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Entrevista:
Tony Judt A lição
da Europa Autor de uma monumental história
do pós-guerra, o inglês Tony Judt fala do exemplo que a Europa
pode dar ao mundo  Jerônimo
Teixeira O historiador inglês Tony
Judt, de 58 anos, lembra que, em seus dias de estudante na Universidade Cambridge,
na década de 60, o extermínio dos judeus franceses quase não
era mencionado quando se discutia a situação da França ocupada
pelos nazistas. Era como se o holocausto fosse um parêntese no meio da II
Guerra Mundial. "Eu mesmo venho de uma família judaica e não me
dava conta desse silêncio", diz Judt, que hoje dirige o Instituto Remarque
da Universidade de Nova York, instituição dedicada ao estudo de
temas europeus. O reconhecimento tardio da gravidade do holocausto é um
dos temas analisados no monumental Postwar (Pós-Guerra), livro em
que Judt revisa, de forma abrangente e minuciosa, os últimos cinqüenta
anos da história européia. A obra narra uma trajetória de
êxito: o continente arrasado pela guerra em 1945 chegou ao século
XXI como um próspero modelo de união transnacional. Mas há
zonas sombrias na história: o mesmo silêncio que recobriu o holocausto
também já disfarçou o problema da imigração,
que Judt considera o mais premente na Europa atual. Na entrevista abaixo, o historiador
fala dos desafios e conquistas da Europa.
Veja No livro Postwar (Pós-Guerra), o senhor diz que o
século XXI ainda poderá ser europeu. O que a Europa tem a ensinar
ao resto do mundo? Judt
Destacaria dois pontos. O primeiro é
o que se poderia chamar de modelo europeu. É claro que há muitas
variantes desse modelo, mas, de forma geral, existe uma concepção
européia do que constitui a organização correta da sociedade.
É um produto de 100 anos de dificuldades históricas, das quais surgiu
o entendimento de que é necessário conciliar o poder do Estado e
a liberdade da economia. O segundo ensinamento decorre da percepção
de que hoje a economia, os mercados, os negócios, a comunicação
tudo se move para além dos limites nacionais. Portanto, se não
quisermos um mundo anárquico, precisamos de um sistema internacional de
instituições, legislações, acordos. A União
Européia combina a soberania dos Estados ao poder de novas instituições
transnacionais. Não é uma combinação perfeita, mas
é um modelo promissor para o século XXI.
Veja Mas esse modelo faz sentido em outros lugares nas Américas,
por exemplo? Judt
Faz sentido como parâmetro e ideal, mas
não devemos minimizar as dificuldades de adotá-lo num contexto não-europeu.
O atual modelo europeu emergiu do entulho da II Guerra, quando nenhum dos países
arrasados pelo conflito tinha muito que perder abrindo mão de parte de
sua autonomia. O equilíbrio político entre as nações
americanas é diferente. Ainda assim, há lições para
estudar e, quem sabe, aplicar rapidamente. A prática européia de
redução interna de barreiras, por exemplo, operou em vários
níveis, e não apenas no comércio. Também se permitiu
que instituições de educação atuassem livremente,
de forma transnacional. É muito fácil para um universitário
europeu mudar de um país para outro, sem empecilhos. Isso incrementa muito
o fluxo de conhecimento. Alargar as concepções de liberdade de comércio
e comunicação para incluir coisas como essa é uma idéia
excelente. Veja O Plano
Marshall, que recuperou a Europa do pós-guerra, é a mais extraordinária
experiência de auxílio econômico externo registrada pela história.
Por que ele deu tão certo? Judt
Idealizado pelo secretário
de Estado George Marshall e financiado pelos Estados Unidos a partir de 1948,
o plano continha também um importante elemento de ajuda psicológica:
devolveu a esperança a nações arrasadas. A situação
da Europa em 1945 era terrível, mas o pior da crise era o aspecto humano,
e não econômico. A recuperação foi rápida porque
os europeus já contavam com certas vantagens iniciais em termos de conhecimento,
recursos e investimentos. São condições que hoje não
encontramos nas nações que mais desesperadamente necessitam de ajuda
internacional as da África, por exemplo. A arquitetura do plano
também era inteligente. Amparou-se na idéia de que o empréstimo
de dinheiro não funciona para tirar um país do buraco. Assim, não
foi exatamente dinheiro o que se ofereceu aos países da Europa, mas créditos,
que poderiam ser usados para adquirir os bens necessários ao desenvolvimento
econômico, à educação, à remontagem da infra-estrutura.
Receio que a elite política dos Estados Unidos não seja mais tão
inteligente ou imaginativa como era no imediato pós-guerra.
Veja O senhor afirma que a história européia pôs
em xeque todas as grandes teorias explicativas de esquerda e de direita. Quais
seriam, hoje, as grandes divisões políticas da Europa? Judt
A divisão esquerda-direita ainda faz sentido em termos históricos,
que dizem respeito às tradições políticas. Mas faz
cada vez menos sentido quando se discutem políticas públicas concretas.
O futuro da política européia não se ajusta a essas noções
do passado. Três tendências estão no horizonte. Uma delas é
formada pelos políticos que desejam reformar o Estado do bem-estar social
e incrementar o mercado, em busca de um crescimento econômico mais vigoroso.
Tanto Blair, que veio da esquerda inglesa, quanto Sarkozy, oriundo da direita
francesa, seguem essa agenda. De outro lado, teremos os defensores do Estado do
bem-estar social, que tentarão manter ou propor legislações
sociais e trabalhistas. Costumamos pensar nisso como uma tendência de esquerda,
mas há muitos partidos de direita que fazem uma política de defesa
contra mudanças na seguridade social, por exemplo. A terceira grande linha
política também será defensiva, mas se voltará contra
outra ordem de mudanças aquelas que envolvem identidade nacional.
São os políticos que se opõem à imigração,
às minorias, à globalização e que nutrem ressentimento
contra qualquer abertura de fronteiras. Tradicionalmente, são políticas
associadas à direita, mas, na França, alguns partidos de esquerda
fazem o mesmo tipo de reivindicação.
Veja A imigração é um dos problemas centrais da
Europa hoje? Judt
Sim. É um problema muito difícil,
porque ninguém quer admitir que os imigrantes hoje são a subclasse
da Europa. A base para uma política assentada em divisões de classe
está desaparecendo, pois lida com categorias pertencentes ao século
XIX. A classe trabalhadora tradicional, formada pelos operários homens
que trabalham para a indústria, vem declinando em número e importância
política desde os anos 60. Já bem antes da queda do comunismo, a
esquerda européia se afastou de termos como "classe" ou "revolução",
para falar em igualdade, direitos humanos, minorias etc. Em muitos sentidos, isso
foi bom, pois permitiu que os europeus ocidentais entendessem melhor a linguagem
política dos dissidentes do bloco comunista. O lado ruim disso é
que hoje não temos uma linguagem ou um programa político para questões
como pobreza, exploração, desvantagem e são esses
os problemas que afetam, por exemplo, os turcos na Alemanha e os africanos na
França. Veja
O senhor observa que os líderes e historiadores que celebram a recuperação
européia se esquecem da situação do Leste Europeu. Quais
as perspectivas de a União Européia nivelar essas diferenças,
com a inclusão de países do antigo bloco comunista? Judt
Tenho minhas dúvidas sobre isso. A expansão da União
Européia para o leste combina duas perspectivas assustadoras para os europeus
ocidentais. Em primeiro lugar, está-se falando de países sobre os
quais os ocidentais tinham muito pouca informação, até a
queda do comunismo, que em termos históricos ainda é muito recente.
A Cortina de Ferro não era apenas um limite político, mas também
uma barreira para o conhecimento. Há certo preconceito ocidental em relação
aos países orientais, um preconceito baseado na ignorância da realidade
efetiva desses países. O segundo problema, claro, é que os países
orientais são pobres. Existe o receio de que sua inclusão na União
Européia custe muito dinheiro. E há o mito que talvez não
seja mito do "encanador polonês", o pobre que vai tirar o emprego
do europeu ocidental. Por essas razões, existe um sentimento generalizado
de que a união alcançou os limites extremos da Europa. A Romênia
já parece estar na outra margem. Depois dela, o que viria? Moldávia,
Ucrânia, Sérvia, Turquia? São países que no imaginário
ocidental sugerem uma série de imagens "asiáticas", imagens de atraso,
violência, corrupção. Em vários países europeus
ocidentais, os políticos contrários à expansão têm
manipulado essas imagens. Veja
O senhor é muito cético em relação à chamada
"terceira via" proposta por políticos como Tony Blair. Quais as razões
de seu ceticismo? Judt
A terceira via não é uma idéia
nova. Pelo menos desde os anos 30, havia pessoas pregando uma opção
intermediária entre o capitalismo, que trazia as injustiças do mercado,
e o socialismo, que acarretava a ineficiência e o autoritarismo do Estado.
Trata-se de um equívoco teórico. O capitalismo é a forma
como a vida econômica vem funcionando no mundo moderno, nos últimos
400 anos, e o socialismo é um sistema político. Não são
modelos alternativos. Na prática, seja com Bill Clinton nos Estados Unidos,
seja com Tony Blair na Inglaterra, a tal terceira via se resume a dar uma imagem
grandiosa ao que é basicamente uma tentativa de cortar despesas estatais
em áreas que podem ser privatizadas. Há um esforço para apresentar
isso como uma solução de compromisso entre o mercado e o Estado,
mas o que acontece de fato é que o Estado subsidia o setor privado, garantindo
seus lucros e pagando a conta quando a privatização fracassa.
Veja Em Postwar,
o senhor diz que a era Margaret Thatcher foi boa para a economia, mas ruim para
a sociedade do Reino Unido. O senhor repetiria a mesma avaliação
para Blair? Judt
Thatcher certamente foi boa para a economia, no
sentido mais cru, mas foi catastrófica para a sociedade. Blair não
mudou quase nada no arranjo econômico do Reino Unido, e todos os seus bons
resultados eram tendências que já estavam em curso nos governos anteriores.
De todos os países europeus que conheço, o Reino Unido é
hoje aquele que menos tem um sentido de interesse público comum, de um
conjunto de valores que o Estado representa. O maior partido da Inglaterra nas
últimas eleições foi o dos que não votaram em ninguém,
e isso nunca aconteceu antes. O maior sucesso de Blair é esse: ele fez
com que as pessoas se desinteressassem da política. Seu governo é
um exercício fraudulento de parasitismo sobre o thatcherismo, sem nenhuma
idéia própria a não ser a construção
de uma imagem mais simpática, já que Thatcher e Major pareciam figuras
um tanto cínicas. Veja O senhor também diz que a importância do papa João
Paulo II e do presidente americano Ronald Reagan na queda do comunismo foi menos
decisiva do que se pensa. Por quê? Judt
O papa e Reagan tiveram
uma parte importante, sim, mas o comunismo não teria caído se não
fosse por Mikhail Gorbachev. A influência do papa se restringiu à
Polônia, que, em comparação a outros países comunistas,
já era uma sociedade mais livre. Se você quer entender o que aconteceu
no Leste Europeu, é preciso focar o centro do poder Moscou. Se nada
houvesse mudado lá, nada mudaria na Europa Oriental. Esta é a essência
do comunismo, a maior realização de Lenin: um sistema centralizado.
O poder, a autoridade, as leis, o vocabulário político todo vinham
do centro, de Moscou. Gorbachev foi um acidente nesse sistema. Se ele não
houvesse aparecido, o comunismo teria continuado em decadência e chegaria
ao fim algum dia, sem dúvida mas bem mais lentamente.
Veja Um dos temas centrais do seu livro é o silêncio europeu,
no pós-guerra, sobre o holocausto. Como o assunto é tratado hoje? Judt
Não há mais silêncio, mas existem outras complicações.
Nos últimos cinco anos, notei que a simpatia que a esquerda, especialmente
a extrema esquerda, sente pelos palestinos algumas vezes se converte no sentimento
de que já se falou demais do holocausto, e está na hora de mudar
de assunto. Os conservadores, na maior parte dos países, são mais
inclinados a dizer que não, não se deve esquecer esse passado. É
ainda mais complicado na Alemanha. Nos últimos anos, os democrata-cristãos,
especialmente nas cidades do interior, têm dito algo na linha "não
chegou a hora de falar também do sofrimento alemão? Da expulsão
de alemães do Leste Europeu no fim da guerra? Claro, o holocausto foi terrível,
os judeus sofreram mas e os outros povos que também sofreram?".
Talvez estejamos entrando em uma nova era: agora que já se ergueram muitos
memoriais pelo holocausto, surgiu certa impaciência para seguir adiante.
Veja Se o senhor
tivesse de apontar um personagem histórico que sintetiza o pós-guerra
europeu, quem seria? Judt
É difícil, pois ninguém
viveu o bastante para cobrir o período todo. Churchill foi um dos primeiros
defensores de algum tipo de "assembléia européia", mas o clima ainda
não era propício para essa idéia, no fim dos anos 40. De
uma forma curiosa, a pessoa que chega mais próximo de representar a Europa
é Charles de Gaulle. Ele simboliza a recuperação da França,
um país que havia sido destruído moralmente durante a guerra. Sua
realização envolveu uma amnésia deliberada: minimizou-se
a colaboração com os nazistas durante a ocupação,
para convencer os franceses de que seu país havia desempenhado um papel
heróico. O mais interessante é que ele representa também
os limites das realizações européias. A França se
reergueu, mas De Gaulle não conseguiu mais transformá-la em uma
grande potência mundial. No máximo, era uma potência no contexto
europeu. |