Edição 1947 . 15 de março de 2006

Índice
Millôr
Stephen Kanitz
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Auto-retrato
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

André Petry
Os bons costumes

"O que é mais ofensivo aos bons costumes? Um beijo gay exibido em outdoors em São
Paulo ou um plenário lotado de deputados
aplaudindo
um crime?"

É curioso o que o Brasil faz com o Brasil. Um beijo gay, estampado em vinte outdoors em São Paulo, foi retirado às pressas dos olhos do público. Aconteceu na quarta-feira. Os outdoors mostravam dois homens, ambos de torso nu, beijando-se sob a palavra "liberdade". O anúncio fazia parte da campanha publicitária de uma empresa que vende preservativos e cujo público-alvo são os homossexuais. A empresa exigiu explicações para o que entendeu ser uma censura à sua publicidade, a questão ainda permanece nebulosa, e um vereador, Carlos Apolinário, do PDT, mostrou-se tão indignado com o tal beijo gay que chegou a pedir ao Ministério Público a punição dos responsáveis por "ultraje ao pudor". O vereador fez questão de dizer que não é homofóbico, mas defende "a família e os bons costumes".

Ora, deve haver algo muito errado com os bons costumes no Brasil.

Na mesma quarta-feira, à noite, os deputados absolveram dois colegas que comprovadamente pegaram dinheiro de caixa dois – um crime previsto numa lei aprovada pelos próprios deputados. No caso de Roberto Brant, que pegou 102.000 reais no valerioduto, sua defesa feita na tribuna chegou a ser aplaudida pelos deputados. Em pé. Seu mandato foi salvo com 283 votos. Na votação seguinte, 253 deputados inocentaram Professor Luizinho, que sacou 20.000 reais do valerioduto. Ao final dos trabalhos, o presidente da Câmara, deputado Aldo Rebelo, conhecido como "Boneco de Olinda" em razão daquele seu caminhar com os braços imóveis e rentes ao corpo, disse que a decisão combina com a "tradição democrática" da Câmara...

O que é mais ofensivo aos bons costumes? Um beijo gay exibido em outdoors em São Paulo ou um plenário lotado de deputados aplaudindo um crime? É indiscutível que há quem se sinta desconfortável diante da imagem de dois homens se beijando, mas é preciso não perder de vista que esse gesto não é ilegal. Já os deputados ofendem a lei com a acintosa absolvição de gente que cometeu crime – e crime brabo, feio, pesado, pois caixa dois não tem nada da inocência que se apregoa, sendo sempre produto de corrupção e outras fraudes. Diante disso, em nome da família brasileira, em nome dos seus melhores valores e melhores costumes, aí vai uma recomendação: deixem os gays em paz, com beijo ou sem beijo – mas, da próxima vez, quando a televisão mostrar o plenário da Câmara, tirem as crianças da sala.

Na semana passada, alguns leitores escreveram protestando contra o uso, por este colunista, do termo "autismo" para se referir à cegueira ética e moral de grandes estrelas do PT. Um deles é Valéria Llacer, mãe de um autista de 16 anos e mestra em educação especial e autismo na Inglaterra. "Autistas não mentem jamais. Eles não reconhecem o que chamamos de estado mental. Eles não sabem o que são as terceiras, quartas, quintas intenções alheias", diz ela em sua carta, para concluir: "Já dá para perceber que Lula, Palocci e cia. nada têm de autismo". Sábias palavras.

 
 
 
 
topo voltar