Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

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Tacadas de mestre

Memórias expõem papel crucial
de Churchill nos preparativos do
Dia D e no pós-guerra


Rinaldo Gama

 
AFP
Churchill: para além de notável estadista, ele foi um exímio prosador

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Trecho do livro

DOS ARQUIVOS DE VEJA
8/6/2005: As memórias do vencedor

Seria injusto afirmar que, ao conceder o Nobel de Literatura a Winston Churchill (1874-1965), em 1953, a Academia Sueca pretendesse premiar apenas o primeiro-ministro da Inglaterra, cujo auge da carreira política ocorrera na primeira metade dos anos 40, em meio à II Guerra Mundial. Para além de notável estadista, Churchill se revelou um exímio prosador quando lidava com o seu tema preferido, no qual se destacou não só como autor mas também, e sobretudo, na pele de personagem: a história. Memórias da Segunda Guerra Mundial – Volume 2: 1941-1945 (tradução de Vera Ribeiro e Gleuber Vieira; Nova Fronteira; 607 páginas; 49 reais), que ganha uma nova edição brasileira, é a prova do talento de Churchill como estrategista da palavra. As duas partes das memórias – a primeira foi reeditada em 2005 – constituem uma condensação dos seis tomos de A Segunda Guerra Mundial, surgidos originalmente entre 1948 e 1953 e que garantiram o Nobel ao primeiro-ministro. Num epílogo datado de 1957, Churchill explica que a forma resumida fora preparada "para uso daqueles que desejem saber o que aconteceu sem se sentir cumulados de pormenores militares". É claro que o livro discorre sobre detalhes das batalhas decisivas. Mas o ponto alto está na apresentação do planejamento de tais ações e nos debates sobre o pós-guerra, algo que, diante da certeza da vitória contra as potências do Eixo, começou a preocupar os "três grandes" – o próprio Churchill, o presidente americano Franklin Delano Roosevelt e o ditador soviético Joseph Stalin.

A narrativa da preparação do desembarque aliado na Normandia é uma das passagens soberbas do volume. Não era para menos. Os historiadores apontam o empenho de Churchill para que a invasão da França só se realizasse quando não houvesse dúvida sobre seu êxito como a tacada mais certeira do primeiro-ministro inglês na guerra. A precipitação teria posto tudo a perder. Realizado a 6 de junho de 1944, o Dia D pegou os alemães de jeito. Despistados pelas forças anglo-americanas, eles esperavam um ataque em outro lugar. Também não imaginavam uma ação militar de vulto num dia de más condições climáticas. Em menos de um ano, Adolf Hitler se suicidaria – e o conflito logo encontraria o seu fim. Só que em lugar de "uma paz justa e durável", conforme Churchill almejava, o que se concretizou foi a "ameaça soviética", a qual, aos olhos do inglês, "substituíra o inimigo nazi". As promessas feitas por Stalin em 1945 na Conferência de Yalta, que reuniu o trio de poderosos, ficaram nesse plano: o das promessas. Num telegrama dirigido em maio ao presidente americano Harry Truman – Roosevelt morrera em abril –, Churchill anotou: "Sempre trabalhei em prol da amizade com a Rússia, mas sinto uma profunda inquietação diante da maneira como eles deturparam as decisões de Yalta. Uma cortina de ferro foi baixada sobre o front deles. Não sabemos o que está por trás dela". O mundo logo saberia. Não por acaso, Churchill observa que era por essa correspondência que gostaria de ser "julgado". Poderia ter escolhido também as suas Memórias, como fez a Academia Sueca.

 
 
 
 
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