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Livros Baile
de máscaras Quase nada é o que parece ser
na novela Carnaval  Moacyr
Scliar
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Ao contrário
do que seria de esperar, o Carnaval não é um tema freqüente
na literatura brasileira. Contam-se nos dedos as obras devotadas a ele, como o
conto Antes do Baile Verde, de Lygia Fagundes Telles, e a peça teatral
Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes. A novela Carnaval
(Objetiva; 132 páginas; 29,90 reais), do jornalista e escritor
João Gabriel de Lima, é um belo acréscimo à lista.
Ela não trata desse universo pelo ângulo turístico
a ênfase não está no rebolado das mulatas na avenida. O Carnaval
carioca serve como pano de fundo para uma narrativa que fala sobre os relacionamentos
no Brasil urbano dos dias atuais. A história é contada em primeira
pessoa por Pedro, dono de uma locadora de DVDs em São Paulo. Casado com
uma executiva, ele vê sua vida amorosa ser sacudida quando conhece uma chef
de restaurante, Lenita. Pedro planeja um encontro com ela no Rio de Janeiro, onde
Lenita desfilará numa escola de samba. Nos dias de Carnaval, ele vai criar
para si próprio e para as pessoas à sua volta uma espécie
de samba-enredo em que nem tudo é o que parece ser. Bruno
Veiga
 | | João
Gabriel de Lima: Cartola com Debussy |
João
Gabriel alude ao Carnaval como uma festa de disfarces. É menos o Carnaval
do Rio e mais o Carnaval de máscaras de Veneza: as pessoas têm duas
existências, uma real e outra de aparência. Eis como o narrador se
refere a uma personagem: "É possível reconstituir a história
de Paula a partir das canções que ela inspirou". Ou seja, existe
uma Paula de carne e osso e uma Paula musa. Outro personagem é um velho
sambista, Zédinho da Mangueira, cujos sambas nunca são aproveitados
pelas escolas por soarem sofisticados demais. Mais adiante, Pedro constata que
Zédinho não passa de um compositor banal, que confere um ar pomposo
a suas letras com palavras como "divinal" e "relicário".
Ex-bolsista da Escola Nacional de Música, o compositor descobrira que seu
verdadeiro talento era "copiar com maestria". E aí misturava
Cartola com Debussy. O autor fala de coisas que
conhece. Ele é formado em música e mora no Rio desde 2004, onde
atua como repórter na sucursal de VEJA. Seu primeiro romance, O Burlador
de Sevilha, de 2001, era uma atualização do mito literário
do conquistador Don Juan. Carnaval também remete a clássicos
a peça Noite de Reis, de Shakespeare, e a ópera
Così Fan Tutte, de Mozart. Ambos os livros compartilham os temas da
sedução e do engano. Os dois têm narrativa veloz (mas não
apressada), histórias que se cruzam e se superpõem, menções
à música e ao cinema. Trata-se do que se convencionou chamar de
pós-modernismo mas sem a afetação associada ao termo.
João Gabriel sabe dosar esses componentes em sua ficção.
E prende o leitor com uma narrativa envolvente. |