Edição 1947 . 15 de março de 2006

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Brasil
Okamotto o tipo "O"

Apelidado de "doador universal",
ele não declarou à Receita doações
feitas a Lula, Lurian e Vicentinho


Juliana Linhares


Bruno Spada/Ag. Brasil
Okamotto: por que não deixam quebrar o seu sigilo?

A generosidade do presidente do Sebrae, Paulo Okamotto, parece não ter fim. Em 2002, ele pagou uma dívida de 26.000 reais contraída pela filha do presidente Lula, Lurian Cordeiro Lula da Silva, conforme revelou VEJA na semana passada. Em 2003, saldou a primeira parcela de um débito do próprio Lula, no valor total de 29.000 reais. Em 2004, quitou a dívida do presidente e doou ao então candidato a prefeito de São Bernardo do Campo pelo PT, Vicentinho, 24.800 reais. A prodigalidade do amigo de Lula é só um dos aspectos curiosos que envolvem essas doações. Um outro é que nenhuma delas foi declarada à Receita Federal, conforme manda a lei. Esse tipo de omissão, embora não configure crime fiscal, é uma infração sujeita a multa.

Prestações de contas são um assunto perfeitamente familiar para Okamotto – ex-tesoureiro do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e da campanha presidencial petista de 1989. Além disso, ele costuma ser preciso em suas declarações de imposto de renda, como mostram os documentos referentes aos anos de 2002 e 2004, aos quais VEJA teve acesso. Na declaração de 2004, Okamotto chega a ponto de fazer constar um pagamento de modestíssimos 340 reais a um certo José Lázaro Henrique Júnior. Não faltam ao presidente do Sebrae, portanto, nem meticulosidade nem experiência em assuntos fiscais. É mais provável, portanto, que o motivo pelo qual ele omitiu as doações a Lula, Lurian e Vicentinho seja outro: elas saíram de um bolso que não o seu.

Daniela Xu/Jornal de Santa Catarina/AE
Lurian: Okamotto pagou calote


A despeito do imenso coração que possa ter o amigo do presidente, ele está longe de ser um milionário – daqueles que podem sair por aí distribuindo milhares de reais aos amigos. Em 2004, Okamotto ganhou ao todo 282.400 reais, segundo informou ao Fisco. Naquele ano, pagou a segunda parcela da dívida de Lula (no valor de 17.000 reais) e fez a doação de 24.800 reais a Vicentinho em material de campanha. A soma dessas bondades equivale a 15% de tudo o que recebeu no período. Em 2002, a situação foi mais surpreendente. Okamotto ainda não era presidente do Sebrae e declarou ter recebido, de janeiro a dezembro, um total de 45.600 reais. A dívida paga em nome de Lurian, no valor de 26.000 reais, representa, portanto, mais da metade de tudo o que o petista ganhou no ano.

Na terça-feira passada, Okamotto divulgou nota negando ter pago a dívida da filha do presidente Lula. No dia seguinte, foi desmentido por mais uma testemunha. O débito de Lurian teve origem quando ela se candidatou a vereadora em São Bernardo do Campo, em 1996, e alugou um imóvel para abrigar seu escritório de campanha. Lurian não se elegeu e também não pagou um único aluguel. Em 1998, o proprietário do imóvel decidiu processar a fiadora do contrato, Ida Ivone Müller Carloti, mãe de uma amiga de Lurian. Quem resolveu o caso foi Okamotto. O amigo do presidente depositou 26.000 reais em dinheiro na conta da fiadora Ida, que quitou a dívida em abril de 2002 com cheques seus. Na quarta-feira passada, Ida confirmou ao jornal Folha de S.Paulo que Okamotto deu a ela o dinheiro para pagar o calote de Lurian. Desde que suas "doações" vieram a público, Okamotto tem sido obrigado a usar de muita imaginação para explicá-las. Se quisesse mesmo esclarecer as suspeitas que pesam sobre ele, bastaria que autorizasse a quebra de seu sigilo bancário – até agora trancafiado a sete chaves.

 
 
 
 
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