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Auto-retrato Irvin
Yalom
Divulgação
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O
psiquiatra americano Irvin Yalom, de 74 anos, é autor de best-sellers como
Quando Nietzsche Chorou, que está há quarenta semanas na lista
de livros mais vendidos de VEJA, e A Cura de Schopenhauer, que vendeu 100
000 cópias desde que foi lançado no país, no ano passado.
Nesta semana, outro de seus títulos chega ao Brasil, Mentiras no Divã.
Yalom falou à repórter Paula Neiva
O
SENHOR ESCREVE ROMANCES QUE FALAM DE FILÓSOFOS E TERAPEUTAS. POR QUE O
CRUZAMENTO DE TANTAS ÁREAS, EM VEZ DE SE MANTER RESTRITO A UMA ÚNICA
ESPECIALIDADE? Porque acredito que é nesse cruzamento que podemos
compreender a nossa vida interior. A psicoterapia, a filosofia e a literatura
em todas encontramos idéias valiosas. Todas podem ajudar.
UM PERSONAGEM DE A CURA DE SCHOPENHAUER
SUPERA SUA DOENÇA LENDO OS LIVROS DO FILÓSOFO ALEMÃO. LER
FILOSOFIA PODE MESMO RESOLVER PROBLEMAS? A filosofia pode ser uma grande
aliada do terapeuta. Uso essa combinação no consultório com
meus pacientes e acredito tanto nela que escrevi um livro teórico sobre
o assunto, Existential Psychotherapy (Psicoterapia Existencial).
EM A CURA DE SCHOPENHAUER, UM PSIQUIATRA
RECEBE A NOTÍCIA DE QUE ESTÁ COM UMA DOENÇA TERMINAL E DECIDE
PROCURAR UM PACIENTE ANTIGO QUE NÃO CONSEGUIU CURAR. O SENHOR JÁ
TEVE ESSA VONTADE? Recentemente, revendo alguns arquivos, me encontrei
fazendo várias vezes perguntas deste tipo: Como será que está
essa pessoa? O que aconteceu com esse paciente? Confesso que não sou imune
a essa curiosidade. Mas nunca fiz o que o herói de meu livro resolveu fazer.
QUE TIPO DE FILÓSOFO SE DEVE LER?
Aqueles que escreveram sobre a vida, e não somente sobre abstrações.
Aqueles que falaram sobre a psicologia humana antes mesmo de essa ciência
existir. Além de Nietzsche e Schopenhauer, dos quais já tratei em
meus romances, estou pensando em nomes como Sartre, Camus, Platão ou Epicuro.
Aliás, esse antigo filósofo grego me interessa especialmente. Estou
escrevendo sobre ele no momento. MUITA GENTE
DIZ QUE A PSICANÁLISE ESTÁ ULTRAPASSADA. ESTÁ MESMO?
Alguns conceitos da época em que Freud a criou, sim. A maneira de lidar
com o paciente era muito passiva. Eu acredito que o terapeuta precisa ser mais
engajado e menos impessoal. Esse tipo de relação surte mais resultado.
Por outro lado, Freud criou conceitos cuja força permanece igual
como as idéias de que o inconsciente, sem que percebamos, pode interferir
em nosso comportamento e de que os sonhos trazem revelações importantes
sobre nós. EM QUANDO NIETZSCHE
CHOROU, O SENHOR INVENTOU UM ENCONTRO ENTRE O FILÓSOFO ALEMÃO
FRIEDRICH NIETZSCHE E O MÉDICO JOSEF BREUER, MENTOR DE FREUD. POR QUE ESCOLHEU
ESSES PERSONAGENS? A verdade é que eu preferiria que ele tivesse
sido tratado por Freud no livro. Seria muito mais interessante, mas infelizmente
era impossível. Na época da história, Freud era apenas um
jovem estudante de medicina e não tinha feito nada na área da psiquiatria.
Por isso usei Breuer, seu mentor. Era esse o caminho plausível. Meses depois
da publicação do livro, fui procurado por um pesquisador dos arquivos
de Nietzsche. Ele havia descoberto que amigos comuns de Breuer e do filósofo
tentaram organizar um encontro entre eles. Parece que a irmã dele, que
o tutelava muito, não gostou da idéia e barrou o encontro.
NO LIVRO, NIETZSCHE NÃO APENAS RECUSA
O TRATAMENTO COMO DESAFIA O MÉDICO CONSTANTEMENTE. O SENHOR GOSTA DE PACIENTES
ASSIM? Situações com um pouco de conflito fornecem informações
importantes sobre a pessoa e sua natureza e ajudam o tratamento. Além disso,
pacientes que me desafiam e discutem comigo costumam ser interessantes. |