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Brasil
Aparece uma testemunha

Alexandre Oltramari
Fotos Joel Rocha, Augusto Junior/Gazeta
do Povo/AE
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| Tony Garcia, que virou colaborador da Justiça
e teve suas conversas com Roberto Bertholdo gravadas |
EM ENTREVISTA A VEJA, TONY GARCIA CONTA
QUE:
BERTHOLDO ERA O HOMEM DA MALA DO PMDB E TINHA REUNIÕES SEMANAIS
EM SÃO PAULO COM MEMBROS DA CÚPULA DO PT
BERTHOLDO LEVAVA DINHEIRO VIVO EM JATOS PARTICULARES OU ALUGADOS
PARA BRASÍLIA, ONDE DISTRIBUÍA OS RECURSOS PARA "MAIS
DE CINQÜENTA DEPUTADOS DO PMDB"
"DUAS OU TRÊS VEZES" PARA LUXEMBURGO, ONDE AJUDAVA A OPERAR
CONTAS SECRETAS DO PT
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| Roberto Bertholdo, que está preso há quatro
meses: ele diz que quer falar |
O escândalo do mensalão começou
como um duto financeiro pelo qual a cúpula do PT despachava
dinheiro para comprar o apoio de deputados do PTB, do PL e do PP.
Na semana passada, veio a público outro capítulo do
escândalo, aquele pelo qual o PT escoava dinheiro para o bolso
de deputados do PMDB. Em sua edição passada, VEJA
publicou uma reportagem informando que 55 dos 81 deputados do PMDB
recebiam mensalão, cujo valor variava de 15.000 a 200.000
reais, e que o advogado Roberto Bertholdo, ex-conselheiro da hidrelétrica
de Itaipu, se apresentava como homem da mala do PMDB. Em conversas
gravadas por um ex-sócio seu e entregues à Polícia
Federal, às quais VEJA teve acesso, Bertholdo dizia ter negociado
o pagamento de 5 milhões de reais para que o apresentador
Carlos Massa, o Ratinho, apoiasse o presidente Lula e a então
prefeita Marta Suplicy em seu programa no SBT. Também afirmava
que o diretor-geral de Itaipu, Jorge Samek, pegara propina de 6
milhões de dólares de uma fornecedora da hidrelétrica
e mostrava-se irritadíssimo porque Samek, homem de
confiança do PT, não dividira o dinheiro com o PMDB.
Tanto Ratinho como Samek negam que as revelações de
Bertholdo sejam verdadeiras.
Sergio Lima/Folha Imagem
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Dida Sampaio/AE
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Lula Marques/Folha Imagem
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| Marcelo Sereno, Silvio
Pereira e Delúbio Soares: dirigentes do PT faziam reuniões
em hotéis ou escritórios, às segundas-feiras
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Na semana passada, o próprio
Roberto Bertholdo, que está preso há quatro meses
numa cela da Polícia Civil em Curitiba, reagiu às
denúncias. Em depoimento à Polícia Federal,
disse que jamais foi pagador do mensalão no PMDB e afirmou
que houve montagem na fita reproduzida por VEJA. Em entrevista ao
jornal Folha de S.Paulo, falou que queria ser ouvido pela
Procuradoria-Geral da República para contar casos de corrupção
de outros partidos, e não do PMDB. "Eu sei de outras coisas
relacionadas a outros partidos. Sei como está sendo feita
essa corrupção. Toda a corrupção é
feita sempre com dinheiro vivo", disse ele, sem identificar partidos
nem pessoas. O mais recente problema de Bertholdo é que agora
surgiu uma testemunha disposta a depor nas CPIs em Brasília
para contar o que sabe sobre suas traficâncias entre o PMDB
e o PT. Na semana passada, VEJA gravou quase três horas de
entrevista com o empresário Antônio Celso Garcia, 52
anos, que foi cliente, amigo e sócio informal de Bertholdo
entre 2002 e 2005. Desses contatos, Tony Garcia, como é conhecido,
ficou sabendo que:
Como pagador do mensalão do PMDB, Bertholdo tinha reuniões
quase todas as semanas em São Paulo, às segundas-feiras,
com uma trinca de dirigentes do PT: Delúbio Soares, Marcelo
Sereno e Silvio Pereira.
Desses encontros, Bertholdo saía com dinheiro vivo, embarcava
em jatos particulares ou alugados e rumava para Brasília,
onde distribuía o dinheiro para "mais de cinqüenta deputados
do PMDB".
Valter Campanato/Ag. Brasil
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| O ex-ministro Dirceu: convite a Bertholdo
para assumir o lugar deixado por Waldomiro Diniz |
Entre 2003 e 2004, Bertholdo viajou "duas ou três
vezes" para Luxemburgo, paraíso fiscal europeu, onde ajudava
a operar contas secretas do PT.
Bertholdo falava com o então ministro José Dirceu,
que chegou a pensar em colocá-lo trabalhando na Casa Civil,
no lugar de Waldomiro Diniz, o assessor flagrado cobrando propina
de um empresário de jogos.
Tony Garcia não é
um estreante em política nem em suspeitas de maracutaias.
Numa de suas primeiras incursões em ambos os terrenos, associou-se
à empreitada que levou Fernando Collor ao Palácio
do Planalto e angariou acusações de operar como representante
no Paraná do tesoureiro Paulo César Farias, o PC Farias.
Em 1990, tentou em vão se eleger para o Senado pelo PRN de
Collor. De lá para cá, concorreu em quatro eleições
e só se aproximou de Bertholdo em 2002, quando voltou a candidatar-se
ao Senado. Bertholdo concorreu como suplente de senador na chapa
de Tony Garcia e tornou-se seu advogado para impedir que
o companheiro de chapa fosse preso num processo por fraude em consórcio.
Tony perdeu a eleição, pensava ter-se livrado do processo,
até ser surpreendido com um mandado de prisão em novembro
de 2004. Passou 81 dias em cana. Solto em fevereiro de 2005, ganhou
um perdão judicial parcial e, em troca, virou réu-colaborador.
Nessa condição, passou a atrair Bertholdo para conversas
que a polícia se encarregava de gravar. No decorrer de 2005,
noventa horas de diálogos por telefone ou pessoalmente foram
gravadas.
A seguir, os trechos mais importantes
da entrevista:
COMO O SENHOR SOUBE QUE BERTHOLDO
PAGAVA O MENSALÃO DO PMDB? Ele me falava que tinha encontros
semanais em São Paulo com as pessoas que operavam essas coisas
com o PMDB.
COM QUEM ERAM OS ENCONTROS?
Com Delúbio Soares, Silvio Pereira e Marcelo Sereno. Ele
me dizia que falava mais com o Silvio Pereira e o Delúbio.
O MARCOS VALÉRIO NÃO
APARECIA? Bertholdo nunca falou dele. O Valério não
era fonte dele. Ele dizia que a fonte dele era mesmo a direção
do PT.
ONDE ERAM OS ENCONTROS?
Em escritórios ou hotéis. O Meliá era um deles.
O escritório era o do Silvio Pereira. Ele tinha um escritório
fora da sede do PT. Bertholdo tinha reuniões quase que religiosamente
às segundas-feiras.
O QUE ACONTECIA NOS ENCONTROS?
Bertholdo dizia que tratava de indicações políticas
do PMDB para o governo e também pegava recursos para fazer
acertos dentro do PMDB. Ele dizia que apanhava o dinheiro, em espécie,
em São Paulo, e depois o transportava a Brasília em
jatos particulares ou alugados. Voava pessoalmente com dinheiro
vivo. Muitas dessas vezes, estava acompanhado do assessor, Guilherme
Wolf. O Bertholdo nunca andava com menos de 50 000, 100 000 reais
em dinheiro. Ele falava que era para fazer coisas eventuais, atender
um ou outro.
O SENHOR SABE QUANTOS DEPUTADOS
DO PMDB RECEBIAM O DINHEIRO DE BERTHOLDO? Ele deixava claro
que eram mais de cinqüenta deputados do PMDB. Mas nunca falou
em nomes e eu nunca perguntei porque não era do meu interesse.
Os dirigentes maiores do partido, como Michel Temer, eu sei que
não participavam, até porque estavam se afastando
do governo. Ele só dizia que cada deputado tinha um preço.
Havia uns que custavam 10 000, outros que custavam 15 000, outros
20 000, outros 100 000, outros 200 000... Que dependia do grau de
importância do deputado e das matérias a ser votadas.
ONDE O DINHEIRO ERA ENTREGUE
AOS DEPUTADOS? Numa sala ao lado da liderança do PMDB
na Câmara, quase sempre à noite. Ou então numa
casa que ele alugou no Lago Sul e onde fazia festas para membros
do PMDB, do PT, ministros... Ele dizia que houve festa até
com a presença do presidente da República.
MAS NUNCA CITOU OS DEPUTADOS
DO MENSALÃO? É fácil saber. Basta ver quem
eram os deputados do PMDB que votavam com o governo. Quanto mais
polêmicas eram as matérias em votação,
e quanto mais o PT deixava de cumprir os compromissos acertados,
mais as coisas se complicavam. Bertholdo me dizia que a única
maneira de resolver era com dinheiro vivo.
ENTÃO ERA DINHEIRO
EM TROCA DE VOTO FAVORÁVEL AOS PROJETOS DE INTERESSE DO GOVERNO?
Não só projetos. Ele me disse que levantou 8 milhões
de reais junto ao PT para fazer do José Borba líder
do PMDB, por exemplo. E tempos depois, quando a turma do Anthony
Garotinho destituiu o Borba, ele me disse que gastou outros 6 milhões
de reais pagando a deputados do partido para o Borba voltar a ser
líder. O caso do Ratinho também não é
projeto. Bertholdo me contou uma vez que, junto com o Delúbio,
estava negociando o apoio do Ratinho ao governo. Depois de um tempo,
numa conversa por telefone, ele me disse o seguinte: "Lembra do
negócio do Ratinho? Já deu certo. Está fechado.
Teu amigo é f... Prestei o maior serviço ao presidente.
Inclusive o Ratinho vai ajudar o PT em outras coisas no programa
dele".
BERTHOLDO CHEGOU A DIZER SE
PAGOU 5 MILHÕES DE REAIS AO RATINHO? Nesse caso, ele
nunca falou em pagamento. Só falou que tinha ido ao Ratinho,
aproveitando a amizade que o Ratinho tem com o Borba, porque queria
trabalhar isso para o PT.
Divulgação
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| Carlos Massa, o Ratinho: ele sempre negou
ter recebido dinheiro para apoiar Lula |
O DINHEIRO QUE BERTHOLDO MANIPULAVA VINHA TODO DOS CONTATOS DELE
COM A CÚPULA DO PT EM SÃO PAULO? Não, Bertholdo
me falou várias vezes que também tinha dinheiro que
vinha de Itaipu. O dinheiro para as campanhas no Paraná ele
me falava que vinha de empreiteiros com contratos com Itaipu. Depois
que ele assumiu o cargo de conselheiro de Itaipu, em 2003, várias
vezes narrou para mim e para o seu então sócio, o
Sérgio Costa, como ele tentava influenciar e cobrar dívidas
antigas para credores de Itaipu.
COMO ERA? Ele dizia que
o Samek (Jorge Samek, diretor-geral de Itaipu) era ligação
forte dele. Mas que o Samek tentava fazer os negócios sozinho
ou com o Paulo Bernardo (ministro do Planejamento, cuja mulher,
Gleisi Hoffmann, é diretora financeira de Itaipu) e que
às vezes deixava ele fora da coisa. Mas que andava se enfronhando
no esquema, estreitando relacionamento com o Samek. Tempos depois,
o Samek passou a viajar com o Bertholdo nos jatos que ele locava
para se deslocar de Foz do Iguaçu a Curitiba e Brasília.
O SENHOR VIU OS DOIS JUNTOS?
Nunca, mas era isso o que Bertholdo propagava. Ele também
tinha um relacionamento muito estreito com o José Dirceu.
Eu mesmo ouvi duas conversas do Bertholdo com o José Dirceu.
Uma delas ocorreu num aparelho de rádio Nextel. O relacionamento
dele com José Dirceu era tão próximo que, uns
vinte dias depois que o Waldomiro Diniz deixou o governo, Bertholdo
me disse que tinha sido convidado para assumir o lugar do Waldomiro
Diniz... Eu ainda falei: "Vai sair um cara para entrar outro e ser
queimado e jogado aos leões". Uma semana depois, ele voltou
de Brasília e disse: "Vou operar isso por fora. Tenho muito
mais liberdade assim". Ele efetivamente tinha um relacionamento
estreito com a cúpula do PT e com a base do governo. Ele
me disse que até operava contas do PT no exterior.
ONDE? Ele me disse que
operava contas do PT, com doleiros, em Luxemburgo. Em 2003 e 2004,
por exemplo, ele foi duas ou três vezes a Luxemburgo. O passaporte
dele foi apreendido pela Polícia Federal. O registro deve
estar lá. Ele me disse que um dos doleiros do PT era o Toninho
da Barcelona. Ele me falou isso numa conversa por telefone, no ano
passado. Tenho certeza de que está gravado e está
com a Polícia Federal.
O depoimento de Garcia abre uma
nova avenida para as investigações sobre o repasse
de recursos a políticos. Abre também, e isso é
ainda mais vital, uma pequena escotilha pela qual se pode vislumbrar
parte da questão ainda coberta de mistérios: a origem
do dinheiro sujo. Pelo que anotou Tony Garcia em suas conversas
de porão com Bertholdo, o dinheiro vem de fornecedores de
uma empresa estatal, a binacional Itaipu. Essa pista precisa ser
seguida e aprofundada pelas CPIs, pela Polícia Federal e
pelo Ministério Público. Com eles, a palavra.
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