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Cinema Como
numa tragédia grega
Com sua
força e contundência, Ponto Final marca um novo começo
para Woody Allen  Isabela
Boscov Divulgação
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Scarlett e Rhys-Meyers: a arte já mostrou onde essa traição vai dar, mas os homens
não aprendem |
Chris
(Jonathan Rhys-Meyers) não apenas lê Crime e Castigo; ele
o estuda. Chris está se preparando para ingressar em círculos
mais cultivados e, ao que parece, está também buscando uma
forma de burlar a equação proposta pelo título do clássico
de Fiodor Dostoievski. Protagonista de Ponto Final Match Point (Match
Point, Inglaterra/Estados Unidos, 2005), Chris foi um bom tenista, que jogou
com os melhores. Mas não se equiparou a eles, e precisa agora encontrar
outra fórmula de ascensão social. Empregado como instrutor num exclusivíssimo
clube de Londres, ele se aproveita da aproximação de um "pato" promissor.
Tom (Matthew Goode) é milionário, desocupado e, de maneira muito
benigna, condescendente. Nem ele, nem seus pais, nem sua irmã Chloe (Emily
Mortimer) fazem idéia do sentimento de urgência que a necessidade
e a ambição podem fomentar. Chris é hábil em esconder
esse sentimento e mascará-lo em gratidão (aos pais de Tom, que o
tomam sob suas asas), amizade (por Tom) ou amor (por Chloe, com quem logo se casa).
Não exatamente por mau-caratismo, mas como resposta ao desejo de forjar
um destino onde não parece haver nada. Mas nem tudo na trajetória
de um homem pode ser ponderado. Para Chris, o imprevisto surge na forma da americana
Nola (Scarlett Johansson), noiva de Tom, atriz sem carreira e mulher irresistível.
Chris acha que pode jogar dos dois lados da quadra. É claro que não
pode. Tudo, então, vai evoluir para a fatalidade nesse novo filme de Woody
Allen, que estréia nesta sexta-feira no país com uma indicação
ao Oscar de roteiro original. Não
são poucos os filmes em que Allen perseguiu o efeito de colocar a platéia
na posição do coro de uma tragédia grega uma posição
a partir da qual ela contempla os descaminhos dos personagens e anseia por alertá-los,
sem que tenha, lógico, poder para interferir. Em nenhum de seus filmes,
porém, o diretor atingiu esse efeito com tanta força e equilíbrio
como em Ponto Final. Chris fala o tempo todo na sorte e em como é
ela que decide, tantas vezes, se o resultado de uma ação será
este ou aquele. Mas a sorte, aqui, não passa de um sinônimo coloquial
para fado. Assim como a inocência da esposa traída Chloe ou o desespero
da amante Nola, a soberba de Chris é um sentimento ancestral, e terá
conseqüências também elas ancestrais. Allen articula sua trama
com uma montanha de referências tiradas da literatura, da música,
da pintura e de seu próprio cinema (em especial de Crimes e Pecados),
mas a exigência não é que elas sejam percebidas individualmente
ou compreendidas ao pé da letra. Elas servem, antes, como pano de fundo:
certos erros provêm da condição humana, e por isso os homens
estão condenados a repeti-los através dos séculos, a despeito
de todos os exemplos funestos que a arte imortalizou.
Desde a década de 80 Allen não fazia um filme tão contundente,
completo e distante do tom amesquinhado que marcou muito da sua produção
da última década. É verdade que sua misantropia continua
a deslizar para a misoginia quando perde as estribeiras, Scarlett Johansson
se debate com estridência idêntica à de Anjelica Huston, outra
amante descartada, em Crimes e Pecados. Mas isso é hoje tão
característico de Allen quanto os créditos iniciais sobre fundo
preto, e já deixou de acrescentar ou subtrair. O que importa é que
o cineasta acaba de entrar nos 70 anos com uma potência que se dava por
completamente perdida. Ainda que ele tenha rodado Ponto Final em Londres
por questões financeiras, e não artísticas, a mudança
de locação só lhe fez bem. As veleidades humanas de que ele
trata aqui são as mesmas de toda a sua obra. Sua ressonância, contudo,
é outra, e infinitamente maior. |