Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

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Cinema
Como numa
tragédia grega

Com sua força e contundência,
Ponto Final marca um novo
começo para Woody Allen


Isabela Boscov

 
Divulgação
Scarlett e Rhys-Meyers: a arte já mostrou onde essa traição vai dar, mas os homens não aprendem

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Fotos do filme

DA INTERNET
Trailer

Chris (Jonathan Rhys-Meyers) não apenas lê Crime e Castigo; ele o estuda. Chris está se preparando para ingressar em círculos mais cultivados – e, ao que parece, está também buscando uma forma de burlar a equação proposta pelo título do clássico de Fiodor Dostoievski. Protagonista de Ponto Final – Match Point (Match Point, Inglaterra/Estados Unidos, 2005), Chris foi um bom tenista, que jogou com os melhores. Mas não se equiparou a eles, e precisa agora encontrar outra fórmula de ascensão social. Empregado como instrutor num exclusivíssimo clube de Londres, ele se aproveita da aproximação de um "pato" promissor. Tom (Matthew Goode) é milionário, desocupado e, de maneira muito benigna, condescendente. Nem ele, nem seus pais, nem sua irmã Chloe (Emily Mortimer) fazem idéia do sentimento de urgência que a necessidade e a ambição podem fomentar. Chris é hábil em esconder esse sentimento e mascará-lo em gratidão (aos pais de Tom, que o tomam sob suas asas), amizade (por Tom) ou amor (por Chloe, com quem logo se casa). Não exatamente por mau-caratismo, mas como resposta ao desejo de forjar um destino onde não parece haver nada. Mas nem tudo na trajetória de um homem pode ser ponderado. Para Chris, o imprevisto surge na forma da americana Nola (Scarlett Johansson), noiva de Tom, atriz sem carreira e mulher irresistível. Chris acha que pode jogar dos dois lados da quadra. É claro que não pode. Tudo, então, vai evoluir para a fatalidade nesse novo filme de Woody Allen, que estréia nesta sexta-feira no país com uma indicação ao Oscar de roteiro original.

Não são poucos os filmes em que Allen perseguiu o efeito de colocar a platéia na posição do coro de uma tragédia grega – uma posição a partir da qual ela contempla os descaminhos dos personagens e anseia por alertá-los, sem que tenha, lógico, poder para interferir. Em nenhum de seus filmes, porém, o diretor atingiu esse efeito com tanta força e equilíbrio como em Ponto Final. Chris fala o tempo todo na sorte e em como é ela que decide, tantas vezes, se o resultado de uma ação será este ou aquele. Mas a sorte, aqui, não passa de um sinônimo coloquial para fado. Assim como a inocência da esposa traída Chloe ou o desespero da amante Nola, a soberba de Chris é um sentimento ancestral, e terá conseqüências também elas ancestrais. Allen articula sua trama com uma montanha de referências tiradas da literatura, da música, da pintura e de seu próprio cinema (em especial de Crimes e Pecados), mas a exigência não é que elas sejam percebidas individualmente ou compreendidas ao pé da letra. Elas servem, antes, como pano de fundo: certos erros provêm da condição humana, e por isso os homens estão condenados a repeti-los através dos séculos, a despeito de todos os exemplos funestos que a arte imortalizou.

Desde a década de 80 Allen não fazia um filme tão contundente, completo e distante do tom amesquinhado que marcou muito da sua produção da última década. É verdade que sua misantropia continua a deslizar para a misoginia – quando perde as estribeiras, Scarlett Johansson se debate com estridência idêntica à de Anjelica Huston, outra amante descartada, em Crimes e Pecados. Mas isso é hoje tão característico de Allen quanto os créditos iniciais sobre fundo preto, e já deixou de acrescentar ou subtrair. O que importa é que o cineasta acaba de entrar nos 70 anos com uma potência que se dava por completamente perdida. Ainda que ele tenha rodado Ponto Final em Londres por questões financeiras, e não artísticas, a mudança de locação só lhe fez bem. As veleidades humanas de que ele trata aqui são as mesmas de toda a sua obra. Sua ressonância, contudo, é outra, e infinitamente maior.

 
 
 
 
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