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Brasil O
achaque de Mary Corner A "empresária" cobra
para não propagar histórias de que suas meninas ajudavam
a pagar a políticos em Brasília  Fábio
Portela e Juliana Linhares
Ana
Ottoni/Folha Imagem
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empresária Mary Corner: não seremos "os primeiros nem os últimos do mundo a extorquir"
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Em agosto, quando o nome da empresária
Jeany Mary Corner veio à tona, sua existência parecia um fato periférico
entre as denúncias que desnudavam o governo de Luiz Inácio Lula
da Silva. Imaginava-se, na pior das hipóteses, que a divulgação
de sua agenda de clientes causaria constrangimentos pessoais. Engano. Nos últimos
meses, Jeany tem espalhado que ela e suas "recepcionistas" teriam testemunhado
e até auxiliado a prática de atos de corrupção. Mas,
em vez de denunciá-los, dedicou-se a vender seu silêncio. Em prestações.
Sua primeira investida comercial deu-se entre setembro e outubro do ano passado
e teve como alvo o Ministério da Fazenda. Jeany colocou pessoas de sua
confiança em contato com um interlocutor de Ademirson Silva, assessor especial
do ministro Antonio Palocci, e com Juscelino Dourado, seu ex-chefe-de-gabinete.
Elas pediam dinheiro. Na ocasião, Jeany também abordou Rogério
Buratti, ex-secretário de Palocci em Ribeirão Preto.
Em novembro, um dos advogados de Jeany, Ismar Marcílio de Freitas Júnior,
voltou à caça a pedido de sua cliente. Ele solicitou uma audiência
com o ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, usando, para isso, a ajuda
de um amigo, o promotor paulista Ruy Pires Galvão. Quando desconfiou do
assunto que seria tratado pouco antes da audiência , o ministro
decidiu não encontrá-los pessoalmente. Delegou a tarefa a seu chefe-de-gabinete,
Cláudio Demczuk Alencar. Em Brasília, Freitas Júnior e Galvão
contaram que Jeany sabe de fatos gravíssimos e sugeriram que "seria interessante
tirá-la de circulação até 2008" porque ela estaria
prestes a dar entrevistas bombásticas sobre o assunto. Segundo eles, os
fatos seriam os seguintes: Além de
fornecer as recepcionistas que animavam as festas de uma mansão no Lago
Sul de Brasília, alugada por ex-auxiliares de Palocci, Jeany também
ajudou a turma de Ribeirão a pagar, em 2003, uma espécie de mensalão
de 50.000 reais a políticos na capital federal. Oito deputados teriam recebido
o dinheiro. O operador desse mensalão
era Rogério Buratti. Para ajudar
Buratti a operar o esquema, ela o apresentou aos doleiros de Brasília Fayed
Antoine Traboulsi e Chico Gordo. Também permitiu que sua própria
casa fosse usada para a divisão do dinheiro.
Os valores eram divididos pelas "meninas" de Jeany seguindo instruções
deixadas por escrito por Buratti. Depois de contado, o dinheiro era escondido
dentro de revistas, colocadas em envelopes de papel.
Algumas garotas de Jeany rodavam Brasília de carro entregando os envelopes.
Quem guiava era Francisco, ex-motorista de Buratti. Em 2003, a operação
repetiu-se cinco vezes. Jeany chegou a receber
50.000 reais para ficar quieta. O dinheiro teria sido entregue por Feres Sabino,
ex-secretário de Negócios Jurídicos da prefeitura de Ribeirão
Preto. Sabino nega ter sido o emissário, embora admita conhecer os advogados
de Jeany. Há dois meses, VEJA recebeu a informação de que
o pagamento teria sido intermediado por outro advogado: José Firmo Ferraz
Filho, o mesmo que, há dezessete anos, protagonizou o Caso Lubeca, um dos
primeiros escândalos de corrupção do PT. Ana
Araujo
 | | Mansão
no Lago Sul: diversão e lobby da República de Ribeirão |
Jeany não diz quais canais usou para vender seu silêncio, mas admite
a prática. Em janeiro, declarou ao jornal O Globo: "Fiquei no anonimato
esse tempo todo. Fui muito digna. Diferentemente de outros que abriram a boca.
Por isso, pedi ajuda. Isso é chantagem?". Para o senador Demostenes Torres,
do PFL goiano, isso é chantagem, sim. "Já ouvi de duas fontes diferentes
que ela, realmente, tentou extorquir o ministro Palocci. Resta saber se o pagamento
foi concluído." Em conversa com a reportagem de VEJA, Jeany diz que não
levou dinheiro, mas adiantou que, quando esteve no programa de proteção
a testemunhas, em setembro passado, relatou toda a história acima a policiais
paulistas.
Ed
Ferreira/AE
 | | Buratti:
"Se ela pagava políticos, não era com o meu dinheiro" |
Buratti
confirma que se aproximou de Jeany para aumentar sua lista de contatos em Brasília
e diz que, depois que o escândalo do mensalão estourou, ela fez chegar
a seus ouvidos a notícia de que enfrentava dificuldades financeiras e precisava
de dinheiro para pagar advogados. Buratti nega ter distribuído um mensalão.
"Se ela andou distribuindo dinheiro por Brasília, certamente não
foi das minhas mãos que ele saiu. Sei que a Jeany tinha muitos clientes
grandes, empreiteiras inclusive. Talvez ela esteja contando o milagre, mas trocando
o nome do santo." O Ministério da Justiça limitou-se a confirmar
a audiência com um advogado da empresária e seu amigo promotor. Ismar,
ex-advogado de Jeany, diz ter ido a Brasília apenas para assegurar a proteção
física de sua cliente.
As histórias
de alcova de Jeany e suas meninas não têm relevância jornalística.
Fazem parte da vida privada delas e de seus clientes. Mas se a empresária
diz ter testemunhado atos de corrupção seu papel muda. Em especial
quando essas histórias são usadas para tentar extorquir autoridades.
Arrependida das revelações que fez, Jeany passou a negar que tenha
recebido dinheiro de Palocci e tentou impedir, com ameaças desconexas,
que VEJA publicasse a presente reportagem. Depois, em conversa também gravada,
exaltou-se. Disse que seus assessores não serão "os primeiros nem
os últimos do mundo a extorquir". É sempre bom lembrar que personagens
inqualificáveis como Jeany Corner vieram à luz trazidas não
pela imprensa ou pela oposição, mas pelos petistas e seus satélites.
Nesses casos em que a mensagem fere não adianta muito culpar o mensageiro.
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