiável.
Durante a semana passada, soube-se que o Exército aproveitou a ocupação
dos morros para realizar também operações de inteligência.
"É evidente que, ao entrar nisso, o Exército não vai buscar
apenas armas. É o momento de fazer todo o levantamento logístico,
o mapeamento para buscar a segurança da população, não
só agora mas para empregos futuros, desde que episódicos", afirmou
a VEJA uma alta autoridade do Exército envolvida na operação.
Teoria e prática, no entanto, mostram
que ações puramente militares não resolvem o problema do
crime organizado. A lição prática vem do próprio Exército
brasileiro, que na chamada Operação Rio, realizada entre 1994 e
1995, ocupou os morros cariocas com resultados pífios depois da
saída dos militares o tráfico continuou agindo normalmente e seu
poderio só aumentou. Um dos coordenadores da empreitada, o coronel Romeu
Ferreira, fez a seguinte avaliação: "A Operação Rio
demonstrou que a ação policial de massa a nada conduz se não
for alicerçada pelo conhecimento preciso, objetivo, oportuno e seguro".
A lição teórica vem dos Estados Unidos, onde é consenso
que o combate ao tráfico, com seus chefes criminosos e quadrilhas a ser
desbaratadas, é um trabalho principalmente de inteligência, e não
de ações massivas sendo, assim, mais bem realizado pelas
polícias. Não existe nenhum caso exemplarmente bem-sucedido de intervenção
militar na caça de gangues de traficantes. Há vários de ação
policial. Foi com técnicas americanas que Bogotá, na Colômbia,
reduziu a um terço o número de assassinatos ligados ao tráfico,
investindo em informatização da polícia e aperfeiçoamento
das técnicas de investigação. "Em toda a América,
apenas em países do Caribe, como Jamaica e Trinidad e Tobago, se prega
a utilização corriqueira do Exército como polícia",
informa o professor Ignácio Cano, especialista em segurança pública
da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. A experiência ensina que o Exército
atua melhor como polícia em operações com prazo determinado,
como ocorreu por exemplo na Rio 92, mas não tem estrutura, vocação,
treino ou mandato constitucional para uma ocupação continuada.
Se é consenso que o Exército sozinho não
é capaz de resolver o problema, é cada vez mais aceita a idéia
de que os militares têm, sim, um papel a desempenhar na área da segurança
pública. Há três anos, por exemplo, o Exército realiza
operações de inteligência em favelas dominadas pelo narcotráfico
em conjunto com a Secretaria de Segurança Pública do Estado.
"Independentemente disso, o Exército deve, é
claro, promover ações pontuais em situações de emergência",
diz o secretário de Segurança do Rio, Marcelo Itagiba. (A governadora
Rosinha Garotinho, como sempre, não se pronunciou sobre esse tema ou sobre
nenhum outro.) Na sexta-feira passada, Cesar Maia, prefeito do Rio, apoiou a ação
do Exército por meio de um de seus comunicados diários na internet.
"Se o Exército saiu às ruas para recuperar dez fuzis, tem obrigação
muito maior de ficar nas ruas até retirar as armas pesadas dos traficantes
que as usam explícita e abertamente", afirmou o prefeito. Por razões
principalmente políticas, sempre foi difícil no Brasil que as forças
de segurança Exército e polícias federal e estaduais
agissem de forma coordenada. A verdade é que o Rio perdeu a capacidade
de combater sozinho as gangues de bandidos que oprimem principalmente a população
mais pobre e paralisam o desenvolvimento da cidade. Décadas de incúria
dos governantes estaduais e de negligência dos governos federais em relação
a essa tragédia levaram a esse estado de coisas. Espera-se que esse seja
o início de uma reação. |