Edição 1 640 - 15/3/2000

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Polícia

O fantasma da Amazônia

O repórter de VEJA foi seqüestrado quando
apurava a história de Carlos Medeiros, que
não existe, mas é o maior proprietário de
terras do mundo

 

Montagem sobre foto de Irmo Celso

Existe um sujeito chamado Carlos Medeiros, em nome de quem estão registrados 120 000 quilômetros quadrados de terra espalhados pelo Pará. Isso dá 1,5% do território nacional. Para compreender a grandiosidade dessa extensão de terra, vale dizer que equivale à soma dos territórios de Portugal e Bélgica. É verdade que as terras ficam no fim do mundo, no meio do matão amazônico. Mas o conjunto das áreas de Carlos Medeiros é tão gigantesco, podendo-se supor que por lá exista riqueza mineral significativa, que o caso ganha um destaque obrigatório. Pois bem: o mais incrível nessa história nem é o tamanho das glebas do senhor Medeiros. Mais do que isso, espanta o fato de que ele, Carlos Medeiros, não existe. É um fantasma criado por aquela que o Ministério Público Federal, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o Instituto de Terras do Pará (Iterpa) e a Polícia Civil acreditam ser a maior quadrilha de grilagem de terra em atividade no país.

 
Sérgio Dutti
Ana Araújo
Almir Gabriel, que ofereceu escolta ao repórter, e Jungmann: o fantasma na mira do ministério

A máfia de Medeiros vem sendo perseguida pela polícia há anos e já foi tema de diversas reportagens, uma delas, de grande envergadura, publicada em O Estado de S. Paulo, de autoria do jornalista José Casado. Nas últimas cinco semanas, o correspondente de VEJA em Belém, Klester Cavalcanti, esteve empenhado em compreender como uma quadrilha tão ativa na Amazônia permanece intocada feito mata virgem. Durante o processo de apuração da notícia, ele conheceu da pior forma possível um dos expedientes empregados pela quadrilha para manter-se impune: a violência. Depois de entrevistar pessoas suspeitas de integrar a máfia, o correspondente de VEJA recebeu telefonemas anônimos com ameaças de morte – até que acabou capturado numa rua de Belém por um grupo de mascarados armados, durante o Carnaval. Colocado num carro, foi levado para o meio da selva, onde o abandonaram depois de amarrá-lo a uma árvore, sempre com um saco plástico preto na cabeça. Klester conseguiu soltar-se, achou uma estrada e chegou a um posto policial. Mais tarde, contou sua história ao secretário de Segurança do Pará, Paulo Sette Câmara, e registrou um boletim de ocorrência. Por determinação do governador Almir Gabriel, policiais foram destacados para proteger Klester. VEJA agradece a atenção dada pelo governo ao repórter, mas, por medida de segurança, decidiu transferi-lo para outro posto. (Veja a história do seqüestro)

Vivos, mortos e laranjas – O trabalho de desmascaramento da quadrilha foi feito por um procurador do Pará, Carlos Lamarão. Há alguns anos, quando trabalhava como diretor do departamento jurídico do Iterpa, Lamarão recebeu denúncia envolvendo um certo Medeiros, que estaria se apropriando de terras do governo. O procurador iniciou um levantamento minucioso listando as propriedades em nome desse senhor. Foram semanas mergulhado num oceano de escrituras. Chegou a um número absurdo de glebas e iniciou duas frentes de apuração. Numa delas, foi checar a origem das propriedades. Constatou que pertenciam à União ou ao governo do Estado e que jamais foram vendidas a quem quer que fosse. Na outra frente de apuração, contou com a ajuda das polícias Civil e Federal. Lamarão queria saber quem era o malandrão que se apropriava de terras públicas. Com base nos "documentos" de Medeiros que apareciam nas escrituras, descobriu que o sujeito era apenas um nome fictício. Os papéis ou pertenciam a pessoas mortas ou a pessoas que não tinham onde cair mortas, os chamados laranjas.

Lamarão descobriu, então, que a quadrilha trabalha com a ajuda de uma rede de advogados que se apresentam como procuradores de Medeiros. Até onde se sabe, são eles (muito vivos, como já deu para perceber) os "pais" de Medeiros. Um desses procuradores se chama Flávio Augusto Titan Viegas. Aos 72 anos, Viegas se apresenta em Belém como corretor de imóveis e empresário. Mora num sobrado localizado num bairro nobre da capital paraense e tem uma picape S-10 estacionada na garagem. Titan Viegas possui uma procuração de Carlos Medeiros devidamente registrada em cartório, datada de 1981. De acordo com dados da polícia, Viegas respondeu a quatro processos por estelionato. Chegou a ser preso em 1995 acusado de fazer parte da quadrilha, mas acabou sendo solto três semanas depois por falta de provas. Continua livre até hoje. Após mais quatro anos de investigações, Lamarão chegou à conclusão de que Titan Viegas é um forte candidato a chefe da quadrilha. "Ele estava presente quando tudo começou e permanece envolvido com essa história até hoje", diz o procurador. Localizado pelo repórter de VEJA para explicar sua ligação com Carlos Medeiros, Titan Viegas negou o envolvimento.

O Iterpa estima que existam mais de 1.300 títulos de terra clandestinos em nome do fantasma. São propriedades espalhadas por 89 municípios do Estado. Nada é plantado, criado ou construído nessas fazendas. As terras são apenas revendidas. A clientela se divide em dois grandes grupos. Um deles é formado por pessoas que acabam comprando as propriedades de boa-fé. Calcula-se que 4.000 pessoas já tenham adquirido escrituras frias de Medeiros. Muitos desses compradores tiveram uma surpresa quando foram atualizar o cadastro de suas propriedades no Iterpa. Eles descobriram que elas pertenciam, na verdade, ao Estado ou à União. Foi quando as primeiras denúncias sobre o esquema do fantasma começaram a aparecer.

Velhos vilões – A outra clientela da quadrilha é muito mais pesada. As investigações da polícias Civil e Federal indicam uma grande proximidade entre o esquema do fantasma e velhos vilões da região amazônica: as madeireiras. Elas são peça importante no quebra-cabeças da grilagem. A preço de banana, os donos de madeireiras compram terras de Carlos Medeiros e começam a derrubar as árvores e comercializar a madeira. Comprar um hectare de terra de Carlos Medeiros é um ótimo negócio para os serradores de árvores. Em média, um hectare é vendido na região por 30 reais. Nas terras de Medeiros, o preço cai para até 2 reais. Quando são pegas, fica difícil acusá-las de grilagem. Elas sempre podem alegar que foram enganadas. O caso mais recente é o de uma área de 140 quilômetros quadrados no município de Santarém. Compradas de Medeiros pela madeireira Cemex, as terras incluem uma área destinada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) ao assentamento de 450 famílias de agricultores sem-terra. O caso só foi descoberto quando os tratores da empresa começaram a derrubar as árvores dentro do assentamento dos lavradores. As famílias denunciaram o problema e a empresa foi proibida de entrar na área. O diretor-presidente da Cemex, José Baranek, garante que comprou as terras sem saber que estava se envolvendo numa fraude. "Comprei porque havia uma escritura do próprio cartório dizendo que o imóvel era desse Carlos Medeiros", diz Baranek.

O espectro de Carlos Medeiros vem assombrando o Estado do Pará há 25 anos. Foi em 1975 que Titan Viegas se apresentou à Justiça como procurador do fazendeiro. Ele reivindicava a posse de 90.000 quilômetros quadrados de terras no Pará, pertencentes a dois coronéis portugueses. Esses coronéis teriam recebido as terras em meados do século XIX, por meio de sesmarias, títulos de posse instituídos pela coroa portuguesa ainda no tempo em que o Brasil era colônia. Em 1967, o inventário com as propriedades dos dois portugueses desapareceu de um cartório de Belém. Oito anos mais tarde, Titan Viegas pediu a reconstituição do inventário, reivindicando o espólio para Carlos Medeiros. Numa decisão inédita, o juiz Armando Bráulio Paul da Silva concedeu um termo de posse em nome de Medeiros. Hoje, aos 67 anos, o juiz fala pouco sobre o assunto. "Tenho a consciência tranqüila. Fiz o que achava correto", diz Paul da Silva.

Desde que se apropriou do espólio de 90.000 quilômetros quadrados dos portugueses, "Medeiros" já se apossou de uma área maior que a do Estado de Alagoas. Essa segunda parte do império foi adquirida com a compra de escrituras falsas no interior do Pará. Totalmente isentos de fiscalização e sem nenhum controle externo, os cartórios dos municípios fincados no meio da Floresta Amazônica são como tabuleiros de vendedor ambulante. Quem paga, leva. De tão absurdas, algumas histórias chegam a ser cômicas. Como a de um funcionário do único cartório de São Félix do Xingu, que todo fim de mês "dava" 10 hectares – o equivalente a dez campos de futebol – ao primeiro indivíduo que lhe trouxesse duas dúzias de garrafas de cerveja. E foi justamente no cartório de São Félix do Xingu que, há 25 anos, Medeiros passou a primeira das muitas procurações em nome de Titan Viegas.

Casos como o de Medeiros só acontecem num Brasil onde grassam a impunidade e a corrupção. Como explicar que uma quadrilha desse porte não tenha sido desbaratada até hoje? Como aceitar que um cartório permita o registro de escrituras falsas e procurações picaretas? Como não acontece nada com ninguém? Recentemente, o Ministério da Política Fundiária e do Desenvolvimento Agrário preparou uma radiografia da grilagem em todo o país, publicada em O Livro Branco da Grilagem de Terras no Brasil. Lá estão listados os maiores e mais famosos casos de assaltos a terras públicas. O fantasmagórico Carlos Medeiros foi o exemplo que mereceu maior destaque. Em segundo lugar aparece o empreiteiro Cecílio do Rego Almeida, que se diz dono de 70.000 quilômetros quadrados, também no Pará. "O caso Carlos Medeiros é muito mais complicado que o de Cecílio Almeida", observa o ministro Raul Jungmann. "Cecílio é um homem real, que todos sabem onde está e cujas supostas propriedades ficam no mesmo município, em Altamira", destaca Jungmann. "Carlos Medeiros tem muito mais terra que Cecílio e suas terras estão pulverizadas em quase todo o Pará", compara. O Ministério da Política Fundiária, para frear o avanço dos grileiros sobre terras públicas, cancelou cadastros de propriedades irregulares emitidos pelo Incra em todo o país. Só no Pará, 422 documentos foram anulados. Mais da metade estava em terras de Carlos Medeiros, o fantasma-latifundiário da Amazônia. A pergunta é: será Carlos Medeiros um fantasma eterno ou aparecerá alguém para acabar com a farra?

 

"Esqueça o Medeiros", ameaçaram os seqüestradores

Para a apuração desta história, o correspondente de VEJA em Belém, Klester Cavalcanti, conversou com delegados, secretários estaduais do Pará, promotores de Justiça, funcionários do Ibama, procuradores, o ministro Raul Jungmann e madeireiros envolvidos na falcatrua. Foram mais de vinte entrevistas.

Antes do seqüestro, na última quarta-feira, o repórter havia recebido duas ameaças anônimas ligadas ao caso. Há duas semanas, deixaram um aviso na portaria do edifício onde mora. O recado: "Não mexa com fantasmas, pra não virar mais um também. Assinado: Carlos Medeiros". Na segunda-feira passada uma voz estranha disse ao telefone: "Esqueça o Carlos Medeiros". Klester retrucou: "Por quê?" A voz respondeu: "É melhor pra você!" O correspondente na Amazônia não deu ouvidos e seguiu em frente com as investigações.

Durante o seqüestro, o jornalista de VEJA foi jogado no banco traseiro de um automóvel. Ainda estava com as mãos livres. De repente, ouviu um diálogo sugestivo. Um de seus captores perguntou ao suposto chefe da operação: "Posso amarrar as mãos dele, sargento?"

O outro respondeu: "Amarra logo e não fala mais nada". Klester viajou durante quase uma hora com um revólver apontado para a cabeça. Terminada a viagem, os bandidos o levaram a uma mata, numa caminhada de quarenta minutos. "Até esse momento, achava que queriam me dar apenas um susto. Quando me levaram para a mata, fiquei com a nítida impressão de que algo pior poderia acontecer", diz o repórter, que foi deixado amarrado a uma árvore.

Sozinho no meio da floresta, Klester começou a roçar a corda com que havia sido amarrado. Ele não sabia se a estratégia estava dando certo, até que depois de meia hora a corda se partiu. Tirou o saco preto que lhe cobria a cabeça e sentiu uma fadiga gigantesca nos braços. Tinha os pulsos feridos. "Naquele momento, eu só pensava em sair da selva e voltar para casa", diz o repórter.

 

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