Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

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Televisão
La Malhación

Como se construiu o sucesso do
grupo RBD, que causou frenesi em
sua passagem pelo Brasil

 
Divulgação

Os atores-cantores do RBD: tumulto na sessão de autógrafos causou três mortes



NESTA REPORTAGEM
Quadro: Rebeldia de gravata

Na manhã do sábado 4, uma sessão de autógrafos do grupo musical mexicano RBD atraiu quase 15.000 pessoas ao estacionamento de um shopping center paulistano. Era cinco vezes mais gente do que previam os organizadores – e o evento terminou em desastre. Três pessoas morreram e 41 ficaram feridas no empurra-empurra que se seguiu à derrubada das grades de proteção que separavam a multidão dos artistas. O frenesi era previsível. O RBD é o braço musical do mais novo fenômeno latino na televisão: o folhetim Rebelde. Exibido pelo SBT na faixa das 18h45, o programa é um similar mexicano da novelinha Malhação, da Rede Globo. Seus personagens são jovens que estudam num colégio de elite e estão às voltas com as questões típicas da idade, como a amizade, o sexo, as drogas e as brigas com os pais. Produzido pela rede Televisa, a mesma de onde saíram dramalhões como Maria do Bairro, Rebelde faz sucesso em 65 países – no Brasil, ostenta 14 pontos de ibope, média robusta para a emissora no horário. Assim como a Vagabanda de Malhação, que impulsionou a carreira de cantora de Marjorie Estiano, o RBD nasceu dentro da trama de Rebelde e dali saltou para uma carreira autônoma. Formado por seis atores-personagens – e dublês de cantores –, já vendeu mais de 3 milhões de CDs e DVDs. No Brasil, foram 500.000 cópias de três discos – um com suas músicas em espanhol, outro com versões das mesmas em português e um terceiro ao vivo.

Rebelde tornou-se uma febre porque fala com eficiência a um estrato de público meio esquecido na TV: os pré-adolescentes, faixa que vai dos 10 aos 13 anos. Faz sucesso em especial entre as garotas, principalmente as das classes C e D – não é por acaso que a recente tragédia teve lugar num bairro da periferia paulistana. Os fãs se identificam com os melodramas vividos pelos personagens e também com sua doce inconseqüência. Num dos primeiros capítulos, os integrantes do RBD invadiram o estúdio de um programa de televisão, amarraram o apresentador e tocaram no ar ao vivo, com o objetivo de conseguir um contrato com uma gravadora. "Os pré-adolescentes adoram tiradas desse tipo, pois estão numa fase em que sonham com autonomia e buscam se diferenciar", diz a psicóloga Lidia Weber, da Universidade Federal do Paraná. Afora os arroubos infanto-juvenis, é bom que se diga, não há lá grande rebeldia – o máximo de ousadia na tal escolinha são as gravatas desalinhadas dos rapazes e as minissaias e botas de cano alto das garotas (bem insinuantes, por sinal).

Embora tenham argumentos até bem parecidos, Rebelde e Malhação dão tratamentos um tanto diferentes ao tema (veja o quadro). A atração da Globo aposta num registro mais naturalista. O programa exibido pelo SBT não nega sua origem mexicana: as interpretações são carregadas, e as tramas abusam da fantasia. A cena em que uma aluna e sua mãe fizeram as pazes em público num evento escolar, por exemplo, foi uma choradeira só. Outra diferença é que, enquanto o colégio de Malhação é todo politicamente correto, o de Rebelde é um internato de elite em que os poucos alunos pobres enfrentam uma sociedade secreta que quer expulsá-los. Quanto à comparação entre o pop insosso da Vagabanda e o do RBD – bem, nesse quesito os dois programas empatam em zero a zero.

 
 
 
 
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