Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

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Baile de máscaras

Quase nada é o que parece
ser na novela Carnaval


Moacyr Scliar

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Trecho do livro

Ao contrário do que seria de esperar, o Carnaval não é um tema freqüente na literatura brasileira. Contam-se nos dedos as obras devotadas a ele, como o conto Antes do Baile Verde, de Lygia Fagundes Telles, e a peça teatral Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes. A novela Carnaval (Objetiva; 132 páginas; 29,90 reais), do jornalista e escritor João Gabriel de Lima, é um belo acréscimo à lista. Ela não trata desse universo pelo ângulo turístico – a ênfase não está no rebolado das mulatas na avenida. O Carnaval carioca serve como pano de fundo para uma narrativa que fala sobre os relacionamentos no Brasil urbano dos dias atuais. A história é contada em primeira pessoa por Pedro, dono de uma locadora de DVDs em São Paulo. Casado com uma executiva, ele vê sua vida amorosa ser sacudida quando conhece uma chef de restaurante, Lenita. Pedro planeja um encontro com ela no Rio de Janeiro, onde Lenita desfilará numa escola de samba. Nos dias de Carnaval, ele vai criar para si próprio e para as pessoas à sua volta uma espécie de samba-enredo – em que nem tudo é o que parece ser.

Bruno Veiga
João Gabriel de Lima: Cartola com Debussy

João Gabriel alude ao Carnaval como uma festa de disfarces. É menos o Carnaval do Rio e mais o Carnaval de máscaras de Veneza: as pessoas têm duas existências, uma real e outra de aparência. Eis como o narrador se refere a uma personagem: "É possível reconstituir a história de Paula a partir das canções que ela inspirou". Ou seja, existe uma Paula de carne e osso e uma Paula musa. Outro personagem é um velho sambista, Zédinho da Mangueira, cujos sambas nunca são aproveitados pelas escolas por soarem sofisticados demais. Mais adiante, Pedro constata que Zédinho não passa de um compositor banal, que confere um ar pomposo a suas letras com palavras como "divinal" e "relicário". Ex-bolsista da Escola Nacional de Música, o compositor descobrira que seu verdadeiro talento era "copiar com maestria". E aí misturava Cartola com Debussy.

O autor fala de coisas que conhece. Ele é formado em música e mora no Rio desde 2004, onde atua como repórter na sucursal de VEJA. Seu primeiro romance, O Burlador de Sevilha, de 2001, era uma atualização do mito literário do conquistador Don Juan. Carnaval também remete a clássicos – a peça Noite de Reis, de Shakespeare, e a ópera Così Fan Tutte, de Mozart. Ambos os livros compartilham os temas da sedução e do engano. Os dois têm narrativa veloz (mas não apressada), histórias que se cruzam e se superpõem, menções à música e ao cinema. Trata-se do que se convencionou chamar de pós-modernismo – mas sem a afetação associada ao termo. João Gabriel sabe dosar esses componentes em sua ficção. E prende o leitor com uma narrativa envolvente.

 
 
 
 
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