Edição 1947 . 15 de março de 2006

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Entrevista: Tony Judt
A lição da Europa

Autor de uma monumental história
do pós-guerra, o inglês Tony Judt
fala do exemplo que a Europa
pode dar ao mundo


Jerônimo Teixeira

O historiador inglês Tony Judt, de 58 anos, lembra que, em seus dias de estudante na Universidade Cambridge, na década de 60, o extermínio dos judeus franceses quase não era mencionado quando se discutia a situação da França ocupada pelos nazistas. Era como se o holocausto fosse um parêntese no meio da II Guerra Mundial. "Eu mesmo venho de uma família judaica e não me dava conta desse silêncio", diz Judt, que hoje dirige o Instituto Remarque da Universidade de Nova York, instituição dedicada ao estudo de temas europeus. O reconhecimento tardio da gravidade do holocausto é um dos temas analisados no monumental Postwar (Pós-Guerra), livro em que Judt revisa, de forma abrangente e minuciosa, os últimos cinqüenta anos da história européia. A obra narra uma trajetória de êxito: o continente arrasado pela guerra em 1945 chegou ao século XXI como um próspero modelo de união transnacional. Mas há zonas sombrias na história: o mesmo silêncio que recobriu o holocausto também já disfarçou o problema da imigração, que Judt considera o mais premente na Europa atual. Na entrevista abaixo, o historiador fala dos desafios e conquistas da Europa.  

Veja – No livro Postwar (Pós-Guerra), o senhor diz que o século XXI ainda poderá ser europeu. O que a Europa tem a ensinar ao resto do mundo?
Judt – Destacaria dois pontos. O primeiro é o que se poderia chamar de modelo europeu. É claro que há muitas variantes desse modelo, mas, de forma geral, existe uma concepção européia do que constitui a organização correta da sociedade. É um produto de 100 anos de dificuldades históricas, das quais surgiu o entendimento de que é necessário conciliar o poder do Estado e a liberdade da economia. O segundo ensinamento decorre da percepção de que hoje a economia, os mercados, os negócios, a comunicação – tudo se move para além dos limites nacionais. Portanto, se não quisermos um mundo anárquico, precisamos de um sistema internacional de instituições, legislações, acordos. A União Européia combina a soberania dos Estados ao poder de novas instituições transnacionais. Não é uma combinação perfeita, mas é um modelo promissor para o século XXI.  

Veja – Mas esse modelo faz sentido em outros lugares – nas Américas, por exemplo?
Judt – Faz sentido como parâmetro e ideal, mas não devemos minimizar as dificuldades de adotá-lo num contexto não-europeu. O atual modelo europeu emergiu do entulho da II Guerra, quando nenhum dos países arrasados pelo conflito tinha muito que perder abrindo mão de parte de sua autonomia. O equilíbrio político entre as nações americanas é diferente. Ainda assim, há lições para estudar e, quem sabe, aplicar rapidamente. A prática européia de redução interna de barreiras, por exemplo, operou em vários níveis, e não apenas no comércio. Também se permitiu que instituições de educação atuassem livremente, de forma transnacional. É muito fácil para um universitário europeu mudar de um país para outro, sem empecilhos. Isso incrementa muito o fluxo de conhecimento. Alargar as concepções de liberdade de comércio e comunicação para incluir coisas como essa é uma idéia excelente.

Veja – O Plano Marshall, que recuperou a Europa do pós-guerra, é a mais extraordinária experiência de auxílio econômico externo registrada pela história. Por que ele deu tão certo?
Judt – Idealizado pelo secretário de Estado George Marshall e financiado pelos Estados Unidos a partir de 1948, o plano continha também um importante elemento de ajuda psicológica: devolveu a esperança a nações arrasadas. A situação da Europa em 1945 era terrível, mas o pior da crise era o aspecto humano, e não econômico. A recuperação foi rápida porque os europeus já contavam com certas vantagens iniciais em termos de conhecimento, recursos e investimentos. São condições que hoje não encontramos nas nações que mais desesperadamente necessitam de ajuda internacional – as da África, por exemplo. A arquitetura do plano também era inteligente. Amparou-se na idéia de que o empréstimo de dinheiro não funciona para tirar um país do buraco. Assim, não foi exatamente dinheiro o que se ofereceu aos países da Europa, mas créditos, que poderiam ser usados para adquirir os bens necessários ao desenvolvimento econômico, à educação, à remontagem da infra-estrutura. Receio que a elite política dos Estados Unidos não seja mais tão inteligente ou imaginativa como era no imediato pós-guerra.  

Veja – O senhor afirma que a história européia pôs em xeque todas as grandes teorias explicativas de esquerda e de direita. Quais seriam, hoje, as grandes divisões políticas da Europa?
Judt – A divisão esquerda-direita ainda faz sentido em termos históricos, que dizem respeito às tradições políticas. Mas faz cada vez menos sentido quando se discutem políticas públicas concretas. O futuro da política européia não se ajusta a essas noções do passado. Três tendências estão no horizonte. Uma delas é formada pelos políticos que desejam reformar o Estado do bem-estar social e incrementar o mercado, em busca de um crescimento econômico mais vigoroso. Tanto Blair, que veio da esquerda inglesa, quanto Sarkozy, oriundo da direita francesa, seguem essa agenda. De outro lado, teremos os defensores do Estado do bem-estar social, que tentarão manter ou propor legislações sociais e trabalhistas. Costumamos pensar nisso como uma tendência de esquerda, mas há muitos partidos de direita que fazem uma política de defesa contra mudanças na seguridade social, por exemplo. A terceira grande linha política também será defensiva, mas se voltará contra outra ordem de mudanças – aquelas que envolvem identidade nacional. São os políticos que se opõem à imigração, às minorias, à globalização e que nutrem ressentimento contra qualquer abertura de fronteiras. Tradicionalmente, são políticas associadas à direita, mas, na França, alguns partidos de esquerda fazem o mesmo tipo de reivindicação.  

Veja – A imigração é um dos problemas centrais da Europa hoje?
Judt – Sim. É um problema muito difícil, porque ninguém quer admitir que os imigrantes hoje são a subclasse da Europa. A base para uma política assentada em divisões de classe está desaparecendo, pois lida com categorias pertencentes ao século XIX. A classe trabalhadora tradicional, formada pelos operários homens que trabalham para a indústria, vem declinando em número e importância política desde os anos 60. Já bem antes da queda do comunismo, a esquerda européia se afastou de termos como "classe" ou "revolução", para falar em igualdade, direitos humanos, minorias etc. Em muitos sentidos, isso foi bom, pois permitiu que os europeus ocidentais entendessem melhor a linguagem política dos dissidentes do bloco comunista. O lado ruim disso é que hoje não temos uma linguagem ou um programa político para questões como pobreza, exploração, desvantagem – e são esses os problemas que afetam, por exemplo, os turcos na Alemanha e os africanos na França.  

Veja – O senhor observa que os líderes e historiadores que celebram a recuperação européia se esquecem da situação do Leste Europeu. Quais as perspectivas de a União Européia nivelar essas diferenças, com a inclusão de países do antigo bloco comunista?
Judt – Tenho minhas dúvidas sobre isso. A expansão da União Européia para o leste combina duas perspectivas assustadoras para os europeus ocidentais. Em primeiro lugar, está-se falando de países sobre os quais os ocidentais tinham muito pouca informação, até a queda do comunismo, que em termos históricos ainda é muito recente. A Cortina de Ferro não era apenas um limite político, mas também uma barreira para o conhecimento. Há certo preconceito ocidental em relação aos países orientais, um preconceito baseado na ignorância da realidade efetiva desses países. O segundo problema, claro, é que os países orientais são pobres. Existe o receio de que sua inclusão na União Européia custe muito dinheiro. E há o mito – que talvez não seja mito – do "encanador polonês", o pobre que vai tirar o emprego do europeu ocidental. Por essas razões, existe um sentimento generalizado de que a união alcançou os limites extremos da Europa. A Romênia já parece estar na outra margem. Depois dela, o que viria? Moldávia, Ucrânia, Sérvia, Turquia? São países que no imaginário ocidental sugerem uma série de imagens "asiáticas", imagens de atraso, violência, corrupção. Em vários países europeus ocidentais, os políticos contrários à expansão têm manipulado essas imagens.

Veja – O senhor é muito cético em relação à chamada "terceira via" proposta por políticos como Tony Blair. Quais as razões de seu ceticismo?
Judt – A terceira via não é uma idéia nova. Pelo menos desde os anos 30, havia pessoas pregando uma opção intermediária entre o capitalismo, que trazia as injustiças do mercado, e o socialismo, que acarretava a ineficiência e o autoritarismo do Estado. Trata-se de um equívoco teórico. O capitalismo é a forma como a vida econômica vem funcionando no mundo moderno, nos últimos 400 anos, e o socialismo é um sistema político. Não são modelos alternativos. Na prática, seja com Bill Clinton nos Estados Unidos, seja com Tony Blair na Inglaterra, a tal terceira via se resume a dar uma imagem grandiosa ao que é basicamente uma tentativa de cortar despesas estatais em áreas que podem ser privatizadas. Há um esforço para apresentar isso como uma solução de compromisso entre o mercado e o Estado, mas o que acontece de fato é que o Estado subsidia o setor privado, garantindo seus lucros e pagando a conta quando a privatização fracassa.  

Veja – Em Postwar, o senhor diz que a era Margaret Thatcher foi boa para a economia, mas ruim para a sociedade do Reino Unido. O senhor repetiria a mesma avaliação para Blair?
Judt – Thatcher certamente foi boa para a economia, no sentido mais cru, mas foi catastrófica para a sociedade. Blair não mudou quase nada no arranjo econômico do Reino Unido, e todos os seus bons resultados eram tendências que já estavam em curso nos governos anteriores. De todos os países europeus que conheço, o Reino Unido é hoje aquele que menos tem um sentido de interesse público comum, de um conjunto de valores que o Estado representa. O maior partido da Inglaterra nas últimas eleições foi o dos que não votaram em ninguém, e isso nunca aconteceu antes. O maior sucesso de Blair é esse: ele fez com que as pessoas se desinteressassem da política. Seu governo é um exercício fraudulento de parasitismo sobre o thatcherismo, sem nenhuma idéia própria – a não ser a construção de uma imagem mais simpática, já que Thatcher e Major pareciam figuras um tanto cínicas.  

Veja – O senhor também diz que a importância do papa João Paulo II e do presidente americano Ronald Reagan na queda do comunismo foi menos decisiva do que se pensa. Por quê?
Judt – O papa e Reagan tiveram uma parte importante, sim, mas o comunismo não teria caído se não fosse por Mikhail Gorbachev. A influência do papa se restringiu à Polônia, que, em comparação a outros países comunistas, já era uma sociedade mais livre. Se você quer entender o que aconteceu no Leste Europeu, é preciso focar o centro do poder – Moscou. Se nada houvesse mudado lá, nada mudaria na Europa Oriental. Esta é a essência do comunismo, a maior realização de Lenin: um sistema centralizado. O poder, a autoridade, as leis, o vocabulário político todo vinham do centro, de Moscou. Gorbachev foi um acidente nesse sistema. Se ele não houvesse aparecido, o comunismo teria continuado em decadência e chegaria ao fim algum dia, sem dúvida – mas bem mais lentamente.  

Veja – Um dos temas centrais do seu livro é o silêncio europeu, no pós-guerra, sobre o holocausto. Como o assunto é tratado hoje?
Judt – Não há mais silêncio, mas existem outras complicações. Nos últimos cinco anos, notei que a simpatia que a esquerda, especialmente a extrema esquerda, sente pelos palestinos algumas vezes se converte no sentimento de que já se falou demais do holocausto, e está na hora de mudar de assunto. Os conservadores, na maior parte dos países, são mais inclinados a dizer que não, não se deve esquecer esse passado. É ainda mais complicado na Alemanha. Nos últimos anos, os democrata-cristãos, especialmente nas cidades do interior, têm dito algo na linha "não chegou a hora de falar também do sofrimento alemão? Da expulsão de alemães do Leste Europeu no fim da guerra? Claro, o holocausto foi terrível, os judeus sofreram – mas e os outros povos que também sofreram?". Talvez estejamos entrando em uma nova era: agora que já se ergueram muitos memoriais pelo holocausto, surgiu certa impaciência para seguir adiante.  

Veja – Se o senhor tivesse de apontar um personagem histórico que sintetiza o pós-guerra europeu, quem seria?
Judt – É difícil, pois ninguém viveu o bastante para cobrir o período todo. Churchill foi um dos primeiros defensores de algum tipo de "assembléia européia", mas o clima ainda não era propício para essa idéia, no fim dos anos 40. De uma forma curiosa, a pessoa que chega mais próximo de representar a Europa é Charles de Gaulle. Ele simboliza a recuperação da França, um país que havia sido destruído moralmente durante a guerra. Sua realização envolveu uma amnésia deliberada: minimizou-se a colaboração com os nazistas durante a ocupação, para convencer os franceses de que seu país havia desempenhado um papel heróico. O mais interessante é que ele representa também os limites das realizações européias. A França se reergueu, mas De Gaulle não conseguiu mais transformá-la em uma grande potência mundial. No máximo, era uma potência no contexto europeu.

 
 
 
 
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