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Livros
Tacadas de mestre
Memórias expõem papel crucial de Churchill nos preparativos
do Dia D e no pós-guerra 
Rinaldo Gama
AFP  |
| Churchill: para além de notável estadista,
ele foi um exímio prosador |
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Seria
injusto afirmar que, ao conceder o Nobel de Literatura a Winston Churchill (1874-1965),
em 1953, a Academia Sueca pretendesse premiar apenas o primeiro-ministro da Inglaterra,
cujo auge da carreira política ocorrera na primeira metade dos anos 40,
em meio à II Guerra Mundial. Para além de notável estadista,
Churchill se revelou um exímio prosador quando lidava com o seu tema preferido,
no qual se destacou não só como autor mas também, e sobretudo,
na pele de personagem: a história. Memórias da Segunda Guerra
Mundial Volume 2: 1941-1945 (tradução de Vera Ribeiro
e Gleuber Vieira; Nova Fronteira; 607 páginas; 49 reais), que ganha uma
nova edição brasileira, é a prova do talento de Churchill
como estrategista da palavra. As duas partes das memórias a primeira
foi reeditada em 2005 constituem uma condensação dos seis
tomos de A Segunda Guerra Mundial, surgidos originalmente entre 1948 e
1953 e que garantiram o Nobel ao primeiro-ministro. Num epílogo datado
de 1957, Churchill explica que a forma resumida fora preparada "para uso daqueles
que desejem saber o que aconteceu sem se sentir cumulados de pormenores militares".
É claro que o livro discorre sobre detalhes das batalhas decisivas. Mas
o ponto alto está na apresentação do planejamento de tais
ações e nos debates sobre o pós-guerra, algo que, diante
da certeza da vitória contra as potências do Eixo, começou
a preocupar os "três grandes" o próprio Churchill, o presidente
americano Franklin Delano Roosevelt e o ditador soviético Joseph Stalin.
A narrativa da preparação
do desembarque aliado na Normandia é uma das passagens soberbas do volume.
Não era para menos. Os historiadores apontam o empenho de Churchill para
que a invasão da França só se realizasse quando não
houvesse dúvida sobre seu êxito como a tacada mais certeira do primeiro-ministro
inglês na guerra. A precipitação teria posto tudo a perder.
Realizado a 6 de junho de 1944, o Dia D pegou os alemães de jeito. Despistados
pelas forças anglo-americanas, eles esperavam um ataque em outro lugar.
Também não imaginavam uma ação militar de vulto num
dia de más condições climáticas. Em menos de um ano,
Adolf Hitler se suicidaria e o conflito logo encontraria o seu fim. Só
que em lugar de "uma paz justa e durável", conforme Churchill almejava,
o que se concretizou foi a "ameaça soviética", a qual, aos olhos
do inglês, "substituíra o inimigo nazi". As promessas feitas por
Stalin em 1945 na Conferência de Yalta, que reuniu o trio de poderosos,
ficaram nesse plano: o das promessas. Num telegrama dirigido em maio ao presidente
americano Harry Truman Roosevelt morrera em abril , Churchill anotou:
"Sempre trabalhei em prol da amizade com a Rússia, mas sinto uma profunda
inquietação diante da maneira como eles deturparam as decisões
de Yalta. Uma cortina de ferro foi baixada sobre o front deles. Não sabemos
o que está por trás dela". O mundo logo saberia. Não por
acaso, Churchill observa que era por essa correspondência que gostaria de
ser "julgado". Poderia ter escolhido também as suas Memórias,
como fez a Academia Sueca. |