Edição 1947 . 15 de março de 2006

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Aparece uma testemunha


Alexandre Oltramari


Fotos Joel Rocha, Augusto Junior/Gazeta do Povo/AE
Tony Garcia, que virou colaborador da Justiça e teve suas conversas com Roberto Bertholdo gravadas

EM ENTREVISTA A VEJA, TONY GARCIA CONTA QUE:

BERTHOLDO ERA O HOMEM DA MALA DO PMDB E TINHA REUNIÕES SEMANAIS EM SÃO PAULO COM MEMBROS DA CÚPULA DO PT

BERTHOLDO LEVAVA DINHEIRO VIVO EM JATOS PARTICULARES OU ALUGADOS PARA BRASÍLIA, ONDE DISTRIBUÍA OS RECURSOS PARA "MAIS DE CINQÜENTA DEPUTADOS DO PMDB"

"DUAS OU TRÊS VEZES" PARA LUXEMBURGO, ONDE AJUDAVA A OPERAR CONTAS SECRETAS DO PT

Roberto Bertholdo, que está preso há quatro meses: ele diz que quer falar

O escândalo do mensalão começou como um duto financeiro pelo qual a cúpula do PT despachava dinheiro para comprar o apoio de deputados do PTB, do PL e do PP. Na semana passada, veio a público outro capítulo do escândalo, aquele pelo qual o PT escoava dinheiro para o bolso de deputados do PMDB. Em sua edição passada, VEJA publicou uma reportagem informando que 55 dos 81 deputados do PMDB recebiam mensalão, cujo valor variava de 15.000 a 200.000 reais, e que o advogado Roberto Bertholdo, ex-conselheiro da hidrelétrica de Itaipu, se apresentava como homem da mala do PMDB. Em conversas gravadas por um ex-sócio seu e entregues à Polícia Federal, às quais VEJA teve acesso, Bertholdo dizia ter negociado o pagamento de 5 milhões de reais para que o apresentador Carlos Massa, o Ratinho, apoiasse o presidente Lula e a então prefeita Marta Suplicy em seu programa no SBT. Também afirmava que o diretor-geral de Itaipu, Jorge Samek, pegara propina de 6 milhões de dólares de uma fornecedora da hidrelétrica – e mostrava-se irritadíssimo porque Samek, homem de confiança do PT, não dividira o dinheiro com o PMDB. Tanto Ratinho como Samek negam que as revelações de Bertholdo sejam verdadeiras.


Sergio Lima/Folha Imagem
Dida Sampaio/AE
Lula Marques/Folha Imagem
Marcelo Sereno, Silvio Pereira e Delúbio Soares: dirigentes do PT faziam reuniões em hotéis ou escritórios, às segundas-feiras

Na semana passada, o próprio Roberto Bertholdo, que está preso há quatro meses numa cela da Polícia Civil em Curitiba, reagiu às denúncias. Em depoimento à Polícia Federal, disse que jamais foi pagador do mensalão no PMDB e afirmou que houve montagem na fita reproduzida por VEJA. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, falou que queria ser ouvido pela Procuradoria-Geral da República para contar casos de corrupção de outros partidos, e não do PMDB. "Eu sei de outras coisas relacionadas a outros partidos. Sei como está sendo feita essa corrupção. Toda a corrupção é feita sempre com dinheiro vivo", disse ele, sem identificar partidos nem pessoas. O mais recente problema de Bertholdo é que agora surgiu uma testemunha disposta a depor nas CPIs em Brasília para contar o que sabe sobre suas traficâncias entre o PMDB e o PT. Na semana passada, VEJA gravou quase três horas de entrevista com o empresário Antônio Celso Garcia, 52 anos, que foi cliente, amigo e sócio informal de Bertholdo entre 2002 e 2005. Desses contatos, Tony Garcia, como é conhecido, ficou sabendo que:

Como pagador do mensalão do PMDB, Bertholdo tinha reuniões quase todas as semanas em São Paulo, às segundas-feiras, com uma trinca de dirigentes do PT: Delúbio Soares, Marcelo Sereno e Silvio Pereira.

Desses encontros, Bertholdo saía com dinheiro vivo, embarcava em jatos particulares ou alugados e rumava para Brasília, onde distribuía o dinheiro para "mais de cinqüenta deputados do PMDB".

Valter Campanato/Ag. Brasil
O ex-ministro Dirceu: convite a Bertholdo para assumir o lugar deixado por Waldomiro Diniz


Entre 2003 e 2004, Bertholdo viajou "duas ou três vezes" para Luxemburgo, paraíso fiscal europeu, onde ajudava a operar contas secretas do PT.

Bertholdo falava com o então ministro José Dirceu, que chegou a pensar em colocá-lo trabalhando na Casa Civil, no lugar de Waldomiro Diniz, o assessor flagrado cobrando propina de um empresário de jogos.

Tony Garcia não é um estreante em política nem em suspeitas de maracutaias. Numa de suas primeiras incursões em ambos os terrenos, associou-se à empreitada que levou Fernando Collor ao Palácio do Planalto e angariou acusações de operar como representante no Paraná do tesoureiro Paulo César Farias, o PC Farias. Em 1990, tentou em vão se eleger para o Senado pelo PRN de Collor. De lá para cá, concorreu em quatro eleições e só se aproximou de Bertholdo em 2002, quando voltou a candidatar-se ao Senado. Bertholdo concorreu como suplente de senador na chapa de Tony Garcia e tornou-se seu advogado – para impedir que o companheiro de chapa fosse preso num processo por fraude em consórcio. Tony perdeu a eleição, pensava ter-se livrado do processo, até ser surpreendido com um mandado de prisão em novembro de 2004. Passou 81 dias em cana. Solto em fevereiro de 2005, ganhou um perdão judicial parcial e, em troca, virou réu-colaborador. Nessa condição, passou a atrair Bertholdo para conversas que a polícia se encarregava de gravar. No decorrer de 2005, noventa horas de diálogos por telefone ou pessoalmente foram gravadas.

A seguir, os trechos mais importantes da entrevista:

COMO O SENHOR SOUBE QUE BERTHOLDO PAGAVA O MENSALÃO DO PMDB? Ele me falava que tinha encontros semanais em São Paulo com as pessoas que operavam essas coisas com o PMDB.

COM QUEM ERAM OS ENCONTROS? Com Delúbio Soares, Silvio Pereira e Marcelo Sereno. Ele me dizia que falava mais com o Silvio Pereira e o Delúbio.

O MARCOS VALÉRIO NÃO APARECIA? Bertholdo nunca falou dele. O Valério não era fonte dele. Ele dizia que a fonte dele era mesmo a direção do PT.

ONDE ERAM OS ENCONTROS? Em escritórios ou hotéis. O Meliá era um deles. O escritório era o do Silvio Pereira. Ele tinha um escritório fora da sede do PT. Bertholdo tinha reuniões quase que religiosamente às segundas-feiras.

O QUE ACONTECIA NOS ENCONTROS? Bertholdo dizia que tratava de indicações políticas do PMDB para o governo e também pegava recursos para fazer acertos dentro do PMDB. Ele dizia que apanhava o dinheiro, em espécie, em São Paulo, e depois o transportava a Brasília em jatos particulares ou alugados. Voava pessoalmente com dinheiro vivo. Muitas dessas vezes, estava acompanhado do assessor, Guilherme Wolf. O Bertholdo nunca andava com menos de 50 000, 100 000 reais em dinheiro. Ele falava que era para fazer coisas eventuais, atender um ou outro.

O SENHOR SABE QUANTOS DEPUTADOS DO PMDB RECEBIAM O DINHEIRO DE BERTHOLDO? Ele deixava claro que eram mais de cinqüenta deputados do PMDB. Mas nunca falou em nomes e eu nunca perguntei porque não era do meu interesse. Os dirigentes maiores do partido, como Michel Temer, eu sei que não participavam, até porque estavam se afastando do governo. Ele só dizia que cada deputado tinha um preço. Havia uns que custavam 10 000, outros que custavam 15 000, outros 20 000, outros 100 000, outros 200 000... Que dependia do grau de importância do deputado e das matérias a ser votadas.

ONDE O DINHEIRO ERA ENTREGUE AOS DEPUTADOS? Numa sala ao lado da liderança do PMDB na Câmara, quase sempre à noite. Ou então numa casa que ele alugou no Lago Sul e onde fazia festas para membros do PMDB, do PT, ministros... Ele dizia que houve festa até com a presença do presidente da República.

MAS NUNCA CITOU OS DEPUTADOS DO MENSALÃO? É fácil saber. Basta ver quem eram os deputados do PMDB que votavam com o governo. Quanto mais polêmicas eram as matérias em votação, e quanto mais o PT deixava de cumprir os compromissos acertados, mais as coisas se complicavam. Bertholdo me dizia que a única maneira de resolver era com dinheiro vivo.

ENTÃO ERA DINHEIRO EM TROCA DE VOTO FAVORÁVEL AOS PROJETOS DE INTERESSE DO GOVERNO? Não só projetos. Ele me disse que levantou 8 milhões de reais junto ao PT para fazer do José Borba líder do PMDB, por exemplo. E tempos depois, quando a turma do Anthony Garotinho destituiu o Borba, ele me disse que gastou outros 6 milhões de reais pagando a deputados do partido para o Borba voltar a ser líder. O caso do Ratinho também não é projeto. Bertholdo me contou uma vez que, junto com o Delúbio, estava negociando o apoio do Ratinho ao governo. Depois de um tempo, numa conversa por telefone, ele me disse o seguinte: "Lembra do negócio do Ratinho? Já deu certo. Está fechado. Teu amigo é f... Prestei o maior serviço ao presidente. Inclusive o Ratinho vai ajudar o PT em outras coisas no programa dele".

BERTHOLDO CHEGOU A DIZER SE PAGOU 5 MILHÕES DE REAIS AO RATINHO? Nesse caso, ele nunca falou em pagamento. Só falou que tinha ido ao Ratinho, aproveitando a amizade que o Ratinho tem com o Borba, porque queria trabalhar isso para o PT.

Divulgação
Carlos Massa, o Ratinho: ele sempre negou ter recebido dinheiro para apoiar Lula


O DINHEIRO QUE BERTHOLDO MANIPULAVA VINHA TODO DOS CONTATOS DELE COM A CÚPULA DO PT EM SÃO PAULO?
Não, Bertholdo me falou várias vezes que também tinha dinheiro que vinha de Itaipu. O dinheiro para as campanhas no Paraná ele me falava que vinha de empreiteiros com contratos com Itaipu. Depois que ele assumiu o cargo de conselheiro de Itaipu, em 2003, várias vezes narrou para mim e para o seu então sócio, o Sérgio Costa, como ele tentava influenciar e cobrar dívidas antigas para credores de Itaipu.

COMO ERA? Ele dizia que o Samek (Jorge Samek, diretor-geral de Itaipu) era ligação forte dele. Mas que o Samek tentava fazer os negócios sozinho ou com o Paulo Bernardo (ministro do Planejamento, cuja mulher, Gleisi Hoffmann, é diretora financeira de Itaipu) e que às vezes deixava ele fora da coisa. Mas que andava se enfronhando no esquema, estreitando relacionamento com o Samek. Tempos depois, o Samek passou a viajar com o Bertholdo nos jatos que ele locava para se deslocar de Foz do Iguaçu a Curitiba e Brasília.

O SENHOR VIU OS DOIS JUNTOS? Nunca, mas era isso o que Bertholdo propagava. Ele também tinha um relacionamento muito estreito com o José Dirceu. Eu mesmo ouvi duas conversas do Bertholdo com o José Dirceu. Uma delas ocorreu num aparelho de rádio Nextel. O relacionamento dele com José Dirceu era tão próximo que, uns vinte dias depois que o Waldomiro Diniz deixou o governo, Bertholdo me disse que tinha sido convidado para assumir o lugar do Waldomiro Diniz... Eu ainda falei: "Vai sair um cara para entrar outro e ser queimado e jogado aos leões". Uma semana depois, ele voltou de Brasília e disse: "Vou operar isso por fora. Tenho muito mais liberdade assim". Ele efetivamente tinha um relacionamento estreito com a cúpula do PT e com a base do governo. Ele me disse que até operava contas do PT no exterior.

ONDE? Ele me disse que operava contas do PT, com doleiros, em Luxemburgo. Em 2003 e 2004, por exemplo, ele foi duas ou três vezes a Luxemburgo. O passaporte dele foi apreendido pela Polícia Federal. O registro deve estar lá. Ele me disse que um dos doleiros do PT era o Toninho da Barcelona. Ele me falou isso numa conversa por telefone, no ano passado. Tenho certeza de que está gravado e está com a Polícia Federal.

O depoimento de Garcia abre uma nova avenida para as investigações sobre o repasse de recursos a políticos. Abre também, e isso é ainda mais vital, uma pequena escotilha pela qual se pode vislumbrar parte da questão ainda coberta de mistérios: a origem do dinheiro sujo. Pelo que anotou Tony Garcia em suas conversas de porão com Bertholdo, o dinheiro vem de fornecedores de uma empresa estatal, a binacional Itaipu. Essa pista precisa ser seguida e aprofundada pelas CPIs, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. Com eles, a palavra.

 
 
 
 
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