Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

Índice
Millôr
Stephen Kanitz
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Cinema
Alegria & decepção

Como toda adaptação da obra de Jane Austen, Orgulho & Preconceito acerta ali e erra acolá


Isabela Boscov

 

Divulgação
Keira, com Rosamund: a Academia raspou o tacho

Elizabeth Bennett (Keira Knightley) é vivaz e tem um senso de humor infalível. Mas o que lhe sobra em inteligência falta-lhe em experiência, o que a leva a julgamentos desastrados. Ela tem ainda contra si três irmãs caçulas destemperadas, um pai relapso e uma mãe estúpida e vulgar. Elizabeth e sua irmã mais velha, Jane (Rosamund Pike), mais do que merecem o interesse dos aristocráticos Sr. Bingley (Simon Woods) e Sr. Darcy (Matthew Macfadyen). Mas, por causa dessa família inaceitável, Darcy, o mais rico e severo dos dois, decide podar os romances ainda em botão. Para duas moças em idade de casar, no início do século XIX, essa é uma pequena tragédia, como a inglesa Jane Austen (1775-1817) anotou minuciosamente em Orgulho e Preconceito, o livro mais popular de sua pequena e magnífica obra. Será que Bingley terá coragem de se opor a Darcy? Será que Elizabeth vai perceber que Darcy não é um monstro, e sim um cavalheiro que tem o coração (e tudo o mais) no lugar certo? E será que um dia Darcy conseguirá se declarar para Elizabeth sem ofendê-la? Há dois séculos leitores e espectadores continuam sofrendo com essas perguntas como se não tivessem a menor idéia de qual seria a resposta. Orgulho & Preconceito (Pride & Prejudice, Inglaterra/França, 2005), desde sexta-feira em cartaz no país, aposta nesse misto de familiaridade e excitação que Austen soube produzir como ninguém – e, como toda adaptação da escritora, é ela própria um misto de alegria e decepção.

O maior sucesso da nova versão está na mise-en-scène, que reconstitui não uma Inglaterra de museu, mas vibrante, colorida e ruidosa, cheia de animais, bailes e conversas educadas ou nem tanto. Entre os pontos positivos, conta-se a maior parte do elenco, com interpretações sólidas de Macfadyen, Donald Sutherland, Brenda Blethyn e Judi Dench. Seu defeito quase imperdoável, porém, é a escalação de Keira Knightley. Elizabeth era perspicaz, arrojada e independente, mas aqui ela é uma personalidade regressiva, que arfa como uma heroína comum e ri como uma tonta. Nem um ano tão fraco de interpretações femininas, como foi 2005, justifica que a Academia raspe o tacho a ponto de incluí-la entre as indicadas ao Oscar.

 
 
 
 
topovoltar