Edição 1947 . 15 de março de 2006

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Brasil
Palocci de novo na mira

Novos depoimentos contradizem
versões do ministro – e obrigam-no
a voltar a dar mais explicações

 

Divulgação
O motorista Francisco Costa disse à CPI que levou Palocci à casa em que os ex-assessores se reuniam para fazer negócios escusos

O ministro Antonio Palocci anunciou em Londres que não pretende coordenar a campanha reeleitoral do presidente Lula. Não que lhe falte disposição ou talento para a tarefa. O problema de Palocci é de outra ordem. Desde que começaram a eclodir personagens e histórias comprometedores ligados ao seu passado de ex-prefeito de Ribeirão Preto – cargo que ocupava antes de ser indicado a ministro da Fazenda –, a imagem de Palocci vem sofrendo. Na semana passada, a CPI dos Bingos ouviu três depoimentos que complicam ainda mais o ministro. No mais contundente deles, o motorista Francisco das Chagas Costa contou aos parlamentares que Palocci freqüentava a casa que seus ex-auxiliares de Ribeirão alugaram em Brasília no início do governo (veja a reportagem seguinte). Nela, sabe-se hoje, os amigos do ministro planejavam e executavam ações para tentar beneficiar empresários usando como trunfo a amizade com o ex-prefeito. Palocci prestou depoimento à CPI em janeiro e negou veementemente que tivesse freqüentado a casa. O motorista, porém, garantiu que o ministro esteve lá duas ou três vezes, era chamado pelos convivas de "chefão" e suas visitas aconteceram sempre de dia, no horário de expediente.

Além do depoimento do motorista, a CPI ouviu a ex-chefe de obras da prefeitura de Ribeirão Marilene do Nascimento Falsarella e o delegado regional da cidade, Benedito Antônio Valencise. Ambos foram convocados para esclarecer acusações pesadas contra Antonio Palocci nos seus tempos de prefeitura. O delegado contou aos parlamentares que a polícia já recolheu indícios suficientes para acusar Palocci por formação de quadrilha, falsidade ideológica e peculato. Ele demonstrou não ter dúvidas de que existia um esquema de corrupção montado para arrecadar dinheiro de empresas prestadoras de serviço. Marilene Falsarella, por sua vez, confirmou que adulterava as planilhas de medição para permitir o superfaturamento dos serviços. Parte do dinheiro pago a mais para as empresas retornava como doação eleitoral. Em depoimento, Rogério Buratti, ex-secretário de Governo da prefeitura de Ribeirão, contou à polícia que a empresa responsável pela varrição da cidade pagava uma mesada de 50.000 reais por mês a Palocci e seus assessores. Parte do dinheiro era transferida para o caixa do PT e outra abastecia as próprias campanhas de Palocci.

Dida Sampaio/AE
O delegado Benedito: corrupção investigada


As declarações do motorista, se confirmadas, colocam o ministro da Fazenda em uma situação ainda mais delicada. Francisco das Chagas foi contratado pelo economista Vladimir Poleto, ex-assessor de Palocci em Ribeirão, no início de 2003. O ministro garantiu que não conhece Poleto, mas não será de estranhar se amanhã ele se lembrar do ex-assessor. Palocci já foi obrigado a reformar suas versões para episódios nebulosos ao menos duas vezes. Em março de 2004, funcionários da multinacional GTech denunciaram uma suposta tentativa de extorsão contra a empresa que teria partido do advogado Rogério Buratti. Logo após a denúncia, para tentar manter distância do escândalo, o ministro disse que não falava com Buratti havia anos. Depois, lembrou que poderia ter se encontrado casualmente com o ex-assessor. Por último, admitiu que houve encontros em eventos familiares. Buratti freqüentava não só o Ministério da Fazenda como a residência oficial de Palocci em Brasília. Segundo o advogado, o último encontro entre os dois aconteceu em um hotel de São Paulo, onde tomaram café e conversaram sobre o caso Gtech. Agora, com base no depoimento do motorista Chagas à CPI, sabe-se que eles também se encontraram na mansão alugada em Brasília.

O motorista Chagas revelou aos parlamentares ter levado ao Ministério da Fazenda os empresários angolanos José Paulo Teixeira Figueiredo e Artur José Valente Caio, fabricantes de máquinas de bingo. Em depoimento prestado à polícia, Rogério Buratti contou que, ainda na campanha, Palocci se reuniu com esses mesmos angolanos na casa do empresário Roberto Carlos Kurzweil, em São Paulo. Na ocasião, o então coordenador da campanha de Lula garantiu que, em caso de vitória, o PT regulamentaria o funcionamento das casas de bingo. Em troca, os empresários teriam doado 1 milhão de reais à campanha de Lula. Os recursos não foram contabilizados. Palocci disse que nunca viu os bingueiros africanos nem participou de encontro algum na casa de Kurzweil. Kurzweil é dono da locadora do carro blindado que pegou no aeroporto as caixas com os dólares de Cuba. Logo no início do governo Lula, uma comissão foi criada para estudar a legalização dos bingos. Os estudos eram desenvolvidos por um grupo de técnicos da Caixa Econômica Federal, órgão subordinado ao Ministério da Fazenda, que tinha entre seus conselheiros o ex-secretário de Fazenda da prefeitura de Ribeirão Ralf Barquete, já falecido. As declarações do motorista foram tão contundentes que o relator da comissão, senador Garibaldi Alves Filho, anunciou que pretende incluir o nome do ministro no relatório final da CPI. Como se vê, além de amigos, os personagens dos escândalos que minaram a biografia do ministro Palocci – Rogério Buratti, Vladimir Poleto, Roberto Colnaghi, Roberto Carlos Kurzweil e Ralf Barquete – tinham outras coisas em comum: eles freqüentavam a mesma casa, participavam das mesmas festas e todos faziam negócios no governo. Sempre se imaginou que a turma de Ribeirão agia nas costas do ministro. O depoimento do motorista não prova que Palocci sabia de tudo o que seus "amigos-da-onça" faziam. Mas o obriga a dar mais e constrangedoras explicações.

 
 
 
 
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