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Livros A
volta da coleção Depois de quase
quebrar, a Barsa resiste à internet e amplia vendas  Fábio
Portela
Antonio
Milena
 | | Barsa:
desde 1964, a venda só é feita de porta em porta |
A
enciclopédia moderna foi criada em meados do século XVIII por filósofos
iluministas, que pretendiam reunir todo o conhecimento humano em uma coleção
de livros. O ideal iluminista transformou-se num negócio lucrativo no século
XX, quando os livrões se tornaram acessíveis a qualquer família:
muitas vezes sozinha (ou ao lado de uma Bíblia), a enciclopédia
preenchia as estantes da casa e garantia que as crianças tivessem onde
pesquisar seus trabalhos escolares. Nos anos 90, contudo, o surgimento da internet
quase decretou o fim das velhas enciclopédias. A rede supria as necessidades
de pesquisa dos estudantes, com a vantagem de ser mais barata e rápida.
Por causa da internet, as vendas da Barsa, o principal título do
Brasil e da América Latina, caíram 70% em 1995. Sua editora, de
mesmo nome, entrou no vermelho e, em 2000, acabou vendida ao grupo espanhol Planeta.
Os novos donos não mudaram o produto, a gestão da empresa nem o
marketing da Barsa, que ainda é feito de porta em porta. Ainda assim,
a marca se reabilitou. Nos últimos cinco anos, o faturamento triplicou.
As projeções indicam que as vendas voltarão em 2007 aos patamares
de 1994, antes da febre da internet. A Barsa
não foi a única enciclopédia a sofrer com o advento da internet.
A rede provocou mudanças em todo o setor. Algumas publicações
embarcaram no mundo digital. A Britannica, a mais tradicional e
conceituada do ramo, descobriu que a internet não era sua inimiga. Em 1998,
chegou a eliminar sua edição em papel e passou a manter apenas uma
virtual. Em 2003, voltou atrás a pedido do governo americano. Inicialmente,
a Barsa não soube reagir às mudanças. Só se
recuperou quando seus vendedores passaram a convencer a clientela de que a internet
não atende a todas as necessidades escolares de seus filhos. Quando recorrem
à rede em busca de informações, os estudantes se dispersam,
visitam sites que não têm nada a ver com as pesquisas e usam fontes
de credibilidade duvidosa. O argumento sensibilizou os pais. A Barsa acoplou
uma versão em CD-ROM à impressa e mantém um site no qual
os clientes acessam informações sobre os principais temas do noticiário.
Agora, reforma o projeto gráfico, que é o mesmo desde 1964, quando
a enciclopédia foi lançada. A
Barsa foi criada pela americana Dorita Barrett, que descendia de um dos
criadores da Britannica. Seu antepassado, James Tytler, ajudou a
lançar a enciclopédia, em 1768, na Escócia. O rei Jorge III
não gostou do resultado. Considerou o verbete "parto", incluído
nos livros, ofensivo e deportou Tytler e sua família para os Estados Unidos.
Em 1940, Dorita, a herdeira rica e solteirona de Tytler, apaixonou-se pelo diplomata
brasileiro Alfredo Sá e mudou-se para o Rio de Janeiro. Trouxe na bagagem
os direitos sobre a Britannica na América Latina e a decisão
de fazer uma enciclopédia em português. Batizou-a com as iniciais
do seu sobrenome (Bar) e o do seu marido brasileiro (Sá). Sá morreu
em 1962. Em 1966, Dorita casou-se com Waldemiro Putch. Em homenagem a esse enlace,
fez outra enciclopédia. Juntou o apelido do marido (Miro) com suas iniciais
(Dor). A Mirador foi editada até 1994. Dorita
morreu em 1973, mas seu modelo empresarial continua sendo seguido à risca
na Barsa. Ainda é preciso receber um vendedor em casa para comprar
uma coleção. Telefone e internet, nem pensar. É uma questão
de tradição. Os 5 000 vendedores (1.500 no Brasil e os demais no
exterior) se enquadram num figurino. Não fumam, têm boa aparência
e cantam de cor o hino da empresa. Entre as poucas inovações no
seu treinamento, estão as táticas para driblar o interfone, um obstáculo
raro nos tempos de Dorita. Para burlarem o aparato, os vendedores distribuem pequenas
"propinas" para os porteiros, como canetas e bonés. O treinamento
é militar no que se refere ao seu maior segredo: só podem dizer
a palavra Barsa quando já estão aboletados no sofá
do cliente. A razão é clara: poucas profissões despertam
um instinto de fuga tão vigoroso quanto a de vendedor de enciclopédia.
Uma vez contratados, eles se submetem a uma versão corporativa da Abin,
o órgão federal de arapongagem. A cada noventa dias, a Barsa
puxa a ficha de seus funcionários no banco, na Serasa e no SPC. Quem entra
no cheque especial tem de se explicar ao chefe. A Barsa impõe a
mesma linha dura a seus funcionários do México, da Argentina, do
Chile e da Venezuela, que têm edições adaptadas às
necessidades locais. Com esse modelo, firmou-se no terceiro lugar no ranking mundial
das enciclopédias. Perde apenas para a Britannica e para as enciclopédias
da Planeta na Europa. 
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