Edição 1947 . 15 de março de 2006

Índice
Millôr
Stephen Kanitz
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Auto-retrato
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Auto-retrato
Irvin Yalom

Divulgação


O psiquiatra americano Irvin Yalom, de 74 anos, é autor de best-sellers como Quando Nietzsche Chorou, que está há quarenta semanas na lista de livros mais vendidos de VEJA, e A Cura de Schopenhauer, que vendeu 100 000 cópias desde que foi lançado no país, no ano passado. Nesta semana, outro de seus títulos chega ao Brasil, Mentiras no Divã. Yalom falou à repórter Paula Neiva

O SENHOR ESCREVE ROMANCES QUE FALAM DE FILÓSOFOS E TERAPEUTAS. POR QUE O CRUZAMENTO DE TANTAS ÁREAS, EM VEZ DE SE MANTER RESTRITO A UMA ÚNICA ESPECIALIDADE?
Porque acredito que é nesse cruzamento que podemos compreender a nossa vida interior. A psicoterapia, a filosofia e a literatura – em todas encontramos idéias valiosas. Todas podem ajudar.  

UM PERSONAGEM DE A CURA DE SCHOPENHAUER SUPERA SUA DOENÇA LENDO OS LIVROS DO FILÓSOFO ALEMÃO. LER FILOSOFIA PODE MESMO RESOLVER PROBLEMAS?
A filosofia pode ser uma grande aliada do terapeuta. Uso essa combinação no consultório com meus pacientes e acredito tanto nela que escrevi um livro teórico sobre o assunto, Existential Psychotherapy (Psicoterapia Existencial).  

EM A CURA DE SCHOPENHAUER, UM PSIQUIATRA RECEBE A NOTÍCIA DE QUE ESTÁ COM UMA DOENÇA TERMINAL E DECIDE PROCURAR UM PACIENTE ANTIGO QUE NÃO CONSEGUIU CURAR. O SENHOR JÁ TEVE ESSA VONTADE?
Recentemente, revendo alguns arquivos, me encontrei fazendo várias vezes perguntas deste tipo: Como será que está essa pessoa? O que aconteceu com esse paciente? Confesso que não sou imune a essa curiosidade. Mas nunca fiz o que o herói de meu livro resolveu fazer.  

QUE TIPO DE FILÓSOFO SE DEVE LER?
Aqueles que escreveram sobre a vida, e não somente sobre abstrações. Aqueles que falaram sobre a psicologia humana antes mesmo de essa ciência existir. Além de Nietzsche e Schopenhauer, dos quais já tratei em meus romances, estou pensando em nomes como Sartre, Camus, Platão ou Epicuro. Aliás, esse antigo filósofo grego me interessa especialmente. Estou escrevendo sobre ele no momento.

MUITA GENTE DIZ QUE A PSICANÁLISE ESTÁ ULTRAPASSADA. ESTÁ MESMO?
Alguns conceitos da época em que Freud a criou, sim. A maneira de lidar com o paciente era muito passiva. Eu acredito que o terapeuta precisa ser mais engajado e menos impessoal. Esse tipo de relação surte mais resultado. Por outro lado, Freud criou conceitos cuja força permanece igual – como as idéias de que o inconsciente, sem que percebamos, pode interferir em nosso comportamento e de que os sonhos trazem revelações importantes sobre nós.  

EM QUANDO NIETZSCHE CHOROU, O SENHOR INVENTOU UM ENCONTRO ENTRE O FILÓSOFO ALEMÃO FRIEDRICH NIETZSCHE E O MÉDICO JOSEF BREUER, MENTOR DE FREUD. POR QUE ESCOLHEU ESSES PERSONAGENS?
A verdade é que eu preferiria que ele tivesse sido tratado por Freud no livro. Seria muito mais interessante, mas infelizmente era impossível. Na época da história, Freud era apenas um jovem estudante de medicina e não tinha feito nada na área da psiquiatria. Por isso usei Breuer, seu mentor. Era esse o caminho plausível. Meses depois da publicação do livro, fui procurado por um pesquisador dos arquivos de Nietzsche. Ele havia descoberto que amigos comuns de Breuer e do filósofo tentaram organizar um encontro entre eles. Parece que a irmã dele, que o tutelava muito, não gostou da idéia e barrou o encontro.  

NO LIVRO, NIETZSCHE NÃO APENAS RECUSA O TRATAMENTO COMO DESAFIA O MÉDICO CONSTANTEMENTE. O SENHOR GOSTA DE PACIENTES ASSIM?
Situações com um pouco de conflito fornecem informações importantes sobre a pessoa e sua natureza e ajudam o tratamento. Além disso, pacientes que me desafiam e discutem comigo costumam ser interessantes.

 
 
 
 
topovoltar